Sexta-feira, 14 de dezembro de 2012 - 10h54
Globalização e complexidade em supply chains
Autoria de WALTER ZINN

Num passado não muito distante, surgiram certas práticas de negócios que levaram a logística a atingir o patamar em que se encontra hoje. Algumas delas permanecem, mas surgiram outras que estão criando novas tendências no supply chain, levando-o a direções diferentes das atuais. Este artigo pretende mostrar quais são essas tendências de negócios e que consequências trarão – caso se confirmem – aos supply chains e também ao cotidiano dos profissionais que atuam no setor.

O artigo abordará, inicialmente, o histórico da evolução da logística, mostrando como chegamos ao ponto atual e porque algumas tendências continuam em voga. Depois, revisará os novos desafios e oportunidades, ressaltando aspectos que podem impactar o supply chain.

Previsões nem sempre se confirmam, mas há algo que podemos afirmar com relativa confiança: as cadeias de suprimento se tornarão mais complexas, como consequência da globalização.

E a forma de lidar com a complexidade passa, obrigatoriamente, pelos profissionais do setor. O gerenciamento dos recursos humanos é hoje uma das grandes preocupações das empresas. Não por acaso, o setor de recrutamento está subindo de importância na hierarquia das empresas nos Estados Unidos, porque é preciso atrair, treinar e reter as pessoas certas para gerenciar seu supply chain.

Evolução da logística

De que forma, nas últimas décadas, o supply chain começou a evoluir e quais foram os fatores que influenciaram esta evolução? Entre os principais gatilhos motivadores devemos listar a tecnologia da informação, a globalização e o poder dos clientes, e verificar de que forma estes geraram as pressões que todos os profissionais sentem no seu dia a dia, tais como administração de custos, oferta de serviços e gestão de riscos. Estas pressões, por sua vez, forçaram as empresas a tomar medidas que garantissem sua viabilidade no mercado e também acrescentaram complexidade em seus supply chains: a multiplicação de produtos e serviços, a ampliação dos pontos de entrega e a terceirização. Esta última elevou o número de parceiros das empresas em suas cadeias logísticas.

Tecnologia da informação. O custo exponencialmente decrescente de manipular a informação continua sendo a maior transformação de nossos tempos e afeta não apenas o supply chain. Acredito que, quando os historiadores do futuro retratarem os tempo atuais, o que mais destacarão será a TI, como esta evoluiu de forma extraordinária e o quanto impactou a humanidade.

Por exemplo, quando cheguei aos EUA, na década de 1970, as cartas que enviava pelo correio para a minha família no Brasil levavam uma semana para chegar. A resposta demorava mais uma semana. Hoje, falamos instantaneamente pelo Skype. Esta mudança ocorreu num prazo de cerca de 40 anos, o que não é nada em termos do desenvolvimento da humanidade. Há apenas quatro décadas, falar pelo Skype pareceria ficção científica.

Essa evolução tecnológica trouxe consigo a capacidade de manipular uma enorme quantidade de dados e informações. O código de barras, por exemplo, permitiu às empresas o acesso a um grande número de dados para tomar decisões, manter informações sobre clientes, analisar custos e tentar reduzí-los.

Isso foi aumentando exponencialmente ao longo dos anos e se mantém em crescimento. Atualmente, muitos telefones celulares têm mais capacidade de processamento do que os maiores computadores tinham há poucas décadas. Paralelamente, houve uma redução igualmente exponencial nos custos dos computadores e softwares, que hoje podem ser obtidos por uma fração do que custavam em um passado recente.

Globalização. Paralelamente à evolução da TI, e também por causa dela, houve uma aceleração do fenômeno da globalização. Os países estão menos distantes, as economias são mais integradas e interdependentes e, cada vez mais, as empresas têm fornecedores e clientes em vários países. As tecnologias que conectam o setor corporativo e os países entre si viajam com muito mais velocidade do que no passado, ajudando a diminuir as fronteiras do planeta.

A globalização gera uma competição mais acirrada entre as empresas, pois abre os mercados a novos competidores regionais ou mundiais. Companhias que antes não tinham muita concorrência, talvez um ou dois competidores locais, agora enfrentam empresas do mundo todo. Em função disso, a globalização cria uma pressão pela qualidade e por custo muito fortes.

O poder do cliente. Este é um fenômeno que vem se acentuando ao longo das últimas décadas e influencia diretamente o supply chain. Historicamente, os canais de distribuição eram instituições controladas pelos fabricantes. Eram eles que ditavam condições para o varejo, que era então constituído, majoritariamente, por pequenas empresas, bem menores que os fabricantes.

Durante a década de 1950 e parte da de 1960, nos Estados Unidos, os fabricantes tinham tanta força que havia leis obrigando os varejistas a vender produtos pelo preço determinado por eles. Estas leis se baseavam no argumento de que os fabricantes haviam investido em inovação e marketing e, portanto, tinham o direito de evitar que os varejistas depreciassem o produto com um preço baixo. Essa ideia, hoje, certamente não teria muita aceitação.

O que aconteceu ao longo desses anos? Em função do crescimento da economia, com o surgimento das grandes redes varejistas nos EUA e em outros países, a maior parte dos supply chains é controlada pelo grande varejo, que impõe condições diferentes daquelas que os fabricantes impunham no passado.

Para controlar a cadeia de suprimentos, fabricantes tradicionalmente investem de forma intensiva em suas marcas. A Apple é um exemplo disso. Em consequência, controlam o varejo porque sabem que o consumidor final quer comprar a sua marca. Assim, podem impor condições comerciais como preço e serviços logísticos. O varejista, que precisa da marca do fabricante para atrair clientes, fica em desvantagem no supply chain.

Mas isso é exceção no mundo atual. Na maioria dos casos, quem tem maior presença no mercado e mantém maior lealdade do consumidor é o varejista. Consumidores são leais ao Home Depot, ao Toys R Us e assim por diante. Neste caso, é o fabricante que precisa do varejista para acessar o mercado. E o que o varejista exige do fabricante não é necessariamente uma marca forte, mas sim preço e serviços logísticos. Para melhor administrar sua cadeia, o varejista exige entregas na hora certa, sem danos ou erros, na embalagem especificada e com notificação avançada de entregas. Esta transferência de poder transformou o supply chain, tornando o serviço logístico extremamente importante na relação cliente-fornecedor.

Outro exemplo de cliente forte, além do grande varejo, é a indústria automotiva, que obriga seus fornecedores a entregar produtos no modelo just-in-time para reduzir estoque, e a localizarem-se próximos à fábrica para reduzir os custos de transporte.

Essa foi, portanto, a evolução do modelo de negócio que trouxe como consequência o grande crescimento da logística. Existe tecnologia de informação em supply chains que possibilita às empresas operar globalmente tanto em vendas como no abastecimento e, ao mesmo tempo, clientes fortes que obrigam estas mesmas companhias a oferecer produtos e serviços logísticos a custos competitivos. A tecnologia possibilita o que a competição exige.

Risco

Como vimos, a logística tem o duplo papel de ter de oferecer um bom nível de serviço aos clientes e, ao mesmo tempo, contribuir para a redução do custo do produto. Como consequência, os supply chains atuais operam com menos estoque e com menores prazos de entrega. Este sucesso trouxe, a reboque, a necessidade da gestão de risco. À medida que o cliente começa a confiar na entrega do fornecedor, reduz seu estoque de segurança (para reduzir seu próprio custo) e começa a correr riscos. Se uma entrega atrasa, existe um risco maior de desabastecimento do que havia no passado, quando os estoques do cliente eram maiores. Da mesma forma, quanto mais globalizada a empresa, maior a exposição ao risco, porque o supply chain fica mais longo e mais exposto a imprevistos.

Por outro lado, a empresa que não reduzir custo para não correr riscos, convive com a certeza do custo mais alto. Portanto, empresas têm de gerir riscos em duas categorias básicas. Uma delas é o risco operacional, que reflete variações diárias na demanda de clientes e nas variações do prazo de entrega de fornecedores. A outra categoria é o risco catastrófico, que reflete eventos de baixa probabilidade de ocorrer, mas com graves consequências quando acontecem, como terremotos, furações e tsunamis, por exemplo. Azar não é desculpa, o risco tem que ser administrado.

Multiplicidade

As três tendências discutidas neste artigo afetaram também outras características do supply chain, porque levaram ao aumento da complexidade do trabalho de logística. Estas características são a multiplicação de produtos e serviços, de pontos de entrega e de parcerias.

Multiplicidade de produtos. Como já foi dito, a globalização aumenta o nível de competição. Quando isso acontece, o Marketing se torna importante, porque uma das principais formas de competir é através do desenvolvimento de novos produtos. O maior número de produtos no mercado adiciona complexidade ao supply chain.

No passado, por exemplo, a variedade de tênis disponível aos consumidores era muito baixa. Apenas duas cores: branco ou preto. Hoje, existe uma grande variedade de modelos e cores disponíveis. O mercado de tênis tornou-se um mercado de moda em que produtos mudam constantemente.

E qual a implicação disso para o supply chain? Além do processo de manufatura, isso exige uma rede de abastecimento mais complexa. O erro em previsões de venda tende a ser mais alto. O nível de estoque em loja também é mais alto, porque o varejista de tênis tem que manter estoque de todos os novos produtos em todos os tamanhos, cores e em todas as lojas. Como este nível de investimento em estoque geralmente não é possível, as lojas têm que manter estoques mais baixos e serem reabastecidas de forma muito mais rápida e frequente. O Quick Response – ou resposta rápida ao consumidor – surgiu, em grande parte, devido a essa necessidade. O serviço logístico de entrega rápida viabiliza a estratégia de Marketing.

Multiplicidade de pontos de entrega. Atualmente, o número de pontos de entrega também é muito maior do que no passado. A noção de “scrambled merchandising” ou “comercialização embaralhada” expressa o fato de que produtos estão, hoje, disponíveis ao consumidor em formas de varejo não- tradicionais. Por exemplo, é possível comprar remédios no supermercado e comida na farmácia; também é possível comprar óleo para o carro no supermercado, alimentos no posto de gasolina e assim por diante. Tudo isso gera uma complexidade maior, que a logística deve viabilizar.

Multiplicidade de parceiros de negócio. Finalmente, em função do aumento da concorrência, houve também o crescimento das parcerias e da terceirização. Quanto mais competitivo um mercado, maior a necessidade de ser competente em todos os aspectos da logística. Isto porque o “ponto fraco”, seja custo de transporte, qualidade de serviço, etc., impede a empresa de ser competitiva em relação ao mercado. Numa situação de baixo nível de competição, a empresa pode se dar ao luxo de ter pontos fracos em sua logística. Por exemplo, ela pode dispor de uma área de transporte ineficiente e de outras áreas – como estoque e serviços – com desempenho melhor. Assim, na média, essa empresa está dentro do nível de competição, considerando que seus concorrentes não são muito melhores.

Quando a competição aumenta, a empresa não pode mais ser competente em apenas alguns aspectos, porque seu concorrente agora é melhor em todos. A empresa é, então, pressionada a elevar sua competitividade rapidamente. E uma das maneiras mais eficientes de fazer isso é terceirizando as áreas menos eficientes. A empresa passa a responsabilidade por essas áreas para alguém que seja especialista, que tenha mais experiência, tecnologia aplicada, economia de escala, etc. Dessa forma, reduz seus custos e pode oferecer preços e serviços mais competitivos.

Portanto, a globalização gerou demanda por parcerias e terceirização. Em mercados competitivos, a regra é desenvolver o seu supply chain não apenas com recursos próprios, mas também com recursos externos.

Esta é a evolução que temos visto ao longo dos anos e é como nós chegamos até o estágio atual do supply chain management. Na segunda parte deste artigo, veremos o impacto destas tendências nas cadeias de abastecimento atuais e também as implicações para a sua gestão.

 

Walter Zinn

Professor de Logística

Chefe do Departamento de Marketing e Logística

Fisher College of Business, Universidade Estadual de Ohio

zinn_13@fisher.osu.edu

 
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