Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019 - 13h59
Custo do frete rodoviário sobe quase o dobro da inflação nos últimos dois anos e reacende a luz de alerta
Autoria de ALESSANDRO SCAPOL COMPATANGELO

A economia brasileira começou a sair do atoleiro no final de 2016, registrando PIB positivo no primeiro trimestre de 2017 após um dos mais longos períodos de resseção de sua história. No entanto, a recuperação da atividade econômica parece ter ressuscitado um fantasma antigo, o da inflação do transporte rodoviário. Nos últimos dois anos o custo do transporte de cargas fracionadas subiu quase o dobro do índice oficial de inflação utilizado pelo governo (IPCA).

O Índice Nacional da Variação de Custos do Transporte Rodoviário de Cargas Fracionadas (INCTF/NTC) apresentou variação positiva de 9.8% entre janeiro de 2017 e dezembro de 2018. Nesse mesmo período o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) registrou uma inflação acumulada de 5.74%.

Aqui se faz importante uma ressalva: esse não é um fenômeno que afeta apenas o Brasil ou os países em desenvolvimento. Os Estados Unidos, que hoje crescem acima de 3% ao ano, e que registram seu melhor momento da economia com pleno emprego, enfrentam ainda maior desafio quando analisado do ponto de vista de inflação relativa.

A inflação anual nos Estados Unidos tem ficado, nos últimos anos, na faixa de 1 a 1.5%. Já a inflação dos fretes rodoviários, desde o início de 2017, parece completamente fora de controle. No final de 2017 a inflação acumulada chegou perto da casa dos 4%. Já em 2018 subiu para 6.3%, aumento de quase cinco vezes a inflação oficial do país. Para 2019 a expectativa é que os preços subam menos, mas ainda assim devem ficar acima dos 3.5%.

O principal responsável por essa escalada dos preços do transporte rodoviário, que também foi muito percebido no Brasil no período do pleno emprego (2009-2011), tem sido a escassez de mão de obra de motoristas. De fato, a falta de motoristas é o maior desafio para que a economia mundial continue crescendo de forma sustentável. De acordo com a American Trucking Associations (ATA), atualmente existe uma necessidade imediata de pelo menos 50 mil motoristas nos Estados Unidos, e esse numero pode chegar a 174 mil em 2026. Somente na próxima década, 890 mil motoristas serão necessários apenas para cobrir a demanda adicional da economia norte americana.

Mas o fato de países de primeiro mundo, como os Estados Unidos, passarem por problemas semelhantes, não deve servir de alento ao Brasil. Não podemos esquecer que enquanto nos Estados Unidos apenas 32% do volume transportado segue pelo modal rodoviário, no Brasil esse numero é quase o dobro, 58%. Isso significa que qualquer impacto significativo na matriz rodoviária afeta em maior intensidade o nosso país pela grande dependência que ainda temos com esse modal.

A maior preocupação atual da indústria de transporte, no mundo todo, é a ausência de motoristas qualificados. Estudos apontam que a única solução para evitar um colapso no sistema de transporte rodoviário seria aumentar o foco na retenção dos profissionais qualificados e criar condições favoráveis para atrair os jovens para essa profissão.

Tecnologias ainda em teste, como a dos carros autônomos, podem ajudar a endereçar parte desse desafio. Mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido até que possamos ver caminhões sendo conduzidos sem a presença do ser humano. E nem ao menos sabemos se isso realmente um dia se viabilizará.

O Brasil ainda tem muita lição de casa a fazer e que nos coloca, por mais estranho que possa parecer, em melhores condições se comparado a países de primeiro mundo, como os Estados Unidos. Digo isso porque ainda temos um potencial muito grande a explorar nos modais ferroviários e hidroviários, que apresentam custos bastante competitivos e ainda, se melhor explorados, aliviariam a pressão de custo, especialmente de mão de obra, do transporte por caminhões.

O desafio é grande. Aumentar malha ferroviária exige muito investimento e o retorno é de longuíssimo prazo. Hoje muitas empresas não utilizam a ferrovia pela limitação de trechos. Por outro lado, a malha é limitada muitas vezes com a alegação de não haver demanda (contrato firme) por parte das empresas. E entramos nesse ciclo vicioso. Não se investe porque não existe carga e não existe carga porque não se investe.

Por conta desses conflitos com visões de curto prazo (empresas e operadores logísticos), é que investimentos em infraestrutura logística precisam estar na agenda de governo. Afinal não adianta colocar esforço apenas na recuperação da atividade industrial/serviços se não tivermos condições de escoar os produtos de forma competitiva.

E já passou da hora de pavimentarmos essa estrada... ou melhor, essa ferrovia.