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Sábado, 20 de maio de 2017 - 11h03
Eficiência no DNA
Com a compra da UTi Worldwide, a dinamarquesa DSV se consolida como o quarto maior operador logístico do mundo em receita. O diretor da companhia no Brasil, Gustavo Silva, explica como a absorção da empresa adquirida reforça a atuação em solo brasileiro e auxilia nos planos de crescimento para os próximos anos, objetivando sempre a maior proximidade possível com os clientes e oferecendo soluções que atendam às necessidades específicas de cada um deles
Fotos: Divulgação DSV

Revista Tecnologística – Conte-nos um pouco a respeito da história da DSV.

Gustavo Silva – A empresa é de origem dinamarquesa e nasceu a partir da associação de transportadores rodoviários daquele país, no ano de 1976. DSV é a sigla para De Sammensluttede Vognmænd (algo como Os Transportadores Associados). Basicamente, foi uma união de empresas que atuavam nesse modal com seus caminhões e viram a oportunidade de se juntar para oferecer melhores serviços, pois, trabalhando juntos, é claro que teriam mais força, e sabemos que o transporte rodoviário é e sempre foi muito relevante na Europa.

Então a DSV não nasceu como um freight forwarder ou um operador logístico, e sim como um prestador de transporte rodoviário de carga, como aconteceu com praticamente todos os grandes operadores logísticos do mundo, que têm origem nessa atividade. Mas é claro que a empresa foi se expandindo, chegando a novos lugares, e as operações e os serviços oferecidos foram crescendo.

Esse crescimento se deu, em um primeiro momento, na própria Dinamarca, depois na Europa e, por fim, em outros continentes. A DSV buscou, ao longo da sua história, crescer por meio da aquisição de outras empresas, além do crescimento orgânico, obviamente. Então foram realizadas várias aquisições e, para o nosso segmento em especial, de agenciamento de transportes internacionais, as compras mais relevantes foram da ABX Logistics, em 2008, e agora, em 2016, da UTi Worldwide.

Tecnologística – A DSV é um operador logístico global, mas no Brasil atua como freight forwarder, correto?

Silva – Sim. Nós nos tornamos o quarto maior 3PL (third-party logistics) do mundo em receita depois da aquisição da UTi, girando em torno de 13 bilhões de dólares. Na DSV nós temos as áreas de Air & Sea, Solutions, que é a parte de armazenagem, e Road, que é o transporte rodoviário. No Brasil somos um freight forwarding. Sob o nome de DSV Air & Sea, nós prestamos serviços que vão desde a coleta até a entrega da carga, exercendo, é claro, todas as atividades envolvidas no processo, como gerenciamento de pedidos e desembaraço aduaneiro, por exemplo.

Na UTi existia uma divisão de logística, e a empresa operava para um grande cliente do setor automotivo, que foi vendido. Quando isso aconteceu, ele decidiu levar a operação para dentro da sua própria estrutura. Isso ocorreu exatamente no momento em que estávamos fazendo a fusão entre a DSV e a UTi, então nós decidimos focar no freight forwarding como nosso core business.

Mas é claro que a DSV é uma gigante global em armazenagem e movimentação, então no futuro podemos analisar esse caminho, de nos tornarmos um operador logístico. A empresa tem essa expertise fora do Brasil, inclusive com uma ampla estrutura própria de transporte e armazenagem. Tanto que hoje boa parte das mercadorias que nós levamos para a Europa, por exemplo, tem todo o gerenciamento feito pela DSV aqui no Brasil e, quando chega ao destino, se nós somos responsáveis pela cadeia de ponta a ponta, é transportada por um caminhão próprio da DSV, armazenada em um centro de distribuição próprio também, e assim por diante.

Tecnologística – Em quantos países vocês estão presentes?

Silva – A DSV conta com unidades em mais de 80 países e uma rede global de parceiros que nos permite oferecer serviços em todo o mundo.

Tecnologística – Desde quando a DSV atua no Brasil?

Silva – A empresa veio para o Brasil em 2012 a convite de um grande cliente do setor automotivo com o qual ela já trabalhava em outros lugares. É um cliente, inclusive, que está conosco até hoje e consiste em um grande parceiro de negócios da DSV. Ele perguntou se a empresa tinha interesse em atuar no Brasil, prestando serviços com bandeira própria, e o desafio foi aceito. Até então a atuação no país acontecia por meio de uma rede de agentes, e foi a partir desse convite que a empresa se estabeleceu de fato no Brasil.

Tecnologística – E a UTi?

Silva – A UTi já estava por aqui desde 1976. É uma empresa de origem norte-americana, mas com muita tradição no Brasil e com muito conhecimento a respeito do mercado nacional. E isso foi levado para dentro da DSV com a aquisição. Durante todo o processo de fusão entre as estruturas, houve uma preocupação muito grande de sempre identificar qual era o melhor dos dois mundos. Então a UTi nos trouxe todo esse know-how a respeito do mercado local. Já a DSV carrega consigo um DNA de eficiência muito grande. Portanto é possível dizer que as empresas se complementaram muito bem, realmente gerando sinergia. Eu mesmo vim da UTi, então consigo perceber muito bem isso.

Tecnologística – Qual foi o valor envolvido na negociação?

Silva – A aquisição da UTi foi a maior já realizada pela DSV, na ordem de 1,35 bilhão de dólares. Foi um negócio que envolveu todos os países em que as duas empresas estavam presentes, a exemplo do que acontecia no Brasil. Aqui o processo de fusão foi concluído no último mês de janeiro, inclusive com a unificação do CNPJ, e no mundo todo a previsão é finalizar esse processo até o final do ano. Já estamos bastante adiantados nesse aspecto.

Tecnologística – O que exatamente muda na DSV com a compra da UTi?

Silva – Como eu disse, a DSV está sempre buscando muita eficiência. Talvez isso venha até mesmo da cultura nórdica, de imprimir muita precisão em tudo que se faz. E a empresa já contava com uma trajetória maravilhosa. Durante o processo de fusão, quando nós estávamos analisando as informações de ambas as empresas, eu pude perceber como toda a estrutura da DSV era realmente impecável, com um bom crescimento, totalmente sustentável e uma excelente carteira de clientes, tirando proveito do ótimo networking que ela tem ao redor do mundo.

Enfim, é difícil falar que faltava alguma coisa. Mas, pensando especificamente no mercado brasileiro, talvez a DSV ainda levasse algum tempo para conhecer as coisas mais a fundo, em termos de legislação local, por exemplo, como na parte aduaneira. Com a compra da UTi, esse conhecimento foi adquirido. Apesar de atuar em diversos países, aqui no Brasil a UTi estava bastante focada em contratos locais, diferente da DSV, que veio para o país trazendo contratos globais.

Tecnologística – E quanto à estrutura física? Como ela era antes da aquisição e como fica agora?

Silva – A presença territorial foi mantida, com um total de oito filiais. O footprint das empresas era bastante semelhante. Temos bases operacionais localizadas em Santos (SP), esta já pertencente à DSV, e em Guarulhos (SP) e Viracopos, em Campinas (SP), que foram integradas com a aquisição da UTi. E tanto a DSV quanto a UTi tinham escritórios em Curitiba, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, em São Paulo e em Campinas (SP). Assim, foram necessárias somente algumas adequações, especialmente em relação aos colaboradores, o que é natural durante um processo de fusão.

Tecnologística – Hoje a empresa conta com quantos colaboradores?

Silva – A DSV começou a atuar no Brasil com duas ou três pessoas, mas de 2012 até 2016 ela cresceu muito. Na época da fusão com a UTi a empresa já contava com 80 colaboradores. Depois do processo, passamos a operar com um total de 310 funcionários. Mas a tendência é que esse número aumente ainda neste ano, com novas contratações acompanhando o crescimento previsto para a empresa, que deve ser de, no mínimo, 15%.

É interessante mencionar, inclusive, que este momento de crise econômica foi bastante interessante para realizar uma aquisição, porque é natural que, durante um processo como esse, os colaboradores das empresas envolvidas se sintam um pouco inseguros. Assim, os bons profissionais, com um nível alto de empregabilidade, podem começar a prestar mais atenção ao mercado, buscando novas colocações. Então é possível dizer que, se nós tivéssemos passado por isso em um momento de economia aquecida, teríamos perdido muita gente. E gente boa, profissionais-chave. Felizmente, isso não aconteceu.

E isso foi muito valioso em vários aspectos. Tanto que, por mais que para nós todo o processo de fusão tenha sido muito trabalhoso, para os clientes de ambas as empresas os efeitos foram bastante suavizados. Nós sabemos que, normalmente, quando uma empresa está sendo adquirida, os concorrentes ficam ansiosos, procurando oportunidades, o que é natural. Mas, tirando proveito desses ótimos e experientes profissionais, o processo foi mais fácil.

Tecnologística – Qual a estratégia da DSV para atingir esse crescimento diante do atual cenário econômico brasileiro?

Silva – Obviamente o Brasil está em crise, mas aqui na DSV nós não podemos dizer que sentimos os efeitos dela. E depois de passar por esse processo de fusão, que expandiu nossa carteira de clientes, o crescimento previsto virá da nossa própria capacidade de gerar valor para esses clientes. Eu costumo dizer que a única coisa que pode limitar o nosso crescimento somos nós mesmos. Se nós não encontrarmos continuamente formas de nos desenvolver e gerar valor, com certeza não vamos crescer.

E é possível gerar valor de diversas formas. Criar um produto ou serviço para atender à necessidade de um cliente é um bom exemplo. Recentemente nós passamos a oferecer o transporte rodoviário internacional, a partir do Brasil, para outros países do Mercosul. A operação nasceu a partir de uma consulta de um cliente específico, que apresentou essa demanda. Nós analisamos o serviço, fizemos uma proposta e o cliente ficou extremamente satisfeito. E aí surgiu a pergunta: por que não fazer para outros clientes? E assim nós passamos de duas para cem carretas por mês nessa operação no Mercosul em apenas quatro meses de atividade.

Tecnologística – Estar atento às necessidades do mercado é uma parte essencial da estratégia então?

Silva – Sem dúvidas. Esse serviço serve como exemplo de uma demanda que existia, não era atendida e a que talvez outros grandes freight forwarders não dessem a devida atenção. Isso tem muito a ver com o DNA de eficiência que a DSV sempre carregou, e que se aplica até hoje. Nós somos uma grande empresa, mas fazemos questão de sermos fáceis de se trabalhar. Somos acessíveis e temos muita proximidade com o cliente, o que é fundamental, pois nos leva a conhecer melhor as reais necessidades de cada um.

O que fez com que esse serviço no Mercosul decolasse foi outro cliente, que tinha um projeto bastante complicado, que ele já tinha tentado executar com outras empresas há algum tempo, mas sem êxito, especialmente devido a problemas em trâmites aduaneiros. Então uma colaboradora nossa, com muito conhecimento nessa área, ficou alocada no cliente por alguns dias e reestruturou essa operação de forma fantástica. E nós ouvimos dele que tudo que nós fazemos realmente tem uma assinatura pessoal. Isso foi muito gratificante.

Nós procuramos fazer tudo sempre da maneira mais eficiente possível, para realmente atender às necessidades dos clientes. Sempre que eles nos perguntam “você pode fazer isso?”, nossa primeira resposta é “vamos analisar”. E é isso que nós fazemos realmente, estudando tudo muito a fundo para prestar o melhor serviço possível. Todo cliente é único. Nossa filosofia não é brigar por preços, até porque isso é o mercado que dita. Nós nos diferenciamos pelo nível de serviço, pela forma com que nos relacionamos com os nossos clientes. Somos o quarto maior operador do mundo, mas procuramos atuar com uma simplicidade tão grande, que os clientes conseguem perceber, e é essa proximidade que eles esperam da gente. A DSV é muito grande, mas se aproxima o suficiente para se importar com cada um dos clientes. Esta é a nossa missão: nós queremos que seja fácil trabalhar com a DSV.

Tecnologística – Como exatamente a aquisição alterou a carteira de clientes da empresa?

Silva – Nós tínhamos a preocupação de manter as duas bases de clientes, é claro, e a DSV e a UTi tinham perfis de negócios muito distintos nesse aspecto. Havia pouquíssimos clientes com os quais ambas as empresas já trabalhavam, então a carteira foi potencializada com a fusão. Temos até mesmo o exemplo de um grande cliente do setor automotivo com o qual a DSV atuava em um elo da cadeia e a UTi em outro, o que fez com que os serviços prestados fossem ampliados.

Além da ampliação, durante o processo de fusão das empresas esse mesmo cliente estava promovendo um BID, e nós conseguimos ganhar essa nova operação também. Essa conquista foi praticamente um certificado de que nós estamos fazendo tudo da melhor maneira possível, não permitindo que a fusão atrapalhasse os negócios. Se houvesse falhas operacionais, que podem acontecer durante esses processos, com certeza o cliente teria escolhido outra empresa.

Tecnologística – Quais são os principais segmentos com os quais vocês trabalham?

Silva – Nossa carteira de clientes, além de ser bastante expressiva, é também muito bem distribuída, o que é muito importante, especialmente em um momento de crise econômica como o atual, em que alguns setores da indústria são mais afetados do que outros. O mercado automobilístico, por exemplo, sofreu com os efeitos da crise, e é muito comum a maioria dos freight forwarders se lastrearem tendo como base clientes desse setor, até porque eles são sempre grandes embarcadores de cargas.

Nós também temos grandes clientes dessa indústria, é claro, e ela faz parte até mesmo da história da vinda da DSV para o Brasil. Mas, como eu disse, nossos negócios são muito bem distribuídos. O mercado automotivo é muito importante e estratégico para a DSV, mas representa cerca de 20% dos nossos negócios, o que mostra bem essa diversidade. Ao mesmo tempo em que atendemos esse segmento, temos também clientes da área farmacêutica, de bens de consumo, como alimentos, e até mesmo de energia eólica, com cargas de projeto.

Tecnologística – Quais são os maiores desafios de se atuar no Brasil?

Silva – Como uma empresa global, eu posso destacar um ponto interessante a respeito de nós, brasileiros, de uma forma geral, que é a preocupação em fazer as coisas da maneira certa. E essa é uma preocupação que, em outros países, não existe, pois as coisas já são feitas da maneira certa naturalmente. Não deve existir outra maneira de se fazer.

Aqui nós ainda temos uma legislação que depende muito de interpretação, existe muita burocracia. E o Brasil apresenta uma alta carga tributária, que muitas vezes inibe alguns negócios e dificulta o desejo de querer inovar. Tudo isso pode causar certo medo, e se você tiver medo de tentar, acaba ficando na mesmice.

Mas nós vemos as coisas mudando. Um bom exemplo é a certificação de Operador Econômico Autorizado (OEA). As empresas estão cada vez mais procurando se certificar e operar dentro dos padrões estabelecidos pela Receita Federal. O programa OEA traz muitos ganhos de eficiência para toda a cadeia. Hoje é possível observar um interesse muito grande nesse sentido. A DSV se certificou como OEA em 2016 e nós estamos estimulando os nossos clientes a se certificarem também, porque isso traz uma mudança de mentalidade muito importante para a eficiência da logística.

Tecnologística – Quais são as suas expectativas quanto à recuperação da economia brasileira para os próximos anos?

Silva – Eu acho que o Brasil está passando por um aprendizado bastante grande. A consciência política que tem sido despertada deve trazer boas consequências, começando pelo fim da impunidade para a classe política, por exemplo. Independentemente de apoiar o movimento A ou o movimento B, a sociedade tem a chance de aprender com tudo o que está acontecendo. E a política é reflexo da sociedade.

É interessante observar as discussões sobre corrupção que nós temos a oportunidade de acompanhar hoje, como sobre o caixa 2, por exemplo, que é óbvio que é crime. E eu digo que é interessante especialmente para nós, que trabalhamos em empresas que seguem à risca todas as regras corporativas e, como gestores, por valor próprio e pessoal, buscamos fazer sempre aquilo que é correto. É isso que a gente deve esperar das pessoas, e simplesmente reconhecer aquilo que é aceitável ou não para uma sociedade já é um grande avanço. Eu sou um otimista por natureza, então acredito que o futuro será melhor.

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