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Terça-feira, 20 de junho de 2017 - 11h27
Logística pura e múltipla
Com uma trajetória que se entrelaça com a própria história dos operadores logísticos no Brasil, a Columbia, uma das mais tradicionais companhias do setor, passou por uma reestruturação e atende agora pelo nome de Columbia Logística, com as demais atividades passando para o controle direto da empresa acionista. Nesse contexto, o CEO Marcelo Brandão faz questão de ressaltar que a missão da companhia é se destacar cada vez mais na prestação de serviços completos para o supply chain com os mais altos níveis de excelência
Fotos: Radamés Jr.

Revista Tecnologística – Em 2017 a Columbia completa 75 anos, correto? Conte-nos um pouco sobre essa história.

Marcelo Brandão A Columbia foi fundada pela família Esteve, até hoje acionista da companhia, como Armazéns Gerais Columbia, em 1942. Na época, devido à Segunda Guerra Mundial, a exportação de commodities para o resto do mundo estava muito prejudicada, então eles decidiram fundar uma empresa para armazenar produtos, em especial o algodão. A Columbia se desenvolveu então apoiada em operações com commodities, mas a partir da década de 1970 ela se inseriu em outro contexto dentro da logística, com o início de atividades alfandegadas, inclusive como a primeira empresa do Brasil a atuar como entreposto aduaneiro.

De lá pra cá a companhia expandiu suas operações em torno da atividade de comércio exterior, tanto na importação quanto na exportação. E no ano de 2000 ela deu um passo muito importante, porque entendeu que no caminho das cargas que saíam das estações aduaneiras e iam para a indústria existiam muitos nós logísticos que precisavam ser desatados. Assim, ela passou a se posicionar no mercado com centros logísticos, sendo a primeira empresa do Brasil a implementar esse conceito. Naquele momento, em especial, os centros de distribuição estavam sempre bastante próximos às estações aduaneiras da companhia, para que fosse possível oferecer um portfólio de serviços bastante abrangente.

Depois disso a Columbia entrou também para o segmento de transporte, fechando esse ciclo de atendimento em toda a cadeia do supply chain. A companhia sempre foi muito orientada ao atendimento das necessidades do cliente, por isso foi se flexibilizando com o passar do tempo para oferecer serviços cada vez mais completos.

Tecnologística – A Columbia também é considerada o primeiro operador logístico nacional, certo?

Brandão Com esse nome, operador logístico, sim. A Columbia já tinha estações aduaneiras, fazia operações de comércio exterior, inaugurou CDs e passou a fazer o transporte, como eu disse, abrangendo todos os elos da cadeia logística. A companhia foi a primeira empresa nacional a implementar o conceito de operador logístico, por meio do CD de Alphaville, em São Paulo, e na época já era uma estrutura muito grande, com 67 mil m². A Columbia sempre foi pioneira em vários sentidos, e isso está no DNA da companhia até hoje. Além disso, ela sempre se destacou muito no aspecto tecnológico, desenvolvendo uma série de sistemas para apoiar todas essas operações.

Tecnologística – O que motivou a venda de parte dos ativos da companhia para o Grupo EcoRodovias e a posterior retomada das operações logísticas?

Brandão A Columbia já vinha sendo abordada por alguns operadores logísticos, tanto nacionais quanto internacionais, e então o acionista optou pela venda de alguns ativos para o Grupo EcoRodovias, por meio da Elog, em 2010. Com isso, a companhia se retirou parcialmente do mercado da logística e focou em outros negócios, como a Columbia Trading, que saiu de uma ação pequena, embrionária, e se tornou uma empresa bilionária, hoje com um faturamento que gira em torno de R$ 2 bilhões ao ano.

Naquele momento, foram mantidos dois ativos de logística no nosso portfólio: a Columbia Nordeste, juntamente com outros dois sócios locais, e a operação portuária em Itajaí (SC), também com um sócio local. Em seguida a companhia optou pela venda dessa operação na Região Sul também, justamente por estar investindo muito forte em seus processos próprios de importação e exportação por meio da Columbia Trading, que já estava bastante consolidada no mercado e descentralizada em relação às operações desenvolvidas até então em Santa Catarina.

Naquela época o marco regulatório para áreas alfandegadas estava sendo discutido em Brasília e existiam inúmeros pontos de interrogação. Mas havia uma insegurança muito grande, o que não proporcionava ao acionista uma certeza plena quanto a investimentos. Apesar disso, os negócios iam bem, e a proposta de compra foi muito interessante, então foi um momento bastante propício para a venda. E os próprios planos do Grupo EcoRodovias para desenvolver ainda mais o negócio adquirido fizeram sentido para a Columbia. A venda daqueles ativos foi de encontro ao novo modelo que a Columbia queria seguir no mercado, mais voltado para a gestão do supply chain em si.

Houve então um pequeno hiato, e em 2013 a empresa ressurgiu, retomando os investimentos em logística. É importante salientar que existiam muitas oportunidades de negócios junto aos clientes da própria Columbia Trading. A empresa contratava terceiros para as operações logísticas com as cargas no Brasil, então por que não oferecermos esses serviços nós mesmos? E assim surgiu a retomada da atividade logística da Columbia.

Tecnologística – Como a empresa está estruturada hoje?

Brandão No ano passado, a Columbia Distribuidora e a Columbia Trading passaram a fazer parte diretamente da holding global do grupo, a Ecom. Nós nos mantivemos nacionais e passamos a nos chamar Columbia Logística, operando com logística pura, em toda a sua essência e complexidade, com CDs, transporte e Clias, além de atividades portuárias por meio da CMLog. Tudo isso foi feito para que a empresa se preparasse para passos maiores no futuro. Nós não queremos que ninguém se confunda quanto à leitura do que é a companhia: somos puramente logística.

O Grupo Ecom tem negócios em 42 países. Trata-se de um dos maiores traders de café e algodão do mundo, com operações em todos os continentes, inúmeros escritórios e unidades produtivas. Toda nossa governança vem desse grupo acionista, além de toda a cultura que a Columbia carrega. Somos um dos maiores players do segmento logístico, ocupando um patamar verdadeiramente diferenciado no cenário nacional. Temos um espírito muito empreendedor, orientado ao cliente e a resultados.

Tecnologística – Quais foram os primeiros passos dessa nova Columbia?

Brandão O primeiro passo foi a inauguração do CD de Cotia (SP), em 2013. Foi com isso que se deu a retomada de fato, seguindo então para os CDs de Curitiba, Cajamar (SP) e Itajaí (SC). E tudo isso aconteceu tendo como base três pilares fundamentais: tecnologia, que é um fator sempre muito presente nos nossos negócios, como eu já citei; eficiência, palavra que todos os colaboradores da Columbia respiram diariamente; e relacionamento, tanto com o cliente e com o mercado quanto com os nossos funcionários. Foi com base nesses três pilares que nós demos início ao nosso planejamento estratégico para retomar as operações, agora consolidado como Columbia Logística.

Tecnologística – Além de atender empresas que já atuavam com a Columbia Trading, a companhia se abriu para outros clientes também?

Brandão Eu posso colocar da seguinte forma: nós temos a vocação de buscar nossos clientes no porto e no aeroporto. E isso justamente pela facilidade de encontrar esses clientes em um universo que nós já conhecemos muito bem, que é o do comércio exterior. A atuação do grupo nos permite e facilita ter clientes com cargas de outros países, então hoje boa parte da nossa prospecção está voltada para isso. Acaba sendo um processo natural analisar e discutir todo o supply chain dos nossos clientes para, a partir daí, gerar soluções logísticas muito mais assertivas, abrangentes e estruturadas. Mas nós abrimos nosso leque, é claro, participando de BIDs e com uma equipe comercial prospectando outras operações. Nossa carteira de clientes é formada por um mix entre esses dois modelos.

Tecnologística – Recentemente vocês investiram na compra de 100% de participação da Columbia Nordeste. Qual a importância dessa operação para a companhia?

Brandão A Columbia Nordeste conta com um complexo logístico de 245 mil m² localizado no município de Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, e engloba unidades de porto seco, transportes, armazém geral, centro de distribuição de produtos secos e refrigerados, depot avançado e área para cargas de projetos e especiais, com grandes dimensões ou excesso de peso.

Depois de desenvolver os negócios localmente na Região Nordeste, a estratégia da Columbia agora é usar essa plataforma para serviços com abrangência nacional. O Nordeste é uma região ainda pouco explorada pelos grandes operadores, carente de infraestrutura e de prestação de serviços para destravar a logística. Nós acreditamos tanto nessas operações que parte do nosso back office foi transferido para Simões Filho imediatamente após a aquisição. Dentro dessas perspectivas, nós estamos desenvolvendo a possibilidade de os importadores poderem receber suas cargas diretamente na região, com as mesmas facilidades que eles encontrariam em outras regiões, como Santos (SP). A Columbia está trabalhando então para buscar junto ao estado benefícios para fomentar a importação pelo Nordeste, tanto para o consumo próprio quanto para a distribuição a partir de lá.

Não apenas a industrialização é importante para a região, mas também o desenvolvimento da logística. Claro que a Columbia não é a precursora desse desenvolvimento. Ele já existe, mas nós mapeamos essas necessidades e também as oportunidades que vão surgir e hoje estamos inseridos nesse contexto. Então no que diz respeito à nossa estrutura posicionada na Região Nordeste, nós já estamos oferecendo serviços muito mais abrangentes e complexos de logística até mesmo para que as empresas possam focar em seu core business. Isso parece até um jargão, um assunto batido, mas a verdade é que muitas indústrias da região ainda estão gerenciando seus próprios estoques e desenvolvendo estruturas de armazenagem em vez de terceirizar a logística com uma empresa especialista.

Tecnologística – Quais são os principais segmentos atendidos pela Columbia na região?

Brandão O setor automotivo é um dos principais, tendo como cliente âncora, a Ford, com sua fábrica em Camaçari (BA). O nosso foco também está no varejo. São clientes muito fortes e com operações bastante complexas, que envolvem atividades como importação, exportação, movimentação e abastecimento de linha. O mercado eólico também é muito importante para a Columbia no Nordeste. Devido a seus atributos naturais, a região é muito propensa a esse tipo de atividade, que exige uma logística bastante específica, então temos uma carteira rica de clientes desse setor, de cargas especiais. Mas temos um portfólio muito grande lá e existem ainda mercados riquíssimos para serem explorados também. São muitas as oportunidades.

Tecnologística – Esse investimento no Nordeste é reflexo de um otimismo quanto à retomada da economia brasileira?

Brandão Sim. Eu não tenho dúvidas de que isso vai acontecer, e o Nordeste tem tudo para crescer muito. A Baía de Todos os Santos, por exemplo, no entorno de Salvador, talvez seja uma das melhores áreas do Brasil para se instalar um novo porto. A atividade portuária precisa ser desenvolvida ali e isso inevitavelmente vai acontecer um dia. Quando acontecer, o crescimento da região vai ser muito acentuado, e muito mais impulsionado por um motivo real, voltado para o desenvolvimento da infraestrutura logística, do que para estímulos de consumo, como aconteceu no passado. Ainda existe muita carga descendo da Bahia até Santos para ser exportada, o que não faz sentido. O Nordeste precisa ter capacidade para trabalhar suas cargas internamente. Eu acredito muito que essa região, assim como o Norte do Brasil, ainda vai crescer de forma bastante surpreendente, e tudo isso passa por questões políticas também, envolvendo os programas de concessões, por exemplo, que são muito importantes.

Tecnologística – Existe muita diferença no perfil dos clientes da Columbia entre as regiões?

Brandão Como eu disse, a retomada da Columbia teve como base forte os clientes da unidade de trading, que são empresas ou de matéria-prima ou de produtos acabados de setores como varejo, consumo e luxo. Então as operações realizadas no Sul e no Sudeste são bastante focadas nesses tipos de cargas, com clientes de eletrônicos, calçados e vestuário, atendidos com soluções extremamente modernas, com altos níveis de automação e em operações super eficientes. Isso faz da Columbia uma companhia com múltiplas frentes de atuação em logística. A logística do varejo tradicional, de loja, é bastante complexa, com muitos SKUs, muitos pedidos, sazonalidade, vendas urgentes e características muito peculiares, especialmente quando falamos de produtos perecíveis. Já a logística para o segmento automotivo, por exemplo, é completamente diferente. Mas eu costumo dizer que, apesar de termos múltiplas frentes, nós não somos generalistas. Somos altamente especializados naqueles segmentos em que atuamos, para oferecer o melhor nível de serviço possível.

Tecnologística – Existem previsões para novos investimentos? As regiões Norte e Centro-Oeste, onde a Columbia não possui unidades, fazem parte dos planos?

Brandão Depois de todos os investimentos feitos para alavancar essa retomada da companhia, nós estamos sim avaliando novos ativos, mas ainda não podemos adiantar essas novidades. Falando especificamente sobre as demais regiões, o Norte, em especial, é sim bastante interessante. Na verdade nós já temos uma forte ligação com essa região por meio das atividades no Nordeste. E já enviamos duas missões para a Região Norte para fazer uma leitura detalhada a respeito de questões portuárias e de infraestrutura de uma forma geral. Nós entendemos que, assim como no Nordeste, lá também existem muitas oportunidades.

Tecnologística – Você destacou várias vezes a tecnologia como um diferencial da Columbia. Fale mais sobre isso.

Brandão Quando nós inauguramos a unidade de Cotia, assumimos o desafio de buscar um case que demonstrasse bem essa vocação tecnológica da companhia. E nós fechamos contratos com alguns clientes que possibilitaram isso, como a Puma, por exemplo. Nós temos então, nesse CD, uma operação totalmente automatizada, utilizando esteiras rolantes e sistemas de leitura e etiquetagem automática que proporcionaram índices de produtividade extraordinários e níveis de acuracidade muito altos.

Além disso, nós passamos a utilizar o WMS Manhattan, que é um sistema muito eficiente especialmente quando falamos de clientes com quantidades muito grandes de SKUs. Hoje algumas empresas chegam a nos pedir que o Manhattan seja aplicado nas operações delas, de tão respeitado que o sistema é em todo o mundo. Antigamente nós utilizávamos somente um WMS próprio, que é muito bom também, desenvolvido e customizado por uma equipe de tecnologia interna, e em algumas operações nós ainda aplicamos esse sistema, mas o Manhattan veio realmente para quebrar paradigmas dentro da nossa gestão de armazenagem. Nós ainda temos uma ótima equipe interna, que cuida desse WMS próprio, mas que também foi capacitada para atuar com o Manhattan, junto com alguns superusuários operacionais que nós desenvolvemos, que são especialistas na utilização do sistema.

Tecnologística – Como a Columbia encarou a crise econômica brasileira e quais são as suas perspectivas quanto ao futuro do país?

Brandão Nós reestruturamos a companhia justamente em um momento de crise, então fica bastante claro que estamos otimistas. A Columbia Logística se preparou para o novo Brasil que está chegando. É claro que o cenário atual do país é preocupante, mas esperamos que tudo que está acontecendo sirva de aprendizado para que ocorram mudanças significativas, especialmente políticas e tributárias.

A reforma trabalhista, por exemplo, é extremamente importante para modernizar as leis brasileiras. Para o operador logístico, que lida com sazonalidade, isso é crucial. Precisamos de mais segurança jurídica nesse sentido, até mesmo para que o setor possa contratar mais. Hoje nós contamos com um total de 750 colaboradores e estamos constantemente investindo em capacitação, desenvolvendo programas para reter as pessoas. Nosso compromisso não é temporário, é um compromisso para ter o colaborador dentro da empresa por uma vida, se ele quiser.

O mercado brasileiro por si só já é muito difícil para qualquer empresa, e com toda essa crise que estamos vivendo, muitas delas abriram mão de preços em troca de volume de negócios, mas reverter isso depois não é uma tarefa fácil. Na Columbia nós não chegamos a negociar margens, e sim níveis de serviço. Nós entendemos que dessa maneira a relação com o cliente fica muito mais justa, pois assim ele sabe quanto paga e pelo que está pagando.

E é claro que nós fizemos nossa lição de casa, reduzindo custos para que fosse possível viabilizar certas soluções, porque é inegável que o mercado caiu muito. Nós, que atendemos o varejo, percebemos essa queda no consumo. E não há como negar que existe uma crise de confiança que ronda o Brasil. É preciso que se solidifique uma base governamental e legislativa, além de projetos econômicos realmente estruturantes, para que se tenha mais confiança no país, sem toda essa instabilidade que nós estamos vivendo.

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