Segunda-feira, 20 de novembro de 2017 - 12h27
Uma empresa 4.0
Completando um ano à frente da Ulma, o diretor geral para o Brasil e para a América Latina, Cesar Fracalanza, detalha a reestruturação promovida pela empresa para melhor atender a esses mercados e fala sobre as perspectivas de negócios e as novas tendências para o setor de automação de armazéns
Fotos: Radamés Jr.

A Ulma teve origem no País Basco, correto? Conte-nos um pouco a respeito da história da companhia.

Cesar Fracalanza – A Ulma foi fundada por quatro mecânicos no País Basco em 1988, com a intenção de realizar trabalhos de manutenção para a indústria chocolateira. O nome Ulma, inclusive, vem das iniciais dos sobrenomes de cada um dos fundadores. E eles identificaram no mercado uma necessidade das empresas de contar com equipamentos e soluções para automatizar suas operações. Os primeiros armazéns automatizados foram instalados pela empresa na Espanha e, a partir daí, a Ulma foi se expandindo para outros mercados, partindo para a França e para a Itália, por exemplo.

Com o tempo  foram formadas novas empresas, que se agruparam no modelo de cooperativa, e a Ulma se identificou bastante com o sistema de cooperativa da corporação Mondragon, um grupo também sediado no País Basco, e passou a fazer parte dela.

Quais são as empresas que formam o grupo?

Fracalanza – A Mondragon é uma corporação muito grande, que conta com cerca de 75 mil colaboradores. Fazer parte desse grupo é muito importante, pois a relação de cooperação acaba gerando negócios entre todas as empresas que fazem parte do grupo. É muito comum nós observarmos que vários dos clientes da Ulma também fazem parte da corporação. E existe total independência entre as empresas, tanto financeira quanto gerencial. A relação é realmente de cooperação.

Já o Grupo Ulma é formado por oito empresas e conta com 4.500 colaboradores. São elas a Ulma Agrícola, a Architectural Solutions, a Empilhadeiras, a Construction, a Conveyor Components, a Handling Systems, a Packaging e a Piping. Elas também são empresas independentes entre si, mas que procuram, quando podem, trabalhar de forma integrada e colaborativa, o que é muito importante para gerar novos negócios e oportunidades.

Em quantos países a Ulma está presente?

Fracalanza – Considerando a Ulma como um todo, são 80 países. Já a Ulma Handling Systems está em 16 países e conta com cerca de 300 colaboradores no total.

Quando a empresa iniciou suas atividades no Brasil?

Fracalanza – A chegada ao Brasil não demorou muito. As atividades comerciais da Ulma por aqui tiveram início em 1997, menos de dez anos depois da sua fundação. Em 1999 começaram as primeiras conversas sobre projetos de armazéns automatizados e a primeira instalação no país data de 2001, na empresa EBF. Um fator que chama muito a atenção é a longevidade dos nossos produtos. Essa instalação, por exemplo, está em funcionamento perfeito até hoje. Isso se deve, claro, não só à durabilidade dos produtos em si, mas à confiança que o cliente tem na Ulma.

No Brasil vocês contam com todos os negócios desenvolvidos lá fora?

Fracalanza – A Ulma está presente no Brasil com a Ulma Construction, a Handling Systems, a Packaging e a Archtectural Solutions. Mas a verdade é que a empresa é totalmente integrada, e os negócios dependem muito da identificação das necessidades de cada mercado. Eu estou à frente da Ulma Handling Systems, e nós lidamos com o mercado de movimentação de mercadorias. Por isso a Ulma Packaging, por exemplo, está muito próxima do nosso negócio, e também conta com uma atuação bastante forte no mercado latino americano, inclusive com uma fábrica aqui no Brasil, na cidade de Americana (SP). Em algumas situações, uma empresa complementa a outra, até porque não existe um pacote específico de soluções para cada cliente. Nós desenvolvemos as soluções de acordo com as necessidades específicas de cada um deles, e pra isso as empresas do grupo trabalham muito próximas umas das outras.

A Ulma Packaging está crescendo muito, com uma atuação bastante forte no mercado de proteínas animais. E sempre que possível nós temos uma interação muito grande. A Ulma Handling Systems está bastante presente no setor alimentício, por exemplo. Somos muito fortes nesse segmento na Europa e estamos focando nele aqui no Brasil também, pois temos muita expertise no atendimento a esse negócio, incluindo a movimentação de alimentos frescos, resfriados e congelados, que naturalmente acaba tendo muita ligação com a unidade de Packaging. É natural que a interação seja forte, mesmo sendo empresas totalmente independentes no Brasil também.

Vocês possuem uma parceria com uma empresa japonesa, correto?

Fracalanza – Sim, nós atuamos com uma parceria tecnológica com a Daifuku. Isso nos permite oferecer o que há de melhor em termos de tecnologia para nossos clientes. A Daifuku é a maior fornecedora de equipamentos de material handling do mundo. Nos mercados em que ela atua diretamente, como na Ásia, a Ulma não está presente, e vice-versa. Então a Ulma tem forte presença na Europa, em especial na Espanha, França e Itália. E estamos em fase de negociação para entrar na Alemanha e em Portugal. Nós temos também instalações na África do Sul, em Israel, na Rússia e, claro, toda a América Latina, excetuando-se o México. Por lá discutimos caso a caso, já que a Daifuku atua diretamente nos Estados Unidos e o atendimento ao México é feito a partir dessa unidade.

As linhas de produtos da Ulma e da Daifuku se complementam. Os principais equipamentos Daifuku que nós fornecemos são transelevadores, mini loads e sorting transfer vehicles (STV). Já os transportadores, as estruturas de um modo geral e os paineis elétricos, por exemplo, são todos fabricados pela própria Ulma, na nossa planta espanhola. Podemos dizer que a Daifuku é uma espécie de fornecedor de equipamentos para a Ulma. Todo o software também é desenvolvido por nós mesmos, assim como os periféricos e os projetos em si.

É importante destacar que a Ulma não é uma fornecedora de equipamentos para seus clientes. Nós realizamos todo um estudo de engenharia logística para fornecer uma solução completa que otimize os processos. E essas soluções invariavelmente incluem equipamentos como transelevadores, que são fornecidos pela Daifuku. O que nós fazemos é analisar toda a operação do cliente em detalhes e, a partir disso, desenvolvemos todo um trabalho de customização da solução oferecida, incluindo os equipamentos e os softwares, como o WMS, por exemplo.

A Ulma conta com um WMS próprio?

Fracalanza – Sim. Esse é um grande diferencial da empresa, e como os projetos são customizados de acordo com as necessidades dos clientes, nosso WMS está em constante evolução, inclusive passando por 'tropicalizações' para atender às demandas dos clientes brasileiros. Cada cliente tem necessidades muito específicas, portanto o desenvolvimento do software é sempre feito de acordo com o projeto em questão, com um nível de detalhamento muito grande.

Quantos funcionários a Ulma Handling Systems possui no Brasil?

Fracalanza – Por aqui a estrutura é bastante enxuta. Nós temos 15 funcionários, divididos entre as áreas Comercial, Administrativa e Técnica, que envolve projetos, supervisão e assistência técnica. A estrutura é enxuta porque os produtos hoje são importados da Espanha. Mas isso não significa que nós não tenhamos a intenção de, no futuro, fabricar localmente. Dentro da fábrica da Packaging nós contamos com uma área onde mantemos um estoque de peças sobressalentes. Na verdade a decisão de produzir no Brasil depende muito da conjuntura econômica do país, e acredito que este ainda não é o momento.

Quantas instalações vocês já realizaram no Brasil?

Fracalanza – São cerca de 15 instalações. Como eu já citei, a primeira aconteceu em 2001, para a EBF. Dentre nossos clientes estão empresas como Acrilex, Brandili, Belenos, Bufalo, Cofema, Rogê, Stam, Danone, Pão de Açúcar e Nespresso. E são empresas que têm muita confiança nas soluções oferecidas pela Ulma. Vários deles, com o passar do tempo, foram promovendo ampliações nos projetos.

Você sente que no Brasil já existe, de uma forma geral, uma cultura de buscar e adotar novas tecnologias, ou cabe a empresas como a Ulma disseminar essa cultura?

Fracalanza – Hoje em dia as empresas já buscam isso, para otimizar suas operações e aumentar a produtividade. Elas estão muito atentas ao que acontece no mercado internacional e estão vendo toda a evolução das tecnologias de automação, então é natural que elas busquem essas novidades. Cabe às empresas como a Ulma orientar o mercado a respeito da melhor forma de se aplicar essas tecnologias, porque muitas vezes o que acaba acontecendo é que, por falta de conhecimento, muitas delas acabam adquirindo soluções individualizadas, acreditando que no futuro basta juntar as mais diversas tecnologias. E não funciona assim. É preciso ter um plano mestre, com todo o processo desenhado, ainda que ele seja executado em fases. Claro que podem haver alterações ao longo do tempo, até mesmo por uma mudança no perfil dos negócios, mas o plano precisa estar definido desde o início. E por incrível que pareça isso muitas vezes não acontece. É comum o cliente alugar ou construir um armazém, instalar porta-paletes e depois dizer 'eu quero automatizar a minha operação'. Então o nosso papel é o de orientar os clientes para que a automatização seja feita da melhor maneira possível, com um projeto estruturado de verdade.

Daí a importância de contarmos com pessoas totalmente capacitadas, que possam entender os mais diversos processos de cada um dos diferentes clientes, para propor a melhor solução. A reestruturação da Ulma passa por esse conceito. Nossa intenção é contar com profissionais com o maior conhecimento possível para podermos acompanhar o cliente por todo esse processo. Antigamente nós tínhamos profissionais que vinham da Espanha, acompanhavam por um tempo e depois iam embora. Então os clientes criavam vínculos com essas pessoas, mas quando elas já não estavam mais aqui, esse vínculo se quebrava. Nosso objetivo é contar com uma estrutura bem estabelecida e fundamentada no Brasil para sermos realmente parceiros do cliente em cada um dos projetos.

E o trabalho não acaba depois da implantação de cada projeto, correto?

Fracalanza – Sem dúvidas. Os projetos englobam o desenvolvimento, a instalação e todo um trabalho de assistência posterior, dividida na parte eletromecânica e na parte de software. Para a primeira, nós temos atendimento local, e para os softwares nós contamos com um primeiro atendimento aqui, porque muitas vezes são problemas muito simples, que com pequenas ações podem ser identificados e resolvidos e, se isso não for possível, nossa estrutura de atendimento 24 horas localizada na Espanha entra em ação, fazendo acesso remoto aos equipamentos e gerando análises de toda a operação para fazer as devidas correções.

A partir do Brasil vocês atendem os demais países da América Latina, certo?

Fracalanza – Exatamente. O Brasil hoje é responsável por todas as atividades da Ulma em toda a América Latina. Nós temos instalações em países como Chile, Colômbia, Uruguai e Argentina, vendidas, projetadas e feitas a partir do Brasil. São projetos bastante representativos dentro dos negócios da Ulma. A Argentina, em particular, é um mercado bastante interessante, onde temos bons projetos e outros em fase de discussão. Nós contamos com parceiros comerciais nesses países, mas o atendimento é feito a partir do Brasil, inclusive a assistência eletromecânica, como eu já mencionei.

Como a Ulma avalia a situação atual do mercado brasileiro?

Fracalanza – Nosso objetivo é crescer muito por aqui nos próximos anos. A empresa aposta muito no mercado nacional e justamente por isso está se reestruturando para atender cada vez melhor os clientes brasileiros, assim como os latino-americanos. O processo de reestruturação está baseado justamente na minha contratação, que aconteceu há cerca de um ano, e prosseguiu com a reestruturação da área de Serviços, seguida pelas áreas Administrativa e Financeira e, atualmente, pela área Comercial. Esta última é muito importante porque fazer uma venda construtiva é essencial, entendendo as necessidades do cliente para desenhar e oferecer a solução mais adequada a cada caso.

Muitas vezes nós estamos lidando com uma empresa que está saindo de um processo de manuseio de materiais totalmente convencional, feito de forma manual, tendo seu primeiro contato com a automatização. Isso significa que ele vai passar por uma mudança total de cultura, o que não é muito simples. Então existe uma necessidade muito forte de contar com profissionais capacitados a orientar adequadamente os clientes, para que essa quebra de paradigma aconteça da melhor forma possível.

O cenário político imprevisível de 2018 não altera essas prespectivas?

Fracalanza – Conversando com o empresariado, é possível perceber que está havendo uma espécie de dissociação entre política e economia. Nós passamos por uma profunda crise política e econômica, é claro, em que os empresários acabaram colocando na geladeira a maioria dos projetos e investimentos, muitas vezes visando somente a sobrevivência. Mas essa dissociação se fez necessária, e as empresas estão buscando o crescimento independentemente do que acontece em Brasília. É claro que existe a necessidade de contarmos com uma política econômica mais coerente e consistente por parte do governo, seja ele qual for depois das eleições, mas a questão é que se formos esperar a crise política passar, o Brasil pode ficar parado por anos.

E a verdade é que o mercado está se mostrando bastante interessante em termos de recuperação. Nós podemos observar muita movimentação, e muitos projetos que estavam engavetados voltaram a ser discutidos, o que para nós é muito importante. Existem muitos clientes novos aparecendo, empresas que passam a enxergar soluções de automação como uma necessidade premente para suas operações. Além disso, nós tivemos também a oportunidade de ampliar projetos em clientes muito grandes que já faziam parte da carteira. Isso mostra a confiança das empresas não somente na Ulma, mas também no mercado como um todo.

Quais são as últimas novidades da Ulma em termos de produtos e serviços para a movimentação de materiais?

Fracalanza – Uma das mais novas soluções da empresa é o Sistema Supervisor de Instalações Logísticas, que passa a ser instalado nos novos projetos da Ulma. O objetivo é fornecer um diagnóstico preciso a respeito das instalações. O acesso remoto dos softwares, que eu já citei, é feito de forma reativa, quando existe algum problema. Já o Sistema Supervisor age de maneira proativa. Por meio de uma série de sensores instalados nos equipamentos é feita a coleta constante de dados, que são colocados na nuvem e permitem a identificação, muitas vezes de forma preditiva, da necessidade de manutenção. O sistema faz verificações sobre a vida útil dos equipamentos, analisa desgastes de determinadas peças, entre outras coisas.

É uma novidade totalmente inserida no conceito de logística 4.0, que é muito forte dentro da Ulma. Nós contamos com um departamento específico de inovação que está totalmente voltado para o desenvolvimento de soluções sob o preceito de internet das coisas, computação em nuvem, análise de dados etc. Tudo isso porque no fim existe uma convergência tecnológica, com os equipamentos se comunicando entre si.

Essa solução já está em uso na Europa, mas nós acreditamos que em breve novas instalações no Brasil já contarão com o Sistema Supervisor. A adoção dessas novidades é um caminho natural. Em breve nós vamos contar também com um sistema de manutenção conectado diretamente ao Sistema Supervisor, de forma que até mesmo a designação do técnico para fazer a manutenção será feita automaticamente. O mais importante de tudo é garantir que as operações nunca parem, garantindo a melhor produtividade possível.

Robô paletizador

Um dos principais lançamentos recentes da Ulma é o robô paletizador automatizado chamado IK Pal, novidade que faz parte do portfólio de soluções para separação de pedidos da empresa. Trata-se de um sistema versátil, capaz de realizar a atividade de paletização de qualquer tipo de carga, independente da morfologia do produto, de forma rápida, confiável e eficiente.

“O IK Pal foi desenvolvido para atender principalmente o que nós chamamos de grande distribuição, setor que lida com um grande volume de separação de pedidos bastante fracionados”, explica Fracalanza. O robô manipula diversos produtos simultaneamente, atingindo mais de 600 ciclos por hora, e realiza também a colocação de papelões de forma automática para fazer a separação da carga em camadas no palete.

“Ele pode trabalhar com cargas delicadas, como vidros, caixas dos mais diversos tamanhos e packs de garrafas e de latas, por exemplo. E todos esses produtos diferentes são paletizados pelo robô de forma eficiente e organizada, para atender da melhor maneira possível o abastecimento nos pontos de venda”, destaca o diretor geral. Dessa maneira, o sistema prepara o palete exatamente da maneira que a loja precisa receber, de forma a otimizar a reposição dos itens.

Todo o trabalho é realizado pensando na maior estabilidade possível para as mercadorias no palete, reforçada com a aplicação de um plástico filme ao final do processo. Fracalanza ressalta que o robô realiza a colocação dos produtos nos paletes orientado por um software que faz todos os cálculos necessários para definir a melhor posição para cada mercadoria, baseado nas características de cada produto e também na maneira como o pedido precisa chegar ao seu destino, definindo a sequência correta desde o início do processo de separação.

“É um sistema totalmente automatizado e altamente complexo, mas que torna simples e eficiente a paletização dos mais diversos tipos de produtos”, resume o executivo.