Quinta-feira, 31 de janeiro de 2019 - 16h03
Logística de ponta a ponta
Integrada à CMA CGM depois de uma transação ocorrida no primeiro semestre de 2018 que garantiu 24,99% de seu capital, a Ceva Logistics tornou-se muito mais capacitada a oferecer soluções completas para o supply chain de seus clientes. Em visita ao Brasil, o CEO do operador logístico, Xavier Urbain, concedeu uma entrevista exclusiva à Tecnologística, contou todas as novidades da companhia depois da negociação e revelou as expectativas quanto ao mercado local

O que a CMA CGM pode trazer para a Ceva em termos de novos negócios, serviços complementares e operações comerciais?

Xavier Urbain – O objetivo dessa parceria entre a CMA CGM e a Ceva é, definitivamente, nos tornarmos capazes de oferecer tanto aos nossos clientes quanto aos clientes deles soluções completas, end-to-end, para a cadeia de suprimentos. Para fazer isso é preciso ter, antes de qualquer coisa, uma cobertura global completa e, em segundo lugar, é preciso contar com toda a gama de serviços possível para oferecer aos clientes, totalmente controlados pela sua companhia. Então quando somamos o que está sob o controle da CMA CGM com o que é controlado pela Ceva, temos todos os produtos e serviços de que precisamos e também que os clientes estão procurando.

Algumas das vantagens são realizar cross-selling com a CMA CGM, fortalecer as relações com grandes clientes e aumentar a carteira, ao mesmo tempo em que diversificamos nosso atendimento para clientes de médio e pequeno portes, focar em segmentos de valor agregado, como logística da cadeia do frio e operações de carga consolidada less than container load (LCL), desenvolver organicamente negócios em setores que apresentam crescimento acelerado, como e-commerce e varejo, e penetrar em novas áreas geográficas com forte potencial, como Ásia, Oriente Médio e África.

Além disso, reforçar a gestão da Ceva com profissionais da CMA CGM altamente experientes, contar com uma organização simplificada e ágil, com um controle centralizado, aprimorar a produtividade como resultado de melhorias de processo e tecnologia, aumentar a eficiência de despesas de vendas, administrativas e gerais (SG&A, sigla em inglês para selling, general and administrative expenses), alavancar centros de serviços compartilhados e acelerar a implantação de ferramentas de tecnologia da informação, como WMS e TMS.

O fato é que as empresas estão cada vez mais buscando contar com uma quantidade menor de prestadores de serviços, mas prestadores que sejam capazes de oferecer serviços de uma ponta à outra da cadeia de suprimentos, que possam ajudá-las a otimizar sua logística, sincronizando processos entre os modais de transporte marítimo, terrestre e aéreo, armazenagem, última milha e assim por diante. Alguns desses processos hoje são trabalhados de forma totalmente independente uns dos outros. Imagine que você é um fabricante de automóveis, mas alguém produz o motor, outra pessoa faz a carroceria, uma terceira produz os assentos e não há nenhuma conexão entre elas. O custo seria muito maior, o tempo de entrega seria muito mais longo e seria muito mais difícil projetar o carro ideal. Com a logística ocorre a mesma coisa, e é exatamente isso que queremos consertar, combinando os serviços da CMA CGM e da Ceva.

A Ceva acaba de anunciar que vai comprar a CMA CGM Log no próximo ano, certo?

Urbain – Sim. Ambas as companhias consideraram que não faz sentido para a CMA CGM manter a CMA CGM Log, que é a área de freight forwarding, dentro de sua estrutura com a Ceva desenvolvendo as mesmas atividades. Então, pensando em conjunto, decidimos integrar a CMA CGM Log dentro da Ceva. Ainda estamos trabalhando nisso e esperamos concluir esse processo em meados de abril.

Há alguns meses a Ceva rejeitou uma proposta de compra por parte da DSV. Você pode comentar sobre isso?

Urbain – Recebemos uma oferta de 27,75 francos suíços (CHF) por ação da Ceva, que era apenas 25 centavos a mais do que o preço da Oferta Pública Inicial, e o conselho de administração decidiu rejeitar essa oferta porque ela não foi considerada atraente para os acionistas da Ceva.

Além disso, a CMA CGM, pensando no desenvolvimento de sua estratégia de supply chain com a participação da Ceva, decidiu lançar uma oferta pública de aquisição para comprar as cotas dos acionistas que desejassem vendê-las, e isso deu à CMA CGM o controle da Ceva. A meta não era adquirir 100% da Ceva, e sim comprar o controle, com mais de 50% das ações, mantendo o restante listado no mercado suíço. A intenção da CMA CGM é manter a Ceva como uma companhia totalmente independente.

Qual sua avaliação do ano de 2018 para Ceva?

Urbain – Foi um bom ano. Promovemos muitas melhorias em diferentes partes do mundo e, se olharmos os resultados gerais, sem considerar o impacto negativo gerado pelas operações na Itália, definitivamente fomos muito bem em todos os objetivos estabelecidos. A companhia está se desenvolvendo bem e crescendo ao redor do mundo.

Divulgação
Crédito: Divulgação

O que você pode nos dizer sobre o mercado brasileiro?

Urbain – Obviamente, para a Ceva, é um mercado muito bom. E tenho orgulho de dizer que temos uma ótima equipe no Brasil. Eu digo isso porque logística é sobre pessoas, e se você não tem as pessoas certas a bordo, nada vai acontecer. Temos uma grande equipe não só no Brasil, mas na Colômbia, no Peru, no Chile, na Argentina.

Estamos crescendo mais de 10% na América do Sul, acima do mercado, e estamos reforçando nossa participação tanto em contratos logísticos quanto no transporte marítimo, aéreo e terrestre. Também estamos diversificando nossa base de clientes com novas empresas locais, e isso é muito importante para os negócios.

Nós gostamos muito do Brasil, e mesmo que a economia não esteja passando por um momento tão bom, continuaremos a investir aqui. Nós estamos conversando abertamente sobre oportunidades de adquirir empresas no Brasil e em outros países da América do Sul para reforçar nossas operações e conquistar ainda mais participação de mercado.

Recentemente houve algumas alterações na equipe brasileira da Ceva, correto?

Urbain – Sim. Como eu disse, temos uma ótima equipe no Brasil e fazemos questão de realizar promoções internas o máximo possível. Nós realmente acreditamos que é melhor promover pessoas de dentro da empresa, que já estão inseridas na nossa cultura, do que trazer pessoas de fora.

Assim, Fabio Mendunekas assume como vice-presidente sênior de Contratos Logísticos na América do Sul e Milton Pimenta, que ocupava esse cargo, está indo agora para a Austrália e Nova Zelândia para atuar como diretor geral. Leia mais no link a seguir:

Ceva nomeia Fabio Mendunekas como VP sênior de Contratos Logísticos

Nos próximos anos provavelmente teremos colaboradores indo da Ceva para a CMA CGM e algumas mudando da CMA CGM para a Ceva também.

Mendunekas e Pimenta. Crédito: Radamés Jr.
Mendunekas e Pimenta. Crédito: Radamés Jr.

Você mencionou que a logística é sobre pessoas, certo? Pode nos dizer mais sobre isso?

Urbain – Com certeza. Nosso negócio é feito de pessoas. E é por isso que na Ceva acreditamos que tratar bem os colaboradores é mais do que importante. Quando visito nossas operações, eu aperto as mãos dos diretores e dos motoristas das empilhadeiras da mesma maneira, porque todos eles fazem parte da família da Ceva. Todos são importantes para a companhia, e se alguém não concorda com isso, então esse alguém não é bom o suficiente para a Ceva.

Quantas pessoas trabalham na companhia no Brasil atualmente?

Urbain – Por aqui temos cerca de 6 mil pessoas, e na América do Sul são 7 mil colaboradores. A equipe brasileira é bastante grande, uma das maiores do mundo. Globalmente, a Ceva conta com um total de 44 mil funcionários, podendo chegar a 56 mil se considerarmos também os agentes exclusivos.

Quais são os principais setores atendidos pela Ceva?

Urbain – O segmento automotivo – no qual somos um dos líderes mundiais –, o industrial, de consumo e varejo e o e-commerce. Atendemos também o setor de saúde, e estamos investindo muito nele.

Estamos considerando fazer algumas aquisições em algumas partes do mundo para reforçar nossa participação de mercado em alguns setores. Já fizemos isso no segmento aeroespacial, e hoje somos muito maiores do que alguns de nossos concorrentes que também atendem essa indústria. E estamos nos concentrando bastante no e-commerce, com operações de fulfillment.

Crédito: Radamés Jr.

Quais são as perspectivas da Ceva para os próximos anos globalmente?

Urbain – Nos tornarmos maiores, mais fortes e ainda mais lucrativos. Continuaremos desenvolvendo a companhia e investindo cada vez mais, especialmente em tecnologia da informação, digitalização e automação. Criamos alguns centros de dados muito importantes e agora estamos prontos para o big data.

A Ceva conta com um departamento, criado há um ano, que é responsável pelo business intelligence, e temos uma parceria com o ambiente de incubadora da CMA CGM, chamado ZeBox. Nós fazemos parte dele e estamos nos concentrando em algumas iniciativas muito interessantes, como data mining, alguns conceitos específicos de digitalização, blockchain, como nos tornarmos mais automatizados do que já somos hoje, e assim por diante.

São muitas iniciativas e certamente teremos algumas grandes notícias este ano. Estamos investindo muito, primeiro em pessoas, e depois em tecnologia da informação.

O objetivo da Ceva é atingir 9 bilhões de dólares de faturamento bruto globalmente nos próximos três anos, certo?

Urbain – Sim. Até 2021. Faremos isso, e certamente o Brasil vai contribuir muito com esse objetivo.