Quinta-feira, 28 de março de 2019 - 17h00
Movimentando o mercado
Os produtos da suíça Interroll estão presentes na maioria esmagadora dos sistemas utilizados diariamente para movimentar cargas, desde a intralogística de armazéns e as linhas de montagem da indústria até as esteiras de aeroportos e supermercados. Comemorando os resultados positivos do último ano, Marcos Gaio, diretor da unidade brasileira da companhia, projeta um mercado aquecido para 2019 e conta detalhes sobre a operação local

Conte-nos um pouco da história da companhia.

Marcos Gaio – A história da Interroll começou em 1959, na Alemanha, com Dieter Specht que, junto com seu amigo Hans vom Stein, fundou uma empresa que inicialmente produzia pontas plásticas para roletes. A empresa cresceu muito ao longo dos anos e hoje é a principal fornecedora global de soluções para movimentação de materiais, como roletes para transportadores, roletes motorizados, cintas e correias transportadoras, sistemas de estocagem dinâmica, sorters e sistemas para automação. Atualmente ela possui um total de 500 patentes.

Em 1994, a sede da Interroll se mudou para a Suíça e ela passou a ser uma empresa de capital aberto, listada na bolsa de valores suíça. Hoje a Interroll é altamente internacionalizada, está presente em 37 países, conta com aproximadamente 2.200 funcionários, atende 28 mil clientes globalmente e apresenta um faturamento de 560 milhões de francos suíços.

Quantas fábricas a Interroll possui?

Gaio – São 17 fábricas em todo o mundo, inclusive na Alemanha, onde tudo começou, além de centros de excelência na Suíça, Alemanha, Dinamarca, França, Estados Unidos e China.

E  a única fábrica da empresa na América Latina está justamente localizada no Brasil, na cidade paulista de Jaguariúna, em uma área de 3 mil m² onde atuam 45 funcionários, incluindo as áreas produtiva, administrativa e de vendas.

Desde quando a Interroll está presente no Brasil?

Gaio – No ano passado a fábrica completou dez anos, portanto a Interroll produz no Brasil desde 2008. Ela nasceu na cidade de Pindamonhangaba (SP) e, em 2012, houve a mudança para Jaguariúna. Antes de contar com a fábrica brasileira, porém, a marca já estava presente no mercado brasileiro por meio de empresas que a representavam.

Quais são os produtos que saem da linha nacional?

Gaio – Aqui nós montamos roletes e também outros componentes para as soluções de movimentação de materiais que a Interroll oferece ao mercado, de acordo com as necessidades dos clientes locais.

É claro que alguns produtos não têm escala para realizar a montagem, portanto esses nós importamos prontos de outras unidades. Mas a fábrica brasileira conta com um dos maiores leques de produção dentre todas as plantas da Interroll, até mesmo pelas barreiras comerciais que os impostos impõem para a importação, o que nos faz produzir mais localmente. Algumas fábricas da empresa ao redor do mundo conseguem apresentar preços muito competitivos para atender outros mercados, mas quando falamos de Brasil, temos que adicionar muitos impostos até que o produto chegue ao cliente final.

Existe o lado ruim, que é o fato de não podermos explorar totalmente toda essa expertise de outras unidades da empresa, mas temos que ver o lado bom, que é o fomento à produção local, a geração de empregos etc.

Os produtos importados costumam vir de que fábricas, especificamente?

Gaio – Aproximadamente 90% do que nós importamos vem das unidades da Europa, do Canadá e dos Estados Unidos, e uma pequena parcela das fábricas da Ásia. A demanda por lá é bastante grande, então eles estão bem ocupados atendendo o mercado local. As taxas de crescimento da Interroll no continente asiático têm sido fantásticas.

Linha de roletes para transportadores
Linha de roletes para transportadores

Vocês compram algum tipo de matéria-prima nacional?

Gaio – Como nossa produção é baseada em montagem, a única coisa que precisamos comprar é aço, e isso é feito localmente, claro. Mas nós compramos o aço já no formato de tubos e barras, que são cortados para a utilização na linha montagem dos nossos produtos.

Em que setores atuam as empresas que utilizam as soluções da Interroll?

Gaio – Nossos produtos estão presentes em empresas de courier, cargas expressas, e-commerce e em indústrias como de alimentos, bebidas, moda e automotivo.

Temos uma linha bastante variada que atende perfeitamente o setor de intralogística, mas não só ele. Nós temos forte presença também no segmento supermercadista, por exemplo. Quando as pessoas colocam as compras na esteira do caixa, não imaginam que a Interroll produz 60% dos motores que movem essas esteiras em todo o mundo. E no Brasil nós somos responsáveis por quase 100% deles.

Estamos presentes também nos aeroportos, fornecendo as motopolias utilizadas nas esteiras dos sistemas de check-in, os roletes de entrada e saída e os motores utilizados nas esteiras dos sistemas de raios-X e as curvas dos sistemas de bagagem. O passageiro não vê isso, mas as bagagens percorrem um longo caminho nas áreas internas dos aeroportos, e a Interroll faz as curvas dos transportadores de bagagens, que são sistemas bastante complexos.

Quem são os principais compradores dos produtos da Interroll?

Gaio – Basicamente nossos clientes se dividem em três tipos: os integradores de sistemas, que representam cerca de 60% da carteira mundial de pedidos da empresa; os original equipment manufacturers (OEMs), como o fabricante do sistema de raios-X dos aeroportos, por exemplo, que precisa de componentes nossos pra completar sua solução; e também usuários finais, no caso de empresas que aplicam nossos produtos para uso próprio.

E quais são os itens mais vendidos?

Gaio – Hoje isso é bem balanceado, mas nosso carro-chefe continua sendo componentes como roletes, roller drives e motopolias. Estamos crescendo muito em subsistemas, transportadores e sorters, em especial nos Estados Unidos, onde esse crescimento tem sido muito grande. Pra se ter uma ideia, em 2017 a Interroll fabricou por lá 15 sortes. Já em 2018 foram produzidos 50 sorters.

Plataforma de transportadores modulares
Plataforma de transportadores modulares

Este início de ano tem sido muito bom para a Interroll no Brasil, correto?

Gaio – Exatamente. O último mês de janeiro foi o melhor da história da empresa até então. O ano passado já havia sido muito bom para nós, e uma boa parte das entregas de pedidos feitos em 2018 passou para janeiro. Isso, somado à boa quantidade de pedidos feitos no início de 2019, fizeram com que o primeiro mês do ano estabelecesse um novo recorde para a Interroll.

A verdade é que 2018 também já havia sido um ano recorde, então o início de 2019 está acompanhando esse movimento e indica que teremos um ano bastante promissor. Nossa meta é crescer no mínimo 15% este ano em faturamento. Em 2018 nós crescemos 35% em faturamento e mais de 40% no número de pedidos realizados.

Esses números fazem com que a unidade brasileira esteja em linha com o crescimento global da empresa. A Interroll tem como meta dobrar de faturamento em cinco anos, superando 1 bilhão de francos suíços em 2022.

E antes de 2018, como estavam os negócios? Como a Interroll enfrentou a crise dos últimos anos?

Gaio – De tempos em tempos o Brasil passa por essas crises. Eu cheguei na Interroll em 2015, e posso dizer que de lá pra cá nós conseguimos manter uma boa estabilidade, apesar das dificuldades pelas quais o país passava, e isso culminou nos resultados de 2018, que foi o melhor ano da história da empresa no Brasil.

Então eu posso dizer que nós não somos um bom termômetro da crise, porque vimos todo mundo com muitas dificuldades, mas a Interroll manteve seus negócios e cresceu nesse período. Claro que temos muito mérito nisso, mas também podemos creditar esse crescimento ao fato de que a demanda no nosso mercado permaneceu. Ainda existe bastante espaço pra crescer, inclusive.

As previsões para 2019 se baseiam no atendimento a essa demanda?

Gaio – Sem dúvidas. Com certeza o Brasil não vai crescer 15% para nós acompanharmos, infelizmente. Nós vamos crescer justamente porque ainda existe uma demanda reprimida.

E a fábrica brasileira está preparada para atender esse crescimento?

Gaio – Nós estamos nesse exato momento fazendo algumas modificações para incrementar a fábrica. Uma nova linha de produção de roletes está sendo instalada para suportar esse crescimento previsto.

Quais você diria que são as maiores dificuldade enfrentadas para se atuar no Brasil?

Gaio – Nosso país impõe muitas dificuldades para as empresas de uma maneira geral. A mais óbvia delas no nosso caso são as barreiras comerciais encontradas nos processos de importação. Nós somos uma empresa com presença global, então podemos falar com propriedade sobre isso. Os processos aqui são muito complexos e os impostos são muito altos, o que nos prejudica especialmente ao concorrer com empresas brasileiras. A Interroll só não sofre mais com esse problema porque, como somos líderes globais de mercado e apresentamos grande excelência no desenvolvimento dos nossos produtos, o custo extra é facilmente suplantado pela qualidade oferecida. O mercado reconhece nossa marca.

Mão de obra também é um problema no Brasil. Nós encontramos certa dificuldade com a formação profissional. É difícil achar colaboradores com boa capacitação técnica para operar as máquinas na produção, por exemplo. Em geral nós buscamos pessoas com experiência prévia em empresas do setor metalmecânico. E dentro dessa questão eu posso citar também como uma dificuldade os encargos trabalhistas, que são gigantescos no Brasil para qualquer empresa. Se nós conseguíssemos pagar o que é gasto com o funcionário diretamente para o funcionário, com certeza teríamos uma mão de obra muito melhor no país.

Mas apesar disso o mercado brasileiro tem muitas qualidades também. De uma forma geral é um mercado bastante aberto, especialmente em termos de relacionamento. Existem países que são muito fechados quando o assunto é fazer negócio com empresas de fora, mas aqui nós não encontramos esse tipo de dificuldade.