Quinta-feira, 30 de junho de 2016 - 15h27
Deixa com quem sabe
Provedores de soluções logísticas analisam o cenário econômico brasileiro e vislumbram o potencial e as tendências do mercado. Objetivo é investir cada vez mais em tecnologia da informação e em ações operacionais a fim de conquistar a confiança de empresas que, muitas vezes por falta de conhecimento, ainda primarizam as atividades de gestão e de movimentação

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Há uma frase que, com certeza, todo mundo já escutou ao menos uma vez na vida: “se quiser algo bem-feito, faça você mesmo”. A afirmação pode ser muito bem aplicada na vida pessoal, quando falamos sobre decisões individuais e, no âmbito profissional, também é cabível em algumas situações. Mas nem sempre. No ambiente corporativo, muitas vezes adotar uma ação ou colocar em prática determinada estratégia depende da atuação de uma série de pessoas ou até mesmo empresas.

É muito comum observar, no mercado de uma forma geral, o quanto as empresas têm dúvidas se devem ou não terceirizar suas operações logísticas, ou seja, se devem realizar o trabalho dentro de casa, com ativos próprios, ou deixar sob a responsabilidade de outra companhia, esta especializada na atividade, o trabalho de armazenar e movimentar seus itens.

A atividade logística, hoje, é um dos grandes pilares de sustentação do país. Tornando-se cada vez mais representativa para a economia brasileira, mostra-se a cada dia mais complexa, apresenta demandas específicas e exige que diferentes aspectos operacionais e legais sejam observados. E isso nos leva de volta ao início deste texto. A julgar pelo cenário e pelos movimentos realizados pelos provedores e por parte da indústria, na operação logística a máxima “se quiser algo bem-feito, faça você mesmo” vem caindo em desuso.

Cesar Meireles
Cesar Meireles

O diretor executivo da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), Cesar Meireles, faz uma breve descrição mercadológica para ilustrar a importância do setor. “Em 2014, fizemos um estudo que identificou 160 operadores logísticos no Brasil, com receita de R$ 44,3 bilhões, geração de tributos e encargos de R$ 9,2 bilhões e 250 mil empregos diretos”, diz. Ele lembra, porém, que com a recessão de 2015, com Produto Interno Bruto (PIB) negativo em 3,8%, o mercado de operadores reduziu cerca de 15%. Mas não foi uma queda linear. “A macroeconomia de forma geral impacta a todos, mas temos análises microeconômicas. Se pegarmos o setor automotivo, por exemplo, há um comportamento pior para o movimento dos automóveis, mas menos impactante no segmento de autopeças”, explica.

Apesar das adversidades, Meireles ressalta que os operadores continuam sendo provedores de soluções que efetivamente trazem redução de custos, mitigação de riscos e aumento de produtividade. “Hoje, o custo logístico no Brasil está em torno de R$ 700 bilhões por ano, cerca de 9% do PIB. Se não fosse pela atuação dos operadores logísticos, esse custo seria de R$ 770 bilhões anuais, ou seja, teríamos um aumento no custo Brasil de 10%”, calcula.

Maria Fernanda Hijjar
Maria Fernanda Hijjar

A sócia-executiva do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), Maria Fernanda Hijjar, também cita o cenário econômico desaquecido de 2015, mas ressalta as oportunidades. “No período de retração de demanda as empresas buscam ser mais enxutas, e isso envolve ter menos ativo e ser mais flexível. Neste ponto, entra a questão da terceirização na área de logística”, resume. Mas, para ela, a potencialidade independe da crise. O estudo mais recente do Ilos, realizado com grandes indústrias embarcadoras de carga que compõem a lista das mil maiores em faturamento no Brasil, apontou que, de tudo o que uma empresa embarcadora investe em logística, entre 60% e 70% são destinados a terceiros.

Segundo a executiva, é importante ressaltar um ponto: as atividades operacionais – transporte de suprimentos, distribuição e transferência – possuem um alto índice de terceirização, de 91%, 90% e 88%, respectivamente. Em contrapartida, as de gestão são basicamente efetuadas internamente, o que possibilita aos provedores oferecer e explorar serviços ainda pouco terceirizados pelos embarcadores. A executiva dá alguns exemplos. “Das empresas pesquisadas, apenas 5% terceirizam a gestão do estoque, 12% deixam sob a responsabilidade do provedor a gestão integrada das operações logísticas e 13% terceirizam o desenvolvimento de projetos e soluções logísticas”, informa. De acordo com ela, as atividades de transporte apresentam uma margem menor, por isso é preciso ganhar no volume. Já as atividades de gestão têm uma margem maior, mas um volume menor contratado.

Para a executiva, quando as empresas terceirizam e utilizam um operador, uma das principais vantagens é a flexibilidade nas operações: ampliar ou diminuir a estrutura de acordo com o cenário mercadológico. Além disso, há a possibilidade de diferentes empresas compartilharem a movimentação das cargas. Maria Fernanda, contudo, faz um lembrete. “É preciso avaliar aquilo que está sendo oferecido. Muitas vezes os operadores oferecem serviços para melhorar o nível de operacional, mas a demanda do cliente é, na verdade, conseguir ser mais produtivo, efetuar mais operações com a aplicação de menos ativos e, com isso, reduzir custos. Não estamos falando aqui de diminuir preço e sim aumentar a produtividade, melhorar a utilização de ativos para ter uma operação mais enxuta”, frisa.

O que pensam os operadores

Vasco Carvalho Oliveira Neto
Vasco Carvalho Oliveira Neto

Na opinião do presidente do Conselho da AGV Logística, Vasco Carvalho Oliveira Neto, uma empresa contrata um operador logístico pois não consegue lidar com a complexidade que a cadeia de supply chain demanda atualmente. “As empresas hoje têm que entregar em vários locais diferentes, o varejo é multiformato e as empresas têm cada vez mais produtos. Elas não têm tecnologia, conhecimento técnico e equipe para poder fazer este trabalho internamente”, analisa.

Ele salienta que as companhias, principalmente as médias e grandes, que têm a necessidade de reduzir cada vez mais seus custos, em vez de alugar um armazém e gerenciar seu estoque com uma equipe interna, preferem contratar um operador que tenha a visão de toda a cadeia. “Elas focam na produção de seus produtos e um especialista, com equipe dedicada, se responsabiliza pela armazenagem, pela gestão do estoque e pelo transporte de forma integrada”, resume.

Já o presidente da Penske Logistics do Brasil, Paulo Sarti, diz que sempre se imaginou que, para reduzir o custo de transporte, é necessário reduzir o frete. “Chegamos a um momento em que isso não basta, e o que deve ser feito é otimizar a ocupação da frota, fazer com que os ativos rodem com a maior ocupação possível”, afirma. Na opinião do vice-presidente de Contratos Logísticos da Ceva Logistics na América do Sul, Milton Pimenta, o mercado de terceirização logística no Brasil ainda não é maduro o suficiente e, por isso, apresenta diversas oportunidades. “Muitas empresas tratam a logística de maneira primarizada, às vezes por uma diretriz global para a região e outras vezes por ainda não observarem a terceirização como vantagem operacional”, constata.

Marcos Bagnolesi
Marcos Bagnolesi

Segundo o diretor Comercial, de Projetos e Marketing da ID Logistics, Marcos Bagnolesi, algumas companhias ainda apresentam resistência, e o papel dos provedores é descobrir quem toma a decisão para mostrar as vantagens que a terceirização logística oferece, como a flexibilização de seus custos logísticos. “Temos a percepção de que grande parte das empresas ainda não terceiriza sua logística e realiza as operações de forma própria”, relata. Ele acredita, entretanto, que com a crise esse cenário pode mudar. “É natural que o mercado nesse momento busque ou pelo menos analise uma proposta, uma solução ou uma alternativa para tentar tornar suas operações terceirizadas”, diz.

Bagnolesi ressalta outro motivo por essa busca, além da crise. “Muitas operações logísticas próprias são antigas e arcaicas, com diversas pessoas e ativos operando, não são verticalizadas e não utilizam sistemas de gestão, o que as torna normalmente menos flexíveis”, pontua. Além disso, de acordo com ele, pode haver perda de volume, mas o número de colaboradores continua o mesmo, pois são funcionários próprios, tornando o custo mais alto. “Já o operador logístico é mais flexível, porque tem sinergia com o cliente e pode alocar profissionais de acordo com a demanda. Somos obrigados a acompanhar a sazonalidade das operações das empresas”, define.

O diretor-presidente da Tegma, Gennaro Oddone, que também é presidente do Conselho Deliberativo da Abol, analisa que houve um aumento significativo na capacidade produtiva do país nos últimos dez anos. Contudo, segundo ele, a atual conjuntura econômica brasileira faz com que os próximos anos sejam muito desafiadores tanto para a empresa quanto para todo o mercado. “Como a Tegma é uma companhia de capital aberto, não podemos divulgar informações estratégicas antes de levá-las a todo o mercado”, explica o executivo, adiantando, porém, que um dos focos continuará sendo a racionalidade dos custos e das operações. “Acreditamos que as empresas veem os provedores logísticos como soluções para desatar alguns nós nas suas cadeias entre fornecedores e clientes”, afirma.

Tendências

Apesar da crise, citada pelos agentes que acompanham ou atuam no segmento, o cenário é promissor. Meireles, da Abol, garante que alguns segmentos começam a despertar o interesse pelos operadores, como o de papel e celulose, o alimentício e a cadeia de fármacos. “Eles ainda não terceirizam por falta de conhecimento da atividade”, diz. Quanto aos serviços, o executivo diz que a gestão do estoque é um dos que mais trazem vantagens àqueles que terceirizam, pois é aplicada tecnologia de ponta e são utilizados profissionais capacitados e métodos e processos de controle precisos.

Maria Fernanda, do Ilos, observa a tendência de os prestadores de serviços logísticos quererem se posicionar como operadores de gestão. Ela lembra, porém, que é mais difícil atuar nestas atividades gerenciais, uma vez que é preciso ganhar a confiança das empresas. “Os operadores só adquirem confiança demonstrando qualificação, recomendação e mostrando que são capazes de realizar as atividades”, admite.

Para Oliveira Neto, da AGV, existe um aumento na tendência de as empresas buscarem eficiência em suas cadeias logísticas. “Não estamos falando de transporte puro e simples, mas sim repensar a malha do supply chain. O operador agrega mais valor quando consegue fazer algo além do básico, realizando atividades mais sofisticadas e trazendo a tecnologia para o cliente, principalmente as empresas médias, que sozinhas não conseguem ter este nível de sofisticação”, avalia. De acordo com o executivo, grandes corporações têm um gestor de supply chain e possuem softwares gerenciais. “Já as médias não têm capacidade de investir em tecnologias de ponta para gerenciar sua logística e estruturar uma equipe própria”, conclui.

Por estes motivos, o executivo revela que as empresas de médio porte estão no escopo da AGV, uma vez que é possível agregar mais valor às operações e otimizar a cadeia logística.  “Nosso foco são empresas que faturam de R$ 200 milhões a R$ 2 bilhões por ano e que investem de R$ 30 milhões a R$ 200 milhões anuais em logística”. Hoje, a AGV está dividida em duas unidades de negócio. A primeira é a de Saúde, que atua com 70 clientes, e a segunda é de Bens de Consumo, Tecnologia e Industrial, com 50 clientes.

Na Penske, o presidente, Sarti, revela que a carteira é composta por 25 clientes, sendo 90% empresas de grande porte ou multinacionais. “Estamos desenvolvendo serviços com maior valor agregado que não dependam tanto de ativos, que tenham engenharia e expertise técnica. Esses negócios são os que estão apresentando crescimento esse ano e acreditamos que isso se manterá no próximo”, destaca. Além disso, ele conta que alguns clientes têm buscado maneiras de conseguir sinergia de rotas. “Empresas com grandes volumes de frete, dos segmentos automotivo e varejista, são as que observam com atenção esses novos serviços, pois conseguem ganhos significativos”, diz. O presidente salienta que há a possibilidade de expandir esses serviços para organizações menores, principalmente para aquelas que estudam maneiras diferentes de fazer os seus negócios e não exigem soluções imediatas. Além do serviço de transporte, Sarti revela que na armazenagem também há potencial de crescimento. “Os clientes buscam o compartilhamento das operações e dos ativos e nós estamos realizando o trabalho de intermediar essas demandas”, conta.

Milton Pimenta
Milton Pimenta

Na Ceva, Pimenta cita que há operações de grandes proporções em grandes clientes multinacionais e operações menores em companhias pequenas e médias. “Nossa estratégia é diversificar o tamanho das empresas atendidas e os serviços oferecidos às empresas de grande, médio e pequeno portes. É importante expandir o portfólio de serviços e de clientes”, acredita. Ao todo, a Ceva tem 50 empresas sob contrato e definiu segmentos-chave de atuação: automotivo, bens de consumo, varejo, energia, farmacêutico, industrial e tecnologia. “Alguns deles são mais avançados em termos de terceirização e outros menos. A grande maioria dos nossos clientes, cerca de 80%, é multinacional”, calcula o executivo.

Quanto aos segmentos atendidos, Pimenta revela que a tendência é explorar os de tecnologia, bens de consumo e farmacêutico. “Uma das metas, especificamente no serviço de armazenagem, é trazer serviços de valor agregado, como oferecer gestão de inventário, embalagem e montagem de kits”, descreve. Além disso, a meta é fornecer suporte no planejamento e oferecer a gestão na cadeia de distribuição, realizando, por exemplo, a roteirização, a otimização de rotas de transporte e maximizando a utilização dos veículos.

Na ID, Bagnolesi vislumbra como potenciais clientes empresas nacionais, como aquelas que compõem a cadeia da construção civil, além de indústrias têxteis e de medicamentos. “Elas possuem um grande volume, mas ainda não terceirizam a logística. Quanto aos serviços oferecidos, a tendência é focar na logística interna, realizando a gestão dos estoques. O serviço de transporte é commodity”, pontua.

Já na Tegma, que atualmente conta com uma carteira de 150 clientes de características diversas – desde indústrias de veículos e alimentos até empresas de serviços, sendo a maioria de grande porte – Oddone vislumbra que a terceirização dos serviços é mesmo uma grande tendência. “Cada vez mais, os clientes querem focar no seu core business e delegar a gestão para os operadores. Também observamos que muitos deles querem concentrar suas operações num único player, capaz de integrar todas as etapas da cadeia logística”, revela.

Quanto aos serviços oferecidos, o diretor-presidente conta que na divisão automotiva a atividade que se destaca é a de logística de veículos, com o transporte de 800.000 unidades zero-quilômetro por ano. Já na divisão de logística integrada, a Tegma oferece serviços de inbound para indústrias de diversos setores e de armazenagem para o segmento de bens de consumo. “Sempre vamos concentrar os nossos esforços para fortalecer as operações nos segmentos em que atuamos”, diz.

O que fazer

Observar o mercado, analisar suas demandas e descobrir suas potencialidades e tendências são fatores fundamentais para os provedores logísticos expandirem seus negócios e participarem da cadeia do cliente. Mas isso não basta. É necessário que os operadores possuam estruturas robustas e definam seu plano de negócios e seu planejamento estratégico.

Maria Fernanda ressalta que os fornecedores de serviços logísticos devem investir cada vez mais em tecnologia da informação. “A indústria investe em TI para o seu negócio, mas para a gestão logística não. Por isso, os operadores devem ter uma TI relacionada ao cliente, uma vez que hoje esse é um dos pontos mais bem avaliados pelas indústrias quando elas analisam seu provedor logístico”.

Na AGV, o dever de casa está sendo feito. Oliveira Neto conta que, no departamento de Tecnologia da empresa, atuam 50 pessoas. “Investimos por ano cerca de 2% de nosso faturamento em TI. Em 2015, a empresa encerrou o ano com um faturamento de R$ 600 milhões. Uma solução produtiva e de qualidade passa por integração tecnológica”, afirma.

A estratégia de aplicar recursos em sistemas dá resultado. O executivo informa que, para 80% do total de clientes, é realizada a logística integrada, e somente para 20% são efetuadas as atividades básicas de armazenagem ou transporte. “Nosso trabalho hoje é migrar o cliente que faz apenas o básico para a gestão integrada. Normalmente começamos com o básico para fazermos essa migração depois de um ou dois anos de relacionamento. Observamos que o cliente quer cada vez menos fornecedores e quer ter uma relação de longo prazo”.

Paulo Sarti
Paulo Sarti

Na Penske, para fomentar as operações gerenciais e suportar o crescimento dos serviços com alto valor agregado, o objetivo também é aplicar cada vez mais recursos em tecnologia. “Não investimos muito em frota e armazéns, mas em tecnologias aplicaremos este ano R$ 4 milhões”, calcula o presidente. Segundo Sarti, ações operacionais também estão sendo definidas. “Estamos com engenheiros trabalhando dentro dos clientes, levantando quais são as características do transporte, analisando as demandas e redesenhando de maneira constante as rotas”, anuncia. Atualmente, a Penske oferece os serviços de transporte, armazenagem, gestão de estoque e movimentação dentro de fábricas. “Do nosso quadro de clientes, mais de 50% utilizam todos os serviços disponibilizados”.

A Ceva é outra que aposta na robustez do departamento de TI. Pimenta revela que a empresa opera um sistema de gerenciamento de armazém que faz parte de uma plataforma global. “Parte é desenvolvida localmente e algumas funcionalidades e a configuração são desenvolvidas por um grupo global”, diz. Além disso, a empresa possui um software de transporte que também faz parte de uma plataforma global, mas de uma software house local. “O desenvolvimento é totalmente realizado no Brasil”, frisa. Ele ressalta, ainda, que os dois sistemas, à medida que se faz necessário, possuem interface com as ferramentas dos clientes.

A ID também aposta em soluções operacionais. O diretor Comercial conta que a companhia criou, em outubro do ano passado, uma lista de 50 prospects que têm operação logística própria. “Estamos indo a alguns para apresentar a inteligência, o know-how, o ganho de produtividade e mostrar a flexibilidade de nossas operações. E, na medida em que eles nos dão a possibilidade, nós apresentamos e concebemos um projeto dedicado”, explica Bagnolesi.

Segundo o executivo, do total de prospects, dois – um em dezembro de 2015 e o outro em fevereiro deste ano – já se tornaram clientes da ID. “São varejistas. Um atua no segmento de material de construção e o outro no supermercadista. Eles passaram para a nossa responsabilidade a gestão de seus armazéns”, diz. E já há resultados computados. “Em um deles, conseguimos aumentar em 15% a produtividade e, no outro, em 25%”.

Bagnolesi conta que na companhia existem mais três projetos em andamento. “Esperamos que até julho tenhamos uma decisão destas empresas”, resume. Para isso, ele leva em consideração um ponto. “A primeira coisa que as empresas fazem é comparar o custo atual, utilizando a operação logística própria, com a proposta que estamos apresentando. Se mostrarmos as vantagens financeiras e de produtividade que eles terão e passarmos a confiança de que os serviços serão executados, independentemente de nossas margens de lucro, a tomada de decisão pela terceirização será muito rápida”, afirma.

Genaro Oddone
Gennaro Oddone

Da Tegma, Oddone ressalta que os clientes demandam soluções inovadoras que possam gerar vantagens competitivas, tanto em relação aos processos quanto em às operações. “Uma de nossas ações é estreitar ainda mais o relacionamento com o cliente para entender suas reais necessidades e, assim, oferecer uma solução completa”. Além disso, ele destaca que investimentos em TI também são fundamentais para transmitir confiança aos parceiros.

A impressão de quem utiliza

Muitas companhias já descobriram as vantagens da terceirização logística. Mas, em certos casos, as operações são divididas, ficando parte sob responsabilidade do provedor logístico e parte sendo efetuada internamente. Este é o caso da Souza Cruz, produtora de cigarros subsidiária da British American Tobacco no Brasil. A companhia trabalha em duas frentes: primary supply chain, da fábrica para os centros de distribuição, e secondary supply chain, dos centros de distribuição para os pontos de venda.

Na primeira fase da cadeia de distribuição, o serviço é terceirizado, por meio de um modelo de prestação de serviço de duas transportadoras principais. Segundo o gerente de Primary Supply Chain, Valdoberto Vidal, o relacionamento de anos com o operador eleva o nível do serviço e torna o custo mais eficiente. Para ilustrar o estreitamento da relação, uma das fornecedoras modificou o tamanho e o formato de seus veículos para que fosse adequado ao transporte de cigarros. “O modelo de logística adotado é revisado anualmente, com a intenção de transportarmos o maior volume possível com o menor custo”, garante.

Já a segunda fase da cadeia é realizada com 90% de logística própria. Para o gerente de Trade, Marketing e Distribuição, Marcio Rosa e Silva, essa decisão proporciona mais qualidade nos serviços e mais eficiência nos custos de transporte dos centros de distribuição para os mais de 300 mil pontos de venda. O executivo explica que os 10% de terceirização da segunda fase visam abastecer varejos que compram pequenos volumes em uma frequência não estável ou sazonal, o que garante atender toda a demanda de varejistas.

Já na MSD Saúde Animal Brasil, que movimenta medicamentos veterinários – biológicos, tóxicos e secos –, toda a logística é terceirizada desde 2000. O diretor de Operações e Negócio, Gubio Almeida, conta que a AGV Logística efetua a armazenagem e o controle de inventário em três estruturas localizadas nos estados de São Paulo, Goiás e Paraná, além da distribuição dos itens de acordo com a demanda.

Para o executivo, a logística terceirizada traz como diferencial competitivo a redução de custos. “São realizadas negociações melhores. Nosso objetivo é levar os melhores produtos e serviços ao mercado, e a logística eficiente é um meio para isso”, salienta. Além disso, ele cita o aumento do foco como outra vantagem da terceirização, ao destacar o fato de a empresa ter a possibilidade de direcionar seus esforços apenas para sua atividade-fim.

Oportunidades

Análises, investimentos e estratégias. Os provedores logísticos realizam as mais diferentes ações para atuar de maneira cada vez mais efetiva e com excelência no mercado. Conhecer esse cenário a fim de tomar as decisões corretas é fundamental. Para isso, a Fundação Dom Cabral, por meio do Núcleo de Logística, Supply Chain e Infraestrutura, realizou em 2015 uma pesquisa para avaliar os custos logísticos para as indústrias que operam no Brasil.

Tendo como um dos coordenadores o professor Paulo Tarso Vilela de Resende, o estudo foi realizado com a participação de 142 empresas, que representam 22 segmentos industriais. Os segmentos com maior número de respondentes foram alimentação e autoindústria, ambas representando 12,7% da amostra. O faturamento daquelas que responderam equivale a cerca de 15% do PIB brasileiro. A região mais expressiva da amostra foi o Sudeste, onde 61% das empresas entrevistadas mantêm suas matrizes e 84,5% mantêm atividades.

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A pesquisa apontou que o custo logístico de 2015 cresceu 1,8%, considerando a média ponderada pelo volume de vendas das empresas pesquisadas, em relação à pesquisa de 2014. O custo logístico sofreu um crescimento de 30% nas empresas com volume de vendas entre R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão. Tal comportamento foi também observado nas empresas que faturam entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões e de R$ 2 bilhões a R$ 10 bilhões, porém, em menores intensidades, de 5% e 6% respectivamente, o que já se mostra significativo para o período de um ano.

O custo logístico cresceu em todas as regiões do Brasil, exceto no Sul. Tal crescimento alcançou 30% no Centro-Oeste, 18% no Nordeste e 4% no Sudeste. O custo logístico nos setores de agronegócio, alimentação e autoindústria cresceu 14%, 9% e 3%, respectivamente. Tal comportamento pode ser observado também em outros setores que, no entanto, não apresentaram uma amostra individualmente significativa.

Os principais fatores de impacto no preço final foram os custos com transporte, distribuição urbana e armazenagem. O transporte de longa distância é o fator mais representativo na estrutura dos custos logísticos das empresas, compondo 50% do total. Nota-se também que 50% das empresas pesquisadas citam que os maiores custos logísticos estão relacionados ao transporte de produtos acabados e à distribuição urbana.

Quanto à potencialidade de redução dos custos logísticos, a terceirização da frota e dos serviços para operadores tem sido a medida mais adotada pelas empresas. Para 44% dos entrevistados, estas ações vêm sendo prioridade.

Fábio Penteado