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Terça-feira, 7 de agosto de 2018 - 14h57
Greve dos caminhoneiros e tabela mínima de frete estimulam investimentos em frota própria
Transportadoras e embarcadores estudam modelos aplicáveis a fim de controlar os ativos e gerenciar racionalmente os custos de transporte

A greve dos caminhoneiros, que durou cerca de dez dias no último mês de maio e trouxe diversas consequências danosas para a sociedade e para a economia do país, reacendeu uma série de debates quanto ao modal rodoviário, desde a já conhecida dependência do transporte sobre rodas no Brasil até o valor dos combustíveis, um dos principais pontos reivindicados pelos grevistas.

E quanto ao tabelamento mínimo do frete? Nosso objetivo aqui não é entrar no mérito de sua viabilidade ou não e nem se ele protege e garante rentabilidade ao motorista ou se onera quem necessita do serviço. A questão é que esse ponto, bastante controverso, iniciou um novo movimento tanto no setor de transporte quanto nas empresas embarcadoras de cargas. Desde que a greve foi encerrada e o tabelamento definido e publicado (Resolução nº 5.820, de 30 de maio de 2018, em edição extra do Diário Oficial da União [DOU]) transportadores investem na ampliação da sua frota e embarcadores começaram a vislumbrar a possibilidade de operar com veículos próprios.

Os objetivos da iniciativa são claros. A meta é ter mais controle sobre os ativos, evitar o não atendimento das demandas por movimentos grevistas e, por fim, gerenciar os custos de transporte e possuir maior previsibilidade sobre eles. Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) não decide sobre a inconstitucionalidade do estabelecimento do frete mínimo, o que deve ocorrer ao final deste mês de agosto, aqueles que foram impactados pela novidade se movimentam.

Representação setorial

Voltaire, da Anut

O diretor Operacional da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (Anut), Renato Voltaire, entidade que representa empresas que atuam em nove segmentos – aço, metais não-ferrosos, grãos, fertilizantes, químicos, petrolífero, cimento, álcool e transformação mecânica – diz que os associados ainda possuem como característica operacional quanto ao transporte a contratação de prestadores de serviço.

Esse cenário, contudo, pode mudar. “Em função do que existe com relação ao tabelamento e uma perspectiva de ser algo difícil de ser equacionado, observamos que todos estão estudando verticalizar o transporte com a aquisição de veículos para atuar com frota própria a fim de atender as necessidades básicas, contratando terceiros nas flutuações de mercado”, revela o executivo.

Segundo ele, nada de concreto foi definido, pois como a situação é muito recente, as organizações estão estudando e analisando as diversas possibilidades que existem. Os modelos, como aquisição de ativos, contatar o dono do caminhão e torná-lo funcionário da companhia ou locar veículos com prazos longos de contrato, por exemplo, ainda são debatidos. “As empresas estão debruçadas sobre essas opções, pensando qual será a melhor prática e avaliando que modelo será adotado, mas a tendência é de verticalização com o emprego de frota própria”, diz.

Embarcadores

A afirmação de Voltaire tem respaldo quando se observa aquilo que as companhias estão fazendo. Um transportador ouvido pela reportagem, que não quis se identificar, revela que investiu em frota e tem previsão de adquirir mais veículos ainda este ano, uma vez que a criação da tabela mínima de frete torna as operações com autônomos mais onerosas.

A Cargill diz que enxergou como alternativa para a fixação de preços altíssimos, que já vislumbra para a próxima safra, o investimento na verticalização das operações, com a aquisição de frota própria de caminhão e contratação de motoristas. Isso porque, revela a companhia, o tabelamento alterou o modelo de negócio.

Divulgação
Divulgação

Ela divulga, sem revelar o valor, que está em processo de orçamento para a aquisição de mil caminhões. Os veículos serão aplicados em rotas que podem ser gerenciadas e que ofereçam previsibilidade e eficiência. Como exemplo, a Cargill cita uma operação com origem e destino controlados, o trecho entre um de seus armazéns no Mato Grosso até o terminal ferroviário de Rondonópolis, no mesmo estado.

Já para rotas consideradas ruins pela companhia, como as em que a carga está em áreas distantes do asfalto ou onde a espera do caminhão por troca de nota fiscal é longa, a responsabilidade ainda ficará com o frete terceirizado. A Cargill frisa que continua atuando com autônomos e agregados e que preza pelo relacionamento de longo prazo com motoristas e empresas de transporte.

A companhia classifica como um atraso na eficiência e na produtividade do agronegócio brasileiro e defende que estabelecer pisos mínimos para o frete rodoviário de cargas a granel inviabiliza a comercialização antecipada de grãos e traz grandes impactos financeiros, pois incentiva a ineficiência do setor de transportes.

Sousa, da Cargill

O diretor de Grãos e Processamento da Cargill para a América Latina, Paulo Sousa, explica que em vez de comprar os grãos com retirada nas fazendas ou nos armazéns no interior, eles serão forçados a comprar somente com entrega nas fábricas e nos portos. “Dessa forma, se reduz o risco ao máximo, permitindo a utilização de frota própria nas rotas de alta eficiência entre fábricas e portos, maximizando o uso das hidrovias ou ferrovias, que são mais eficientes e agora se tornam juridicamente muito mais seguras”, diz.

O executivo ressalta, ainda, que os produtores rurais com maior capacidade de investimento conseguirão vender sua safra ainda melhor, incorporando à sua receita os benefícios de um frete artificialmente sobrevalorizado aos seus produtos, acentuando a concentração de renda também no campo.

Os pequenos produtores e os produtores rurais da agricultura familiar também são impactados e serão forçados, de acordo com Sousa, a se organizar em cooperativas de frete, com suas frotas próprias, ou perderão competitividade, sendo eliminados da produção de grãos do Brasil. “Tenho observado que essa lei incentiva os agricultores que ainda não têm caminhões a adquirir seus veículos próprios e os que já têm a ampliar sua frota de maneira significativa.”

Procurada, a JBS se posicionou por meio de uma nota. De acordo com o comunicado, a empresa confirma a aquisição de 360 caminhões para reforçar sua frota própria de veículos. A decisão, continua o texto divulgado, está amparada na estratégia de uma operação sustentável, que garanta a produção e oferta de produtos de qualidade em todo país, reduzindo os impactos de custo causados pela aplicação do tabelamento do frete rodoviário.

Negócios em alta

Cariani, da Ouro Verde
Cariani, da Ouro Verde

Marluz Cariani, gerente geral de Pesados da Ouro Verde, empresa que possui uma frota de 2.500 caminhões disponíveis para locação, considera que devido aos aumentos de custo do frete, as empresas estão buscando alternativas para não serem penalizadas. “Elas estão fazendo um comparativo, e como não conhecem a operação dos caminhões, estão optando por contratar motoristas, comprando ou alugando veículos. E essa estratégia está fazendo sentido, com a conta sendo positiva ao final do processo”, acredita.

O executivo salienta que já observa um aumento significativo na demanda por locação por parte de empresas que atuam no setor rodoviário e em indústrias de bens de consumo e de autopeças, além dos setores de saneamento e de energia. Quando questionado sobre o aquecimento dos negócios, Cariani é enfático. “Houve sim, e significativamente. O pessoal está nos procurando para tentar verificar a possibilidade de locação de equipamentos como alternativa à compra de caminhões ou à utilização das transportadoras”, diz.

Quanto ao tempo de locação, Cariani conta que a Ouro Verde firma acordos em torno de 60 meses para os caminhões. Sem entrar em detalhes, o executivo frisa que há casos específicos, mas que a política é não firmar contratos com prazo inferior a 36 meses.

Para ele, as empresas estão apostando na locação para evitarem as despesas com o frete e a dificuldade em comprar os veículos. Isso porque, lembra, em 2017 eram diversos os benefícios concedidos para a aquisição de caminhões. “Agora o cenário mudou, pois o governo se reposicionou sobre a modalidade Finame, linha de financiamento de bens de capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com parcelas variáveis e não mais fixas, e com os juros perto daqueles praticados na modalidade compra”, analisa.

Cariani conclui dizendo que outro ponto vem estimulando a locação. “A alta do diesel, que corresponde a quase 50% do custo do frete, é outra variável importante e dificulta um balanço positivo nas empresas que adquirem ativos”, pontua.

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