Quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019 - 17h23
Equipamentos de movimentação: estabilidade econômica para manter a retomada
Depois de alguns anos de declínio nas vendas, os fabricantes de equipamentos de movimentação vislumbram um futuro promissor diante da esperança de um cenário econômico mais favorável a investimentos. Mais atenção às demandas do setor, porém – como incentivos fiscais e revisões tributárias – poderiam alavancar ainda mais rapidamente o mercado

O ano de 2018 pode ser considerado o pontapé inicial da recuperação do setor de equipamentos de movimentação depois das sucessivas quedas provocadas pela crise que o Brasil enfrentou. A economia ainda não havia se recuperado totalmente – e na verdade ainda não se recuperou –, mas alguns negócios pontuais motivados pela perspectiva de dias melhores jogaram os números de equipamentos vendidos para cima e trouxeram a promessa de ares mais brandos para o futuro do setor.

Ao menos foi isso que os players que atuam nesse negócio puderam observar. O fato é que obter dados referentes ao mercado brasileiro de equipamentos de movimentação não é tarefa fácil. Diferente de indústrias como a de caminhões e a de implementos rodoviários, por exemplo, que contam com entidades (a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores [Anfavea] e a Associação Nacional de Fabricantes de Implementos Rodoviários [Anfir], respectivamente) que realizam e divulgam periodicamente aferições a respeito da produção e da comercialização nacional e da importação de veículos e equipamentos, o setor de empilhadeiras pode ser considerado um pouco mais obscuro quando o assunto são seus números.

Ainda que as empresas que atuam no segmento disponham de análises setoriais para uso próprio, elas não são divulgadas ao mercado em geral, portanto a melhor maneira de esboçar um termômetro sobre o setor é justamente examinar as considerações e as perspectivas dessas mesmas empresas. Assim, com o objetivo de traçar mais um balanço a respeito do mercado nacional de equipamentos de movimentação e entender quais são as expectativas para o ano de 2019, a Tecnologística novamente recorreu aos executivos de alguns dos principais players do segmento.

Perspectivas

Marin, do Grupo Kion
Marin, do Grupo Kion

De acordo com o gerente de Vendas do Grupo Kion, Murilo Marin, a previsão de um cenário geral mais estável no Brasil deve contribuir com os números do mercado de empilhadeiras em 2019. “Nossa perspectiva é de que este ano irá continuar com a curva de crescimento ascendente em relação a 2018, que já foi melhor do que o ano anterior”, analisa. “Estabilidade política e econômica são as motrizes que precisamos pra gerar confiança, estimular o consumo e, por consequência, novos investimentos. É um ciclo virtuoso que certamente nos trará grandes oportunidades, gerando uma curva de crescimento em relação aos anos anteriores.”

Georg, da Jungheinrich
Georg, da Jungheinrich

Vigold Georg, vice-presidente da Jungheinrich para a América Latina, concorda. “Com o reaquecimento da economia brasileira, acreditamos que o setor de intralogística no país deva crescer em torno de 10 a 15% em 2019. O momento é de otimismo. A expectativa é que as reformas fundamentais sejam aprovadas, gerando assim uma maior confiança nos investidores”. Segundo o executivo, o mercado brasileiro de equipamentos de movimentação apresenta um grande potencial de crescimento. “O Brasil tem hoje em torno de oito máquinas novas vendidas ou locadas por ano para cada 100 mil habitantes. Na Alemanha esse número gira em torno de 130 e no Chile são 34 máquinas por 100 mil habitantes”, compara, apostando ainda que a migração de máquinas a combustão para elétricas deve impulsionar as vendas nos próximos anos.

As expectativas do CEO da Paletrans, Denis Dutra de Oliveira, são de uma retomada ainda mais agressiva. “Já pudemos perceber um movimento mais forte no último trimestre de 2018, quando vimos um crescimento de 25% na comparação com o mesmo período de 2017, o que nos deixa mais otimistas com relação a 2019”, diz. Para ele, o mercado deve crescer no mínimo 20% no acumulado deste ano, tendo como grande responsável a demanda reprimida por novos equipamentos aliada à nova conjuntura política.

“A demanda ficou reprimida no período de 2014 a 2018”, destaca o diretor Comercial da Combilift no Brasil, Rafael Kessler. “Em muitos casos, a prática usual de renovação de frota não aconteceu, e isso, somado à retração nos investimentos de expansão, apresenta um panorama de crescimento de vendas para os próximos anos”, completa.

Arrais, da Clark
Arrais, da Clark

Segundo Mauro Arrais, diretor de Operações da Clark no Brasil, isso faz com que 2019 seja um ano propício ao lançamento de novos equipamentos e tecnologias. O executivo acredita que o mercado brasileiro de equipamentos de movimentação deve crescer entre 10 e 20% neste ano e também aponta que novos investimentos já puderam ser sentidos. “De forma geral estamos sentindo um clima de otimismo e retomada desde o final do ano de 2018, principalmente com grandes empresas que já indicaram investimentos em logística para 2019.”

Governo

Oliveira, da Paletrans
Oliveira, da Paletrans

Para Oliveira, da Paletrans, o crescimento não será tão abrupto e radical logo no início de 2019, mas deve se concretizar no decorrer do ano. Isso porque projeções que se baseiam no otimismo do mercado estão, naturalmente, ligadas de forma íntima às ações do novo governo federal. “Acreditamos que as reformas tributária e da previdência são as mais esperadas e as que de fato serão o alicerce para o retorno da confiança do empresário e dos investidores para a economia do país como um todo. Mais especificamente no nosso mercado, o comportamento do câmbio e das relações de comércio internacional também darão o tom”, pondera o CEO.

“Nosso setor é muito sensível ao nível de confiança dos investidores. Quanto à política econômica atual e à estabilidade política, tudo indica que o nível de investimento será ascendente, e com isso teremos grandes oportunidades”, acrescenta Marin. O gerente de Vendas da Kion argumenta que, assim como acontece com o setor automotivo, a legislação e os incentivos fiscais voltados para o segmento de equipamentos de movimentação são fatores que deveriam ser discutidos com maior profundidade, com o objetivo de impulsionar a evolução da indústria.

A importância das reformas como uma maneira de provocar perspectivas melhores de equilíbrio das contas públicas e assim reaquecer a economia brasileira com base no otimismo gerado é consenso, e Georg, da Jungheinrich, inclui uma eficiência maior na aplicação do dinheiro público e melhores políticas quanto ao comércio exterior como esperanças depositadas no novo governo. “Queremos que os nossos clientes no Brasil tenham a mesma excelência na performance e no desempenho das suas operações de intralogística em comparação, por exemplo, com as companhias na Alemanha. A elevada taxa tributária na importação faz com que as empresas locais tenham custos mais elevados para equiparar a performance de sua área de logística em relação àquelas localizadas em países mais desenvolvidos. Precisamos de uma simplificação no sistema tributário brasileiro”, afirma.

Kessler, da Combilift
Kessler, da Combilift

Kessler, da Combilift, é ainda mais eloquente quando diz o que espera do novo governo federal. “Nada. Se ele cuidar da sua própria casa, for mais eficiente, contiver desvios e deixar o empresário trabalhar, será uma mudança como nunca vimos. Os sinais são de que temos as pessoas certas nas posições certas, portanto precisamos acreditar”. De acordo com o diretor Comercial, se a administração pública simplesmente fizer sua parte, já estará fomentando um ambiente de negócios mais aberto e consistente. “Um Estado menor permite que quem investe e trabalha encontre os caminhos mais produtivos e rentáveis. Empresários sabem melhor o que acontece no piso do armazém – no ‘chão de fábrica’ – do que técnicos burocratas em seus gabinetes”, conclui.

“Esperamos que o novo governo traga, principalmente, tranquilidade para os empresários aumentarem seus investimentos no Brasil e fazerem a roda da economia girar de forma favorável para o mercado”, resume Arrais, da Clark.

Fernando Fischer