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A realidade está sempre nos ensinando. Mas não haverá aprendizado se não a observarmos atenta e corretamente

Por Paulo Roberto Guedes em 29 de agosto de 2022 às 12h30 (atualizado às 12h34)
Paulo Roberto Guedes

Mesmo com grandes possibilidades de perder o fornecimento de gás e petróleo, e correr riscos reais, caso o conflito Rússia-Ucrânia, além de se prolongar, se expanda por todo o continente, a União Europeia não só se posicionou claramente contra a Rússia, como ainda participou concretamente da adoção de medidas de ajuda à Ucrânia.

Ao fazer o que muitos não esperavam, a UE, como de resto todo o mundo, compreendeu os graves riscos que passaria a correr caso Putin obtivesse êxito em sua ‘empreitada’, pois a invasão da Ucrânia, pelas tropas de Putin, colocou em ‘xeque’ não somente muitos dos valores democráticos, mas a própria Democracia (1) e, no curto prazo, também a Globalização, pelo menos da forma como a conhecemos hoje (2). 

Com relação à globalização, vale ressaltar aquilo que já escrevi outras vezes. Mesmo considerando insumos e produtos mais essenciais, será muito difícil qualquer país ‘viver de forma totalmente independente e voltado apenas para si’, por mais que sejam exacerbados os movimentos “nacionalistas”. Até porque a própria iniciativa privada, ao decidir sobre investimentos e rentabilidade de seus negócios, continuará procurando a forma mais eficaz, inclusive no que diz respeito à escolha e a localização dos mercados consumidores ou fornecedores. A própria China, totalmente interdependente de quase todo o mundo, é atualmente a maior protagonista da globalização. E como muito já se disse a respeito, a melhor resposta aos problemas gerados pela globalização e o excesso de liberalismo econômico (economias sem regras e/ou controles), não é voltar ao passado e defender a instalação de uma ditadura (3), como muitos apregoam, e sim, buscar uma forma mais eficaz de praticar a economia de mercado e a globalização, adaptados, obviamente, às novas realidades, nas quais o combate à desigualdade, imprescindível, seja de fato levada à sério.

De uma forma geral, todo o mundo ainda se sente inseguro, pois já haviam sido extremamente negativos os efeitos oriundos das interrupções na cadeia de suprimentos durante a pandemia, pois além de desorganizarem as estruturas produtivas em todo o mundo, também elevaram os preços da energia e de outros insumos importantes de forma bastante significativa. A persistência desses e outros efeitos tardios da pandemia e o fato de não se vislumbrar o término do conflito para breve, não ajudam em nada e aumentam ainda mais a complexidade daquilo que já era complicado (4). 

Adicione-se a tudo isso, dois outros fatos importantes: as sanções econômicas aplicadas contra a Rússia já geram efeitos colaterais para todos, e os gastos militares e bélicos, em todo o mundo, mais notadamente nos países europeus e asiáticos, deverão aumentar, diminuindo, inevitavelmente, os recursos que seriam aplicados em atividades “mais pacíficas”. Maiores ‘déficits’ públicos e, como aqui já escrito, maiores possibilidades de inflação e juros altos. Observação: não há qualquer dúvida, enquanto a inflação perdurar o FED continuará aumentando as taxas de juros. Um dos impactos, que já se percebe no momento, é a valorização da moeda norte-americana (5).

Consequentemente, a desaceleração da economia mundial, para este segundo semestre e o primeiro semestre de 2023 já está contratada, e os cenários futuros são de incertezas e insegurança. Sentimentos, inclusive, que se refletem nas diversas pesquisas recentemente realizadas. 

Opiniões de entrevistados em todo o mundo, em pesquisa realizada pela Mckinsey (6), por exemplo, indicam que quase metade deles acredita nas “questões geopolíticas” e na “instabilidade” como principais riscos para as economias de seus países. Na Europa, mais especificamente, a inflação é um dos riscos mais citados, enquanto na China, ainda a pandemia da Covid, e agora as discussões relativas à Taiwan, aparecem à frente como preocupações.

Nesse cenário, e não poderia ser diferente, esperam-se quedas significativas no ritmo de crescimento da economia mundial para os próximos meses. Riscos de recessão na Europa e nos EUA não estão descartados, nem tampouco as variáveis que pressionam a alta da inflação para taxas e duração indesejáveis. 

Na pesquisa da McKinsey, aqui já citada, somente um em cada cinco dos entrevistados acredita em melhorias recentes em suas economias”. Dos entrevistados, europeus e norte-americanos demonstraram maior pessimismo. 

A desorganização da produção e das estruturas logísticas correspondentes parece eminente e pesquisas também demonstram que investidores, empresários, executivos e homens de negócios, ao analisarem a situação atual, concluem que a economia mundial está em condições piores do que a verificada no pico da pandemia. Acreditam, inclusive, que tudo pode piorar, deteriorando ainda mais as condições políticas e sociais de todo o mundo. 

Mesmo reconhecendo seus defeitos, bem como a necessidade de se estabelecer profundas discussões a respeito, a Democracia, o Estado de Direito e a Economia de Mercado (incluindo aqui o fenômeno da globalização), ainda se mostram como os melhores caminhos para a prosperidade global, desde que sejam preservados ambientes de segurança e de respeito às instituições nacionais e mundiais vigentes. Parece-me claro, portanto, que estar à favor da Ucrânia, no conflito com a Rússia, é estar à favor desses valores. Acredito que é isso, entre outras razões, que EUA, UE e os principais países democráticos estão defendendo no momento.

No Brasil, pesquisas semelhantes indicam resultados muito parecidos se comparadas com aquelas aqui já citadas (8). Mas com um fator que agrava sobremaneira a situação, posto que neste País os aprendizes de ditadores, demagogos, populistas de sempre, tanto faz se da esquerda, centro ou direita, e a parte mais ignorante do empresariado nacional, ainda aproveitam o momento conturbado e o desgoverno instalado para radicalizarem suas posições e estimularem a polarização, impedindo que a sociedade consiga compreender tudo o que vem ocorrendo e discutir o que é, de fato, necessário. Pior, pois ainda propõem soluções que ignoram o mercado e nas quais os poderes legislativo e judiciário – se permitidos a funcionarem - sejam subordinados ao poder executivo. Chegam ao absurdo de, na disputa por votos de religiosos, transformarem a campanha em “rituais”, “sermões” e até em sessões de “exorcismo”, pois segundo dizem, os “demônios” estão à solta.

Em artigo recente eu escrevi que as chances do Brasil progredir, fora da Democracia e do Estado de Direito – ainda a melhor e a mais participativa forma de se organizar nações e países -, não existem. E diminuirão ainda mais caso problemas relacionados ao desemprego, à desigualdade, à concentração de renda e à miséria, não sejam encarados de frente e por toda a sociedade. É fundamental que a Democracia e o Estado de Direito sejam para todos, pois sem políticas que busquem a inclusão de toda a população nos processos produtivo e de distribuição de renda, não haverá saída. Queiramos ou não, a discussão sobre política, sociedade e economia chegou à mesa de discussão de todos e ninguém poderá ficar de fora. 

Pois é, em todo o mundo, governantes e sociedade civil precisam refletir profundamente a respeito, inclusive e principalmente aqui no Brasil que vive época pré-eleitoral, pois assim como são inegociáveis os valores democráticos, também deveriam ser inegociáveis as políticas públicas que promovam o crescimento econômico, os investimentos em infraestrutura, emprego, saúde e educação e estimulem a pesquisa e a ciência, assim como as políticas sociais que protegem os mais carentes e desemparados. Não é uma discussão ideológica, mas a simples compreensão de que Democracia e Estado de Direito são imprescindíveis, principalmente quando alcançados em sua plenitude e valendo para todos. É o que a realidade está nos mostrando. Mas é preciso aprender.

(1) “Sobre ditadores e superávits comerciais” é o nome do artigo publicado por Paul Krugman no New York Times. O Estadão, com tradução de Guilherme Russo, republicou-o dia 24 pp. “Segundo nova pesquisa NBC News, os americanos agora consideram “ameaças à democracia” o problema mais importante que o país enfrenta, o que é tanto perturbador quanto um sinal bem-vindo de que as pessoas andam mais atentas. Também vale notar que não se trata apenas de um problema dos EUA. A democracia está se erodindo em todo o mundo – segundo a Economist Intelligence Unit, existem hoje 59 regimes totalmente autoritários por aí, abrigando 37% da população mundial”.

(2) Vale lembrar que já a partir da pandemia da Covid-19 começaram a ser criados os primeiros obstáculos à globalização, na medida em que muitos países começaram a entender não ser conveniente depender demasiadamente de produtos e serviços importados. Principalmente àquela época, com relação a produtos e insumos químicos e farmacêuticos, ou oriundos dos países mais contaminados pela doença e com dificuldades de realizarem suas exportações. Fosse pela diminuição efetiva da produção ou mesmo por terem suas estruturas logísticas totalmente desorganizadas. 

(3) “Em nível mais amplo, testemunhamos o problema peculiar das ditaduras, nas quais ninguém pode dizer ao líder que ele está errado. Putin parece ter invadido a Ucrânia porque todos estavam assustados demais para alertá-lo a respeito das limitações do poderio militar russo. E a resposta da China contra a covid passou de modelo exemplar a alerta, porque ninguém ousa dizer a Xi Jinping que as políticas com a sua assinatura não estão funcionando. Portanto, a autocracia pode estar em marcha, mas não porque funciona melhor que a democracia”. Parte do texto publicado por Paul Krugman, em artigo aqui já citado.

(4) Em documento produzido por Zoltan Pozsar e publicado no relatório do Investment Solutions & Sustainability Global (do Credit Suisse Economics), dia 24 pp., ao tratar do conflito entre Rússia e Ucrânia e os envolvimentos de EUA, UE e China, ele deixa claro que as “guerras não podem ser travadas com cadeias de suprimentos que atravessam um mundo globalizado, onde a produção acontece em ilhas distantes e pequenas no Mar do Sul da China, de onde os chips só podem ser transportados se espaços aéreos e estreitos permanecerem abertos... As cadeias de suprimentos globais trabalham apenas em tempos de paz, mas não quando o mundo está em guerra, seja uma guerra quente ou uma guerra econômica”. Pozsar é chefe global da estratégia de taxa de juros de curto prazo no Credit Suisse.

(5) “Além do ciclo de alta de juros pelo Fed, outro fator será crucial para o dólar: o diferencial de crescimento econômico entre os EUA e outros países. Com a Zona do Euro à beira da recessão e a China desacelerando, como resistir à atração do dólar?” Parte do texto escrito por Fabio Alves, colunista do Estadão, e publicado dia 24 pp. (“Novo pico do dólar?”).

(6) Autores da pesquisa: Krzysztof Kwiatkowski e Vivien Singer, do escritório da McKinsey em Waltham, Massachusetts, e Sven Smit , presidente e diretor do McKinsey Global Institute e sócio sênior no escritório de Amsterdã (Agosto de 2022). “Inflação, geopolítica e preocupações da cadeia de suprimentos são grandes”.

(7) Pesquisa publicada no Boletim Macro nº 134, da FGV-IBRE, de agosto, dá conta que os cinco principais fatores que contribuem para uma avaliação negativa dos consumidores brasileiros, pela ordem, são: falta de confiança na política econômica, inflação, mercado de trabalho, efeitos da pandemia e endividamento das famílias.

(8) Armando Castelar Pinheiro e Silvia Matos escreveram no Boletim Macro FGV-IBRE de agosto: “Em que pese a atividade ter surpreendido para melhor na primeira metade do ano, não há como não recear que os próximos semestres venham a ser um período muito desafiador para o consumo das famílias e a economia em geral”. “Estímulos fiscais e reduções temporárias de preços de energia e de outros preços administrados devem ajudar neste segundo semestre, mas perderão força, ou inverterão o sinal, em 2023. Os efeitos contracionistas da política monetária se tornarão cada vez mais fortes, mesmo que o BCB comece a reduzir a Selic ainda em 2023, como aposta o mercado”. 

A realidade está sempre nos ensinando. Mas não haverá aprendizado se não a observarmos atenta e corretamente
Paulo Roberto Roberto Guedes, sócio-diretor da Ripran Consultoria e conselheiro da Abol
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