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O erro de tratar logística somente como custo

Por Andrey Leite em 6 de maio de 2026 às 7h00
Andrey Leite
Andrey Leite, diretor de supply chain na Ekantika Consultoria

Durante muito tempo, o Supply Chain foi tratado como um grande centro de custos. Algo necessário para a empresa funcionar, mas raramente enxergado como parte da estratégia de crescimento. Em muitas organizações, as discussões sobre logística, estoque ou nível de serviço ainda aparecem somente quando o orçamento estoura ou quando um problema operacional chega ao cliente.

Essa visão é limitada e, em muitos casos, perigosa.

Quando observamos empresas que realmente conseguem sustentar margens superiores em mercados altamente competitivos, um padrão aparece: a operação não é apenas eficiente, ela é estrategicamente desenhada. Supply Chain deixa de ser um suporte e passa a ser uma das engrenagens da geração de valor.

No fim do dia, toda estratégia comercial precisa ser executada por uma operação. Prometer prazo, variedade, disponibilidade ou capilaridade significa assumir compromissos operacionais. E é justamente nesse ponto que muitas empresas começam a perder margem sem perceber.

Existe uma tendência natural de tratar logística e operações como algo que precisa ser constantemente otimizado, comprimido ou reduzido em custo. O raciocínio parece lógico: quanto menor o custo operacional, maior a margem. Mas essa lógica ignora um fator essência: o nível de serviço também gera receita.

Uma operação bem estruturada influencia diretamente a experiência do cliente. Prazos confiáveis, disponibilidade consistente de produtos e capacidade de resposta rápida criam algo que muitas vezes não aparece explicitamente na DRE (Demonstração de Resultado do Exercício), mas impacta diretamente o faturamento: a confiança comercial.

Empresas que conseguem entregar com previsibilidade vendem mais. Não necessariamente porque têm o menor preço, mas porque o cliente sabe que o produto estará disponível quando precisar. Esse é um tipo de vantagem competitiva difícil de copiar, porque ela depende de processos, tecnologia, governança e pessoas funcionando de forma integrada.

É curioso perceber que, quando uma empresa começa a enfrentar rupturas frequentes ou prazos inconsistentes, a primeira reação costuma ser comercial: aumentar estoques, ampliar mix ou acelerar transporte. Mas, na maioria das vezes, o problema não está na falta de esforço operacional, está no desenho da operação.

Supply Chain eficiente não nasce apenas da execução diária. Nasce de decisões estruturais: onde posicionar estoques, quantos centros de distribuição operar, qual nível de serviço faz sentido economicamente e como equilibrar disponibilidade com capital investido.

Estoques, por exemplo, são frequentemente tratados apenas como um número financeiro. Algo que precisa ser reduzido para liberar caixa. Mas estoque também é um instrumento estratégico. Ele determina a capacidade da empresa de responder à demanda, reduzir prazos e sustentar o crescimento.

O desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio. Estoque demais destrói capital. Estoque de menos destrói receita. O papel da gestão de Supply Chain é justamente entender essa curva e posicionar a operação no ponto em que serviço e eficiência convivem de forma sustentável.

Outra questão que raramente aparece nas discussões estratégicas é o impacto operacional no EBITDA. Muitas vezes ele está escondido em pequenas ineficiências que, isoladamente, parecem irrelevantes, como rotas mal desenhadas, estoques mal posicionados, transferências desnecessárias, avarias recorrentes ou baixa produtividade operacional.

Quando somadas, essas ineficiências podem representar milhões de reais por ano. Não porque exista um grande erro estrutural, mas porque a operação foi crescendo sem que o desenho logístico fosse revisado com a mesma frequência com que o negócio evoluiu.

Esse é um fenômeno comum. A empresa cresce, abre novos mercados, amplia portfólio, aumenta volume, mas continua operando com uma malha logística desenhada para uma realidade que já não existe mais.

Uma gestão estratégica de Supply Chain exige revisitar essas decisões periodicamente. Não apenas para reduzir custos, mas para garantir que a estrutura operacional continue suportando o modelo de negócio.

Existe também um componente humano que muitas vezes é subestimado: operações eficientes não dependem apenas de tecnologia ou processos bem definidos. Dependem de pessoas que entendem o impacto do que fazem no resultado da empresa.

Quando equipes operacionais enxergam apenas tarefas, a execução tende a ser mecânica. Quando entendem o propósito da operação atender o cliente, garantir disponibilidade e sustentar crescimento, o comportamento muda. A tomada de decisão fica mais madura, os problemas são antecipados e a operação ganha resiliência.

No fim das contas, Supply Chain como vantagem competitiva não nasce de uma única iniciativa. Surge quando a empresa passa a tratar sua operação com o mesmo nível de atenção dedicado à estratégia comercial ou financeira.

Porque toda promessa feita ao mercado, em algum momento, passa por um armazém, uma rota de transporte ou um planejamento de estoque. E é exatamente aí que muitas empresas ganham ou perdem dinheiro sem perceber.

 

* Andrey Leite é diretor da Ekantika Consultoria

 

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