
* Artigo por Mariana Avelar, Rafael Fernandes, Caroline Batista, Derick Mendonça, Eduarda Vilela e Nathália Bertochi
Ano novo, vida nova: não é diferente para o setor logístico, que inicia o ano de 2026 com muitas promessas, boas perspectivas e desafios a serem enfrentados.
O fechamento de 2025 foi marcado pelo alcance de um novo recorde em investimentos em infraestruturas, com R$ 280 bilhões em obras públicas e privadas, conforme projeções da segundo projeção da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base (ABDIB).
A continuidade desses investimentos pode ser incentivada diante da iminente aprovação de novos marcos legais e regulatórios transversais, como é o caso do novo marco legal das concessões e PPPs (Projeto de Lei 2.373/2025), e ainda, da perspectiva de maior dinamicidade nas vias de financiamento dos projetos, com destaque para possibilidade de o BNDES vender parte de seu estoque de debêntures incentivadas no mercado secundário, ao mesmo tempo que poderá usar o capital obtido (pela "reciclagem" dos papéis), em novos investimentos.
De outro lado, mudanças geopolíticas e o acirramento de conflitos internacionais geram cenário preocupante e de grandes incertezas para o setor logístico. Iniciativas que fomentem o multilateralismo, como o caso do Acordo entre União Europeia e Mercosul, assinado em janeiro desse ano. Pessimistas acreditam que o envio do texto pelo Parlamento Europeu para avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) poderá barrar o fluxo de ratificação interna no texto. O TJUE, que não é exatamente uma referência em termos de celeridade processual, deverá analisar se o acordo comercial corresponde aos princípios dos tratados fundacionais do bloco. Otimistas seguem firmes na convicção de que o acordo gerará ganhos de competitividade para o Brasil, contribuindo para o equilíbrio na balança comercial, na diversificação de parceiros e na geração de emprego e renda. Nesse caso, o aumento de fluxos comerciais deverá ser acompanhado pelos respectivos investimentos em infraestrutura logística que façam esse crescimento acontecer.
Ainda, a busca de soluções consensuais perante a SecexConsenso é uma solução que se consolidou em diversos segmentos da infraestrutura logística, como demonstra análise quantitativa feita por Amanda Athayde e Maria Augusta Viegas:

(Fonte: Athayde e Viegas, 2026)
Passado o carnaval e oficialmente iniciado o ano novo, destacamos aqui algumas das principais agendas e novidades regulatórias em curso para o setor logístico, com foco no governo federal, para que você siga bem informado em 2026.
Como indica o painel de acompanhamento da Agenda Regulatória da ANTT para o biênio 2025/2026 , quatro temas transversais estão atualmente em trâmite na agência, tendo sido a previsão de regulamentação da agenda ESF para concessões de rodovia e ferrovia excluída da referida agenda:

(Fonte: ANTT Agência Regulatória 2025/2026 )
Dos 25 projetos contidos no portfólio original, apenas 3 foram concluídos e 3 foram cancelados, o que gera preocupação com o ritmo de cumprimento da agenda regulatória prevista.
A política pública de rodovias estrutura um dos principais eixos de investimento em infraestrutura no país, envolvendo ativos de alta intensidade de capital, contratos de longa duração e exposição relevante a riscos regulatórios, financeiros e de demanda. Por isso mesmo, sua formulação exige escolhas institucionais capazes de sustentar ciclos prolongados de investimento, operação e manutenção, que têm impactos diretos sobre a atratividade econômica desses projetos.
A eficácia dessa política, portanto, depende da consistência entre planejamento, regulação e desenho contratual. Projetos mal calibrados, com definições inadequadas de escopo, cronogramas de investimento ou critérios de desempenho tendem a gerar assimetrias relevantes, pressões recorrentes por reequilíbrio e aumento do contencioso, com reflexos sobre a sustentabilidade dos contratos e a credibilidade do programa setorial num geral.
Esse pano de fundo condiciona as escolhas regulatórias e contratuais que passam a ganhar relevo no horizonte de 2026, especialmente diante do volume de projetos em estruturação e da crescente complexidade dos modelos adotados.
Neste trilhar, segundo o Ministério de Transportes, o pipeline de projetos de concessões de rodovias de 2026 já prevê projetos para o primeiro trimestre, como é o caso do leilão da BR- 116/251/MG - Rotas Gerais, previsto para março. Outros doze projetos estão previstos para o presente ano:

(Fonte: Ministério dos Transportes)
O Brasil alcança a marca de 30.000 km em ferrovias concedidas, em um mercado ainda concentrado, mas que passou por intensas transformações no perfil dos seus investidores, como demonstra pesquisa realizada por George Santoro:

(Fonte: Santoro, 2026)
Na Agenda Regulatória da ANTT, objeto da Deliberação nº 457/2024, observa-se que estão previstas diversas medidas destinadas ao aprimoramento da malha rodoviária federal concedida. Dividida em eixos temáticos, parte da Agenda está atualmente concentrada sobretudo em temas relacionados
à Infraestrutura Rodoviária Federal Concedida: compreende temas como (i) revisão dos pagamentos de pedágios e free flow nas rodovias federais (análise jurídica prevista para o segundo bimestre de 2026) ; (ii) reversibilidade de bens em concessões (elaboração de proposta regulatória prevista para o quinto bimestre de 2026); e (iii) padronização de escopo e parâmetros técnicos de desempenho do Programa de Exploração Rodoviária concessões (elaboração de proposta regulatória prevista para o segundo bimestre de 2026).
Há também medidas voltadas ao transporte Rodoviário e Multimodal de Cargas, a englobar a revisão de política de piso mínimo de frete, integração de diretrizes ESG ao transporte rodoviário de cargas e seguros no transporte rodoviário remunerado de cargas:

(Fonte: ANTT Agência Regulatória 2025/2026 )
Um ponto relevante para concretização de avanços previstos nas agendas anteriores envolve o regramento do processo de eventual adesão dos contratos já existentes às cinco resoluções que positivam os diferentes Regulamentos das Concessões Rodoviárias (RCRs), ainda em curso.
Em relação aos movimentos de solução consensual e repactuação, destaca-se o histórico de pelo menos 9 projetos de concessão rodoviária submetidos a tentativa de solução consensual perante a Secretaria de Controle Externo de Solução Consensual e Prevenção de Conflitos (SecexConsenso), no TCU.
Dos processos de Solicitações de Solução Consensual (SSCs) no setor de rodovias, 7 chegaram a acordos homologados pelo TCU, a exemplo da Concessão da Rodovia Fernão Dias, na qual a Comissão de Solução de Conflitos recomendou a adoção de Procedimento Competitivo Simplificado para a relicitação do trecho. Aguarda-se, além disso, a homologação do acordo proposto para o contrato firmado com a Concessionária das Rodovias Centrais do Brasil (Concebra) e o avanço na construção do acordo com a Autopista Litoral Sul (BR-116/346/PR e BR-101/SC), atualmente em avaliação pela Comissão de Solução Consensual.
De modo geral, as SSCs têm como foco a otimização e modernização dos contratos de concessão, de projetos que convivem com passivos e dificuldades em sua execução, como é o caso da concessão operada pela ViaBahia, que enfrentou dificuldades para cumprir as metas de obras e serviços previstos desde o início do contrato. Neste caso, o acordo homologado considerou que o encerramento consensual do contrato era a melhor opção para proteger o interesse público.
Diante desse contexto, o cenário descrito sinaliza que 2026 tende a ser um ano de consolidação e ajuste da política pública de rodovias, combinando a expansão do pipeline de concessões com uma agenda regulatória mais densa. A ênfase em temas como free flow, padronização do PER, reversibilidade de bens e solução consensual de conflitos revela um foco crescente na estabilidade e na execução dos contratos, com reflexos diretos sobre a gestão dos contratos em curso e a estruturação de novos projetos.
O setor ferroviário entra em 2026 com a expectativas em relação ao Plano Nacional de Ferrovias (PNF), prometido desde o início do atual governo como o instrumento de política pública destinado a organizar os investimentos e definir prioridades para a expansão da malha ferroviária brasileira. O plano, instituído Portaria nº 870, de 26 de novembro de 2025 prevê diretrizes para a regulação e modelagem dos contratos de exploração de infraestrutura ferroviária, em especial, quais os segmentos da malha serão contemplados com soluções de parceria, a política tarifária e de compartilhamento, e, dentre outros aspectos. a priorização de investimentos voltados à integração da infraestrutura ferroviária com outros modais de transporte, especialmente com terminais portuários existentes ou planejados, com o objetivo de promover a eficiência logística e a intermodalidade.
Na esteira do PNG, o Ministério dos Transportes divulgou a carteira robusta de leilões ferroviários em 2026, que somam R$ 140 bilhões em investimentos diretos e contam com um sistema híbrido de funding, combinando recursos públicos e privados que podem totalizar até R$ 600 bilhões injetados no sistema ferroviário ao longo da vida dos contratos.

(Fonte: Ministério dos Transportes)
Entre os projetos previstos, a Ferrogrão continua sendo o mais emblemático e controverso. A ferrovia, que ligará Sinop (MT) a Miritituba (PA), foi concebida como um corredor estratégico para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste até os portos do Arco Norte, diminuindo custos logísticos e a pressão sobre as rodovias.
O empreendimento, porém, está travado no Supremo Tribunal Federal desde 2021, em razão da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 6.553, proposta pelo PSOL contra a lei que viabilizou alterações nos limites do Parque Nacional do Jamanxim para permitir a passagem da ferrovia e da BR-163. O partido argumenta que a mudança não poderia ter sido feita por medida provisória e que representaria um retrocesso ambiental.
Apesar do impasse judicial, o governo manteve o projeto como prioritário. Os estudos técnicos já foram aprovados pela ANTT e encaminhados ao Tribunal de Contas da União. A expectativa oficial é que, caso o STF decida pela constitucionalidade da legislação referenciada, o leilão possa ocorrer ainda em 2026.
Paralelamente aos projetos de infraestrutura, 2026 deve marcar uma virada importante no campo regulatório. Em 2025, a ANTT iniciou uma ampla revisão das normas que regem o setor ferroviário, com o objetivo de adaptá-las ao novo marco legal das ferrovias, aprovado em 2021.
A agência prepara um pacote com oito novos regulamentos, divididos em dois grandes blocos: um voltado às condições gerais de transporte ferroviário e outro dedicado a serviços e segurança operacional.
A primeira peça desse conjunto é o regulamento das chamadas Regras Gerais de Outorga Ferroviária (ROF1), que pretende unificar critérios, reduzir sobreposições normativas e dar mais previsibilidade aos processos de concessão e autorização. Em dezembro de 2025, a ANTT aprovou a abertura da consulta pública relativa à norma, e a expectativa é que o debate avance nos primeiros meses de 2026, inaugurando uma nova fase de padronização regulatória no setor.
Também está no radar da ANTT o aprofundamento da regulamentação da Lei nº 14.273/2021, especialmente em pontos sensíveis como o funcionamento do regime de autorizações ferroviárias, o compartilhamento de trilhos entre operadores, o direito de passagem e as regras de interoperabilidade entre diferentes malhas. Outra novidade aguardada é a regulamentação de figuras criadas pelo novo marco legal, como o Agente Transportador Ferroviário de Passageiros (ATF-P), que poderá viabilizar modelos mais flexíveis para a retomada do transporte ferroviário de passageiros, hoje praticamente restrito a iniciativas turísticas e regionais isoladas.
Merece destaque a recente aprovação da primeira norma de autorregulação técnica do setor, elaborada pela Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários, estabelecendo requisitos mínimos para que uma locomotiva entre na malha de terceiros. A atuação da ANTF como autorreguladora pode auxiliar na redução de custos de transação nas negociações entre concessionárias, mormente para celebração de Contratos Operacionais Específicos (COEs).
Além da agenda regulatória, cresce a atenção em torno da atuação do Tribunal de Contas da União, especialmente por meio da Secretaria de Solução Consensual e Prevenção de Conflitos (SecexConsenso), que vem sendo acionada para tentar destravar impasses históricos em grandes concessões ferroviárias, já tendo homologado acordos para a Malha Paulista, Malha Sul e Malha Sudeste. Atualmente, ainda está pendente de solução a controvérsia em torno da Ferrovia Transnordestina Logística (FTL), responsável pela operação de grande parte da chamada Malha Nordeste.
Neste caso, ao longo da execução contratual, a Agência Nacional de Transportes Terrestres identificou o descumprimento de diversas obrigações pela concessionária. A empresa, por sua vez, atribui a situação a uma combinação de fatores: danos causados por eventos climáticos extremos, como enchentes que inutilizaram trechos inteiros da ferrovia; degradação estrutural significativa da malha, que, segundo a concessionária, já teria sido recebida em condições precárias no início da concessão; e perda de viabilidade econômica de determinados segmentos, que passaram a operar com prejuízo constante.
Diante do impasse, um grupo de trabalho formado pelo Ministério dos Transportes e pela ANTT no âmbito da Secex-consenso passou a analisar alternativas para o futuro da concessão. Entre as possibilidades em estudo está uma reestruturação contratual, que poderia incluir a devolução de trechos considerados inviáveis, mediante indenização à União, a prorrogação do prazo da concessão e a pactuação de um novo plano de investimentos.
Além da discussão em torno da transnordestina, o TCU recentemente passou a exigir mudanças profundas na forma como o governo federal vem conduzindo as negociações para renovação das concessões ferroviárias. Para a corte, os processos atuais apresentam falhas relevantes de planejamento, governança e transparência, que colocam em dúvida a capacidade das prorrogações de, de fato, promover a recuperação da malha e a retomada de trechos abandonados.
Em setembro de 2025, por meio do Acórdão nº. 2216/2025-Plenário, o TCU determinou que, no prazo de até 90 dias, o Ministério dos Transportes, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Infra S.A. elaborassem planos de ação individualizados para cada ferrovia cujo contrato esteja próximo do encerramento. Os documentos deverão detalhar as etapas da transição contratual, os prazos para sua execução, os responsáveis por cada medida, as estratégias para garantir a continuidade do serviço público e as ações necessárias para preservar o patrimônio ferroviário.
A exigência alcança cinco concessões consideradas críticas: Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), Rumo Malha Sul (RMS), Rumo Malha Oeste (RMO), Ferrovia Transnordestina Logística (FTL) e Ferrovia Tereza Cristina (FTC). Juntas, elas concentram parte significativa da malha concedida no país e reúnem alguns dos casos mais sensíveis da infraestrutura ferroviária. Em relação a FCA, a expectativa é que o seu processo de renovação antecipada seja concluído até o final do primeiro semestre, com investimentos de mais de 700 milhões de reais em novas locomotivas já sendo realizados.
O desfecho dessas discussões tende a ser determinante para o futuro imediato do setor. Em jogo está não apenas a renovação de contratos, mas o próprio modelo de reorganização da malha ferroviária brasileira: entre apostar novamente nas concessionárias atuais, com novos compromissos de investimento, ou redesenhar o mapa ferroviário por meio da abertura a novos operadores.
Em termos de planejamento, o fechamento de 2026 trouxe avanços para os setores de aeroportos, portos, aeroportos.
O Ministério dos Portos e Aeroportos
No caso dos portos e aeroportos, houve em 17/10/2025 uma segunda revisão da Agenda Regulatória da Agência Nacional de Transportes Aquaviários Acórdão nº 677-2025-Antaq.
Após anos de incertezas provocadas pela pandemia, as políticas públicas para o setor aeroportuário entraram, em 2025, em uma fase de reorganização e retomada de agenda. Temas como a expansão da aviação regional e a repactuação dos atuais contratos de concessão passaram a ocupar o centro do debate, criando o pano de fundo institucional para a retomada dos investimentos no setor.
O ano de 2025 marcou um momento de reorganização institucional no setor aeroportuário brasileiro. Após um período prolongado de incertezas decorrentes da pandemia da Covid-19, de disputas sobre reequilíbrios econômico-financeiros e de impasses em concessões relevantes, observou-se uma atuação mais coordenada entre o Ministério de Portos e Aeroportos, a ANAC e os órgãos de controle, especialmente o TCU, voltada à retomada de agendas estruturantes.
Entre os principais marcos do ano, destaca-se a instituição do programa AmpliAR, que introduziu um novo arranjo para a gestão de aeroportos regionais deficitários, ao vinculá-los a concessões já existentes. O leilão realizado na B3 representou uma inflexão na política setorial, com menor ênfase na ampliação da conectividade regional.
A continuidade e eventual expansão do programa AmpliAR devem ocupar espaço central na agenda de 2026, seja por meio de novas incorporações de aeroportos regionais a contratos existentes, seja pelo acompanhamento dos desdobramentos e da efetividade dos investimentos realizados nos aeroportos já integrados ao programa em 2025.
Recentemente foi divulgada Plano de Investimentos em Ampliação e Modernização de Aeroportos, que segundo dados divulgados pelo Valor Econômico, poderá contemplar até R$ 4,64 bilhões em financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a serem concedidos inicialmente Congonhas (SP), Campo Grande (MS), Ponta Porã (MS) e Corumbá (MS), Santarém (PA), Marabá (PA), Carajás (PA) e Altamira (PA), além de Uberlândia (MG), Uberaba (MG) e Montes Claros (MG). A expectativa é que os recursos permitam a elevação da capacidade operacional dos ativos, com expectativa de que passem a movimentar 40 milhões de passageiros anuais (contra os 29 milhões atualmente transportados).
No plano regulatório, 2025 também foi decisivo com a aprovação, pela ANAC, do modelo definitivo de reequilíbrio das concessões aeroportuárias relacionado à pandemia da Covid-19. A definição desse modelo trouxe maior previsibilidade ao setor.
Em paralelo, a Agenda Regulatória da ANAC (2025–2026) avançou de forma consistente, com índice de execução próximo a 70% segundo painel da ANAC, com destaque para a aprovação do RBAC nº 109, voltado à segurança da carga aérea internacional, e para o andamento das revisões dos RBACs 107, 108, 153 e 154, alinhando a regulação brasileira às diretrizes internacionais e a uma abordagem baseada em risco. Para 2026 estão previstas para o presente ano discussões relevantes, como a modernização de medidas de segurança e controles de acesso de pessoas e objetos e o regulamento do monitoramento e reporte de emissões de CO2 das operações domésticas pelo uso de SAF, conforme termos da Lei Combustíveis do Futuro e a respectiva fiscalização do seu cumprimento.
Na carteira de projetos concedidos, o caso do Aeroporto Internacional de Viracopos permanece como o principal desafio. As recentes discussões no Congresso Nacional e a nova tentativa de repactuação do contrato, conduzida pela ANAC com acompanhamento do TCU e da AGU, evidenciam a busca por uma solução consensual capaz de preservar a continuidade dos serviços, a segurança jurídica e a atratividade do ativo.
Outro assunto de suma relevância abarca o leilão de venda assistida do aeroporto de Galeão, previsto para março e cujo contrato passou por amplo processo de modernização regulatória após acordo celebrado no âmbito da Secex-Consenso. O acordo em questão encerra longo debate sobre o reequilíbrio econômico-financeiro da concessão, além de ter incorporado cláusulas alinhadas aos contratos mais recentes do setor e previsto o fim da participação acionária da Infraero, medidas que em seu conjunto prometem viabilizar a retomada dos investimentos previstos para o aeroporto.
O desfecho do referido leilão colocará à prova o modelo de disputa de mercado sobre contratos repactuados e servirá como termômetro para a confiança dos investidores nos novos arranjos contratuais.
A tendência do setor portuário em 2026 é a continuidade do que se observou em 2025: crescimento e expansão, com impactos diretos na necessidade de modernização e ampliação da capacidade portuária do país.
Segundo dados da ANTAQ, a movimentação de cargas nos portos brasileiros cresceu 4,97% entre janeiro e novembro de 2025, alcançando média de 1,34 bilhão de toneladas no ano. Foi o terceiro ano consecutivo de recorde, e a expectativa para 2026 é a sua continuidade.
Diante disso, ganha destaque o programa de concessões e arrendamentos portuários, cuja pipeline prevê 22 projetos, incluindo 18 novos arrendamentos de terminais em portos públicos e 4 concessões de canais de acesso:

(Fonte: Ministério dos Portos e Aeroportos)
Entre os principais projetos está o Tecon Santos 10, novo terminal de contêineres do Porto de Santos, adiado maio de 2026. Um dos pontos mais controversos foi a modelagem do leilão em duas etapas, que sugeriu restringir a participação de operadores já atuantes no porto. O tema dividiu o TCU: o Ministro Relator, Antonio Anastasia, defendeu leilão em fase única e sem restrições, enquanto o Ministro Revisor, Bruno Dantas, apoiou a divisão em duas fases, com vedação também a empresas ligadas a armadores. Prevaleceu no Plenário a posição do Ministro Revisor.
O MPOR já indicou que promoverá os ajustes determinados pelo TCU no edital, de modo que a versão a ser publicada trará o leilão dividido em duas fases e valor de outorga mínima de R$ 500 milhões. Além disso, será incluída a exigência de construção de um pátio ferroviário interno, com capacidade mínima de escoamento de 900 TEU por dia, obra que visa promover a conectividade logística e a integração multimodal futura do Porto de Santos. Ainda não é claro, contudo, se a minuta impedirá, de forma ampla, a participação dos armadores.
Ainda, foi recentemente aprovada a abertura e audiência e consulta públicas para o projeto de concessão do canal de acesso ao Porto de Santos, vista como alternativa para superar as limitações de profundidade do referido canal para que esta alcance entre 16 e 18 metros a partir de investimentos robustos em dragagem.
A respeito da criação de uma Docas para o Porto de Itajaí/SC, anunciada em maio de 2025 pelo MPOR, a expectativa é que a estatal seja criada apenas no segundo semestre de 2026. A ideia é que a futura Docas atenda cinco portos: Itajaí, Navegantes, São Francisco do Sul, Itapoá e Imbituba.
A principal motivação para a criação de uma Docas própria foram as dificuldades na gestão do Porto de Itajaí, que, sob coordenação municipal, chegou a paralisar suas operações entre 2022 e 2023, após a saída de seu principal operador, a APM Terminals.
No campo regulatório, em 2024 a ANTAQ aprovou sua agenda regulatória para o triênio 2025-2028, que reúne 16 temas: quatro relativos à navegação interior, seis à navegação marítima e seis às instalações portuárias. Com base no último boletim mensal da Agência (jan/2026), a expectativa é que os seguintes temas sejam tratados ao longo de 2026:

(Fonte: ANTAQ)
Alguns temas de verões passados seguem em discussão, como a revisão da Resolução Antaq nº 62/2021, no que tange a cobrança de sobre estadia de contêiner.
Outro ponto relevante para 2026 é a revisão do Índice de Desempenho Ambiental (IDA), com o objetivo de adequá-lo à parâmetros de ESG. O tema se conecta ao legado da COP30, que lançou o instrumento inovador IDA-Navegação (Índice de Desempenho Ambiental da Navegação) e anunciou a criação do Programa Nacional de Descarbonização de Portos (PND-Portos) e do Programa Nacional de Descarbonização da Navegação (PND-Navegação), instituídos pela Portaria nº 58/2025. Os programas serão estruturados ao longo de 2026 em cooperação entre atores públicos e privados.
Por fim, ao longo de 2026 o setor portuário seguirá acompanhando a tramitação legislativa da atualização da Lei de Portos (Lei Federal nº 12.815/2013), proposta pelo Projeto de Lei nº 733/2025, em análise na Câmara dos Deputados. Entre outros pontos, o PL prevê a ampliação das competências da ANTAQ para outorgas de concessões, prorrogações contratuais de até 70 anos, o fim da exclusividade do OGMO na gestão de mão de obra, a definição de portos estratégicos pela União, o licenciamento ambiental integrado e a criação de uma Janela Única Aquaviária digital para agilizar processos.
O Ministério dos Portos e Aeroportos destacou que os investimentos na infraestrutura hidroviária superam R$ 529 milhões em 2025. As melhorias das condições de navegação e o fortalecimento do transporte aquaviário aconteceram, sobretudo, pela realização de dragagens de manutenção, modernização de eclusas, ampliação das Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4s), além da elaboração de estudos para concessões hidroviárias.
No caso das IP4s, mais de 290 milhões foram investidos, melhorando a segurança do embarque e desembarque em instalações portuárias na região norte:

(Fonte: Ministério dos Portos e Aeroportos)
A ANTAQ indicou que, apesar da forte oposição política , prosseguirá com a atualização dos estudos para concessão da hidrovia do Rio Madeira a partir desse ano, com foco em incluir melhores condições para o transporte de granéis líquidos combustíveis. Políticas como essa precisam, antes de mais nada, de amplo diálogo sócio-ambiental: a melhoria logística deve, necessariamente, estar atento
às peculiaridades locais e às populações afetadas, sob pena de não promover um desenvolvimento realmente sustentável
Isso tudo dito, agradecemos aos fiéis leitores que nos acompanham!
Por aqui seguiremos mais um ano juntos, com o compromisso de propagar informação de qualidade para o universo da infraestrutura logística. Feliz 2026.