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O novo paradigma no design de centros de distribuição: capacidade, layout e automação sob uma nova ótica.

Por Wesley Cunha em 20 de janeiro de 2026 às 10h13
Wesley Cunha
Wesley Cunha, gerente de projetos da Belge

O ambiente logístico atual vive um momento de transformação profunda. A competitividade crescente do mercado, a volatilidade da demanda e a pressão por prazos cada vez mais curtos vêm redefinindo o papel dos centros de distribuição (CDs). Mais do que pontos de armazenagem, os centros de distribuição se consolidam como estruturas estratégicas responsáveis por integrar planejamento, tecnologia e eficiência operacional.

Esse novo paradigma surge da necessidade de alinhar três dimensões que por muito tempo foram tratadas de forma isolada: capacidade, layout e automação. A integração desses pilares é o que permite converter gargalos históricos em oportunidades de crescimento sustentável. No entanto, esse desenho renovado não se limita às quatro paredes do CD: ele abraça também desafios sistêmicos da operação brasileira, como a escassez de mão de obra qualificada, a sobrecarga operacional, e a necessidade de flexibilidade operacional.

Quando se analisa a capacidade, percebe-se que ela vai além da metragem disponível ou da ampliação física de armazéns. Envolve o planejamento dinâmico da operação, capaz de responder a sazonalidades e picos de demanda sem comprometer o nível de serviço. A flexibilidade operacional torna-se, portanto, o eixo central do dimensionamento inteligente, aquele que antecipa variações e adapta recursos conforme a necessidade real do negócio. Para isso, é fundamental projetar cenários de crescimento, modular espaços, prever redundâncias e adotar medidas inteligentes.

O layout, por sua vez, tradicionalmente associado à disposição física de áreas e equipamentos, assume uma conotação estratégica. Um design bem estruturado reduz deslocamentos, otimiza fluxos e garante que o ciclo operacional - do recebimento à expedição - ocorra de maneira integrada e fluida. Cada metro quadrado passa a ser projetado com base em dados e processos. A literatura acadêmica confirma que o design estruturado e planejado de um armazém com mapeamento de processos, estudo de sistemas de armazenagem, análise de políticas de estoque e definição de equipamentos exerce impacto significativo sobre desempenho e custos da operação.

A automação representa o terceiro vetor dessa transformação. Longe de ser uma tendência pontual ou um luxo para poucas empresas, ela se consolida como ferramenta essencial para atender as novas demandas de mercado, aumentar a produtividade, reduzir o nível de erros e diminuir a dependência de mão de obra em um cenário marcado por escassez de profissionais qualificados. Segundo estudo de mercado, o mercado global de automação de armazéns deve alcançar US$ 90,7 bilhões até 2034, impulsionado por adoção de sistemas inteligentes, robótica e sensores.

Mas para além desses três pilares, é imprescindível considerar dois desafios sistêmicos, especialmente relevantes no contexto brasileiro: o apagão de mão de obra e a sobrecarga operacional.

 

Apagão de mão de obra e seus efeitos nas operações

Empresas de logística e centros de distribuição no Brasil enfrentam um cenário crescente de escassez de mão de obra qualificada. Outro levantamento da ManpowerGroup indica que 81% dos empregadores enfrentavam dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados em 2022. Essa escassez não se restringe apenas à base operacional, mas também atinge cargos que exigem domínio de automação, manutenção e tecnologia, justamente as áreas que sustentam os CDs do futuro.

A falta de profissionais resulta em maior rotatividade, maior custo operacional, menor produtividade e, muitas vezes, em operações que funcionam no limite. Um centro de distribuição que não consegue manter níveis adequados de recursos humanos, o layout bem projetado e os processos enxutos e bem definidos perdem parte de sua eficácia porque dependem da execução com consistência e qualidade.

 

Sobrecarga operacional

Paralelamente, a sobrecarga operacional é um outro fenômeno que compromete a eficiência dos centros de distribuição. Quando operações se expandem sem proporcional crescimento de recursos ou sem otimização de processos, surge um ciclo de pressão contínua sobre as equipes, com jornadas longas, retrabalho, deslocamentos desnecessários e erros. No Brasil, a queda de produtividade na indústria, apresentou recuo de 0,8% em 2024 frente a 2023 segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), observa-se reflexo também nas operações logísticas. Em um ambiente onde a mão de obra está escassa, cada erro ou desvio de processo representa um custo elevado e pode degradar níveis de serviço.

Esse cenário exige que o design e a operação do centro de distribuição façam mais do que “ficar em pé”: precisam proteger a equipe, reduzir movimentos inúteis, minimizar dependência de mão de obra em tarefas repetitivas e liberar recursos humanos para funções de maior valor agregado. Layouts mal definidos, fluxos tortuosos, processos manuais e ausência de gestão de performance criam justamente as condições para a sobrecarga.

 

Como projetar a solução?

Para responder a esse conjunto de desafios — capacidade, layout, automação de processos — as empresas devem seguir um caminho estruturado que combine diagnóstico rigoroso, simulação, testes de cenários, automação de processos e uma mudança de mentalidade no design e operação do CD.

Primeiramente, a avaliação de processos permite identificar gargalos, desvios, desperdícios e retrabalhos. Ferramentas como o Lean Six Sigma aplicados ao armazém ajudam a mapear o ciclo completo da operação e estabelecer indicadores de desempenho e eliminar desperdícios, tornando os processos mais rápidos, simples e eficientes. Estudos recentes demonstram que a aplicação dessa ferramenta no processo de armazém permite ganhos concretos de produtividade e confiabilidade. Em paralelo, a simulação de operações, seja via gêmeo digital ou modelo de evento discreto, fornece previsibilidade e permite testar cenários antes da implementação de um novo processo ou de uma nova tecnologia de automação. Pesquisas apontam que frameworks de simulação e análise multicritério ajudam a detectar gargalos e auxilia na tomada de decisão.

Após essa fase de diagnóstico e simulação, a automação e a tecnologia entram como alavancas principais. A migração de processos manuais para sistemas automatizados promove o aumento de produtividade e permite ter uma operação com maior confiabilidade. Em países como o Brasil, em que a mão de obra sofre com falta de qualificação e a pressão por nível de serviço cresce, a automação passa a deixar de ser apenas opcional para se tornar fundamental. Além disso, a automação e a integração de dados em tempo real, permitem ajustes dinâmicos — transformando o CD em órgão vivo da cadeia.

 

Questões a avaliar no design de armazém

Quando se aborda o projeto de um novo centro de distribuição ou remodelagem de um centro de distribuição existente, é preciso levantar um conjunto de questões fundamentais para garantir que o design atenda aos desafios presentes e futuros. Entre essas questões, destacam-se:

  • Qual deve ser o nível de flexibilidade para acomodar sazonalidade, picos e mudanças de mix de produtos?
  • Como o layout de fluxo operacional (recebimento → armazenagem → separação → expedição) está configurado para minimizar deslocamentos, cruzamentos e retrabalhos?
  • Como será tratado o grau de automação e a integração com sistemas de gestão e geração de dados (WMS, WCS, IoT, gêmeo digital)?
  • Quais são os indicadores chave de performance (KPIs) definidos para a operação (distância média percorrida, tempo de recebimento, armazenagem, acuracidade de estoque, tempo de ciclo de separação, taxa de erro, custo por item processado)?
  • De que forma o projeto considera a mão de obra disponível: qual o nível de qualificação atual, qual a curva de aprendizado, qual o risco de indisponibilidade de recursos humanos?
  • Qual o plano de crescimento (vertical ou horizontal), expansão e capacidade de adaptação do layout e da infraestrutura?
  • Como a sustentabilidade e eficiência energética estão incorporadas ao design (por exemplo, altura de racks, iluminação LED, ventilação natural, sistemas de recuperação de energia)?
  • De que forma o design permite resiliência operacional frente a mudanças de mercado, restrições de transporte ou escassez de recursos humanos?
  • Como serão monitorados e ajustados os fluxos e operações ao longo do tempo, por meio de gêmeos digitais ou sistemas de análise preditiva?

 

Conclusão

Essa convergência entre capacidade, layout, e automação define o novo horizonte dos centros de distribuição. Mais do que infraestrutura, trata-se de uma mudança de mentalidade: enxergar o Centro de Distribuição (CD) como o núcleo estratégico da operação logística, responsável por garantir eficiência, agilidade e satisfação do cliente final.

Empresas que adotam essa visão integrada criam operações mais resilientes, escaláveis e sustentáveis, preparadas para responder a um mercado em constante transformação. No contexto brasileiro, onde a escassez de mão de obra qualificada e a pressão por produtividade se fazem sentir de modo especialmente intenso, esse tipo de projeto ganha ainda mais relevância.

O futuro dos centros de distribuição, portanto, será moldado por aquelas organizações que compreenderem que projetar bem não é apenas otimizar o espaço — é desenhar a própria competitividade. E para isso, investir em análise de processos, simulação rigorosa, automação inteligente e design centrado no fluxo humano-máquina não é opcional: é condição fundamental para quem deseja crescer de maneira sustentável.

 

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