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Seca no Amazonas, que desafiou logística, pode se agravar em 2024; planejamento é necessário

Problema afetou entregas de materiais e causou acúmulo de produtos e de cobrança de custos adicionais
Por Paloma Teixeira em 20 de fevereiro de 2024 às 10h53
Seca no Amazonas, que desafiou logística, pode se agravar em 2024; planejamento é necessário
Porto de Manaus (Foto: Divulgação/Sindarma)
Porto de Manaus (Foto: Divulgação/Sindarma)

A seca histórica que afetou o Amazonas no final do ano passado, ainda traz consequências diretas para o mercado e para a população como um todo. Devido a redução do nível da água em trechos considerados críticos, as embarcações de grande porte não conseguiram acessar o porto de Manaus. A seca na região Norte do Brasil é algo que vem ocorrendo há cerca de dez anos e as consequências acabam sendo maiores a cada ano.

Em 2023, a estiagem na região foi a mais grave já registrada desde 1980 e o nível de água no porto de Manaus foi o mais baixo desde 1902, quando os registros começaram a ser feitos. Conforme explica o ex-Diretor Geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), Adalberto Tokarski, a seca do último ano não se limitou ao Rio Amazonas, mas atingiu também os rios Madeira e Tapajós, o que impediu o translado de barcaças, principalmente aquelas com calado mais baixo.

Seca no Amazonas, que desafiou logística, pode se agravar em 2024; planejamento é necessário
Adalberto Tokarski (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Os maiores impactos foram identificados na logística de transporte de equipamentos eletrônicos e na de grãos. Tokarski sinaliza que os rios Madeira e Tapajós são as principais rotas de escoamento utilizadas pelo comércio de soja e milho. “É bem provável que demore cerca de dois meses para normalizar a entrega de insumos. Houve um impacto e tanto, que fez com que fosse necessário diminuir o volume das entregas”, pontua.

Esse fenômeno sazonal, agravado pelo El Niño, limitou os acessos de embarcações em Manaus mais do que o esperado. A seca no Canal do Panamá também contribuiu para o agravamento da situação, em virtude de um represamento de carga que chegaria ao país por meio dessa rota marítima. 

“Grande parte dos insumos que vêm da Ásia, vêm pelo Canal do Panamá. Se tem um limitador ou uma dificuldade, ele afeta a gente, aumenta a função de insumo. Teve carga que demorou até 90 dias para chegar da fila do Canal do Panamá. Então, com a dificuldade em 2023, a gente desequilibrou a produção em Manaus  e a gente vai demorar um tempo de reposição de insumos e de produção para podermos nos reposicionar no contexto da boa logística”, diz o presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (ABANI), Dodó Carvalho.

A seca, que interrompeu a chegada desses navios, causou um descompasso durante cerca de 60 dias na logística nacional e internacional com atrasos em entregas de materiais, acúmulo de produtos nos estoques das fábricas e cobrança de custos adicionais. O problema refletiu em toda a cadeia o que causou, inclusive, a necessidade de realizar paradas técnicas em fábricas do polo industrial de Manaus. Até antes da decisão, as empresas buscavam administrar as produções, mas com a chegada do limite do estresse logístico, foi necessária a paralisação completa de algumas linhas e a adoção de férias coletivas.

Impactos financeiros e planejamento 
Apesar de não ter ocorrido um desabastecimento total de produtos, as medidas adotadas para tentar driblar o caos gerado pela histórica estiagem trouxeram reflexos para a logística. Um serviço que pode ser utilizado para entrega de produtos em períodos de seca, quando há essa possibilidade, é o feito com o auxílio de um prático, que é um profissional que ajuda navios a passarem por águas restritas, contudo, a chamada “taxa da seca” aumentou assustadoramente o valor deste serviço, além de ter multiplicado o tempo do transporte.

De acordo com o Centro de Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), apesar do planejamento realizado todos os anos por causa do fenômeno, as empresas se depararam com um cenário muito pior do que o esperado. A baixa da navegação e a impossibilidade de prestar os serviços de cabotagem geraram custos extras para as indústrias locais. Em virtude da estiagem, as empresas tiveram gastos adicionais de cerca de R$ 1,4 bilhão para o transporte de produtos.

Apenas entre os meses de outubro e novembro, o Polo Industrial de Manaus (PIM) observou uma queda de, aproximadamente, 8% em relação ao previsto e deixou de importar o equivalente a US$ 1 bilhão em insumos, quando comparado com setembro. A redução da importação pela via aquaviária registrou uma redução de 73,82% neste período. Com a interrupção da navegação de grande porte, a arrecadação tributária no estado sofreu perdas de R$ 253 milhões, e as perdas acumuladas de arrecadação de Imposto de Importação foram de R$ 23 milhões.

Seca no Amazonas, que desafiou logística, pode se agravar em 2024; planejamento é necessário
Dodó Carvalho (Foto: Vosmar Rosa/ABANI)

Apesar da seca amenizada e o aumento nos níveis de água dos rios, o mercado busca alternativas e cobra a aplicação de investimentos para que o problema enfrentado em 2023 não se repita em 2024. Segundo Dodó Carvalho, algumas medidas podem ser tomadas para evitar que o mercado seja surpreendido novamente com uma situação grave como a ocorrida no ano anterior. 

“É necessário planejamento. Fazer um reposicionamento de carga até no máximo 15 de setembro, que é quando a gente ainda tem calado o suficiente, e a gente reduziria o período de carga de 15 de setembro a 15 de novembro. Isso é um planejamento que precisa ser acordado pela indústria, pelo comércio, por todos. [...] Do ponto de vista da engenharia, também é possível fazer uma intervenção de dragagem e a gente resolver, ou, se não resolver, minimizar [o problema] ao aumentar esse calado nesse ponto e esse navio conseguir chegar até Manaus, mesmo que ele chegue com uma redução da sua capacidade”, pondera.


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