
A perspectiva de crescimento econômico abaixo de 1,5% em 2026, combinada a juros elevados, restrição ao crédito e avanço da dívida pública, deve influenciar diretamente o desempenho do setor automotivo e as decisões de investimento em transporte e logística no Brasil. A avaliação consta de análise apresentada pela economista Tereza Fernandes, da TF Consultoria, durante coletiva da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), que discutiu os resultados de 2025 e as projeções para o próximo ano.
Segundo a economista, o Produto Interno Bruto (PIB) de 2025 deve encerrar entre 2% e 2,2%, abaixo das estimativas iniciais que apontavam crescimento de até 2,5%. O resultado reflete uma expansão concentrada em poucos setores, com destaque para o agronegócio, a indústria extrativa — especialmente minério de ferro e petróleo —, a construção civil e os serviços. A indústria de transformação, por outro lado, tende a fechar o ano próxima da estabilidade ou com leve retração, indicando limites para a expansão do consumo e dos investimentos produtivos.
No campo inflacionário, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2025 em 4,3%, conforme dados oficiais divulgados no início de janeiro. O índice permaneceu abaixo do teto da meta, mas acima do centro perseguido pela autoridade monetária. O câmbio fechou o ano em torno de R$ 5,48, dentro das projeções da consultoria, refletindo instabilidade no ambiente externo e pressões internas persistentes.
A política monetária teve impacto direto sobre o mercado de crédito. A taxa básica de juros encerrou 2025 em 15%, patamar que contribuiu para a redução da oferta de financiamentos e para o aumento da inadimplência, especialmente em setores dependentes de crédito, como o automotivo. Esse movimento afeta de forma direta a aquisição de veículos comerciais e a renovação de frotas utilizadas nas operações de transporte de cargas e passageiros.
No âmbito fiscal, a economista aponta avanço da dívida bruta do governo acima do esperado. Em novembro de 2025, a relação dívida/PIB atingiu 79,02%, aproximando-se do nível de 80%. Além disso, a meta de déficit orçamentário, fixada em até 0,25% do PIB, apresenta risco de descumprimento, o que amplia as incertezas em relação à condução da política econômica.
Para 2026, o cenário permanece marcado por fatores de risco internos e externos. No ambiente internacional, persistem incertezas relacionadas à política comercial, com anúncios recentes de tarifas de importação por países como China e México, inicialmente focadas em produtos agropecuários, mas com possibilidade de expansão para outros mercados. Conflitos geopolíticos continuam a gerar volatilidade nos mercados financeiros e cambiais.
No plano regional, o acordo entre Mercosul e União Europeia é visto como potencial gerador de oportunidades, mas seus efeitos práticos tendem a ocorrer apenas a partir de 2027. No mercado doméstico, a expectativa da TF Consultoria é que não haja redução imediata da taxa básica de juros no início de 2026. Eventuais cortes devem ocorrer a partir de março e de forma gradual.
Nesse contexto, a projeção de crescimento econômico para 2026 fica entre 1,3% e 1,5%, mesmo sendo um ano eleitoral, tradicionalmente associado à elevação dos gastos públicos. A contribuição para o PIB deve seguir concentrada na indústria extrativa e no setor de serviços, enquanto a construção civil tende a desacelerar.
A inflação em 2026 deve permanecer em torno de 4,3%, com riscos adicionais associados à transição da reforma tributária. Embora a implementação seja gradual, há expectativa de pressão sobre preços, especialmente no setor de serviços, além da possibilidade de maior volatilidade cambial no período eleitoral.
Para o setor automotivo e para a cadeia logística, a economista destaca três variáveis centrais que devem orientar as decisões estratégicas ao longo de 2026: crédito, inadimplência e situação fiscal. Dados recentes do Banco Central indicam desaceleração acentuada na expansão do crédito, que em períodos anteriores superou 30% ao ano e, em outubro, registrou crescimento de apenas 0,3%, com possibilidade de encerrar o ano próximo da estabilidade ou em retração.
A inadimplência no segmento de automóveis permanece elevada, com taxa de 5,4%, o que tende a restringir ainda mais as concessões de financiamento. A combinação desses fatores com o avanço da dívida pública reforça um ambiente de maior cautela.