
Uma pesquisa desenvolvida na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) avalia a realidade brasileira e desafia afirmações comuns no debate sobre descarbonização do transporte rodoviário. O estudo afirma que caminhões que operam no Brasil podem alcançar desempenho ambiental superior ao de modelos europeus quando consideradas as emissões de CO₂ por carga transportada, e não apenas o consumo absoluto de combustível.
A pesquisa, conduzida pelo engenheiro mecânico Eduardo Eisenbach de Oliveira Fortes, indica que veículos pesados em operação no país emitem até 35% menos CO₂ por tonelada-quilômetro do que caminhões equivalentes que circulam na Europa. Dessa forma, o trabalho sugere que a logística brasileira, marcada por alta capacidade de carga, pode representar uma vantagem ambiental relevante.
Estudo adaptado à realidade brasileira
Em sua pesquisa inédita no Brasil, Fortes aplicou a ferramenta VECTO (Vehicle Energy Consumption Calculation Tool), utilizada obrigatoriamente na União Europeia para certificar consumo energético e emissões de caminhões. No entanto, em vez de replicar o modelo europeu, o pesquisador adaptou os parâmetros do simulador às condições nacionais.
O estudo leva em consideração fatores relevantes no transporte de cargas brasileiro: rotas longas, topografia mais severa e composições veiculares com até 74 toneladas, realidade que difere do limite europeu de 40 toneladas. Além disso, Fortes comparou caminhões padrão 6×4 operando em rotas típicas da Europa com o corredor logístico entre Campo Grande (MS) e o Porto de Paranaguá (PR), eixo estratégico para o escoamento da produção de grãos.
“O setor de transporte de cargas responde por níveis relevantes de emissão de CO₂. Como o modal rodoviário movimenta mais de 60% das cargas no Brasil, precisamos de métricas mais precisas e aderentes à nossa realidade”, explica o autor.
Carga elevada = mais eficiência energética
Na simulação feita por Eduardo, o caminhão europeu padrão Euro 6 emitiu 29,0 gCO₂/ton·km, enquanto o modelo brasileiro atingiu 18,8 gCO₂/ton·km. O caminhão brasileiro consumiu mais combustível no total, devido ao peso maior, mas a sua carga elevada contribuiu para menos emissões por tonelada de mercadoria transportada
Portanto, a quantidade de carga transportada se torna um diferencial ambiental, superando até mesmo a influência da topografia.
“Mesmo com tecnologias veiculares por vezes defasadas, consequência de uma frota envelhecida, a escala de transporte no Brasil compensa ambientalmente quando avaliamos a emissão por unidade de carga”, afirma Fortes.
Desafios climáticos e frota envelhecida
Embora os resultados da pesquisa indiquem uma alta eficiência relativa no transporte rodoviário de cargas brasileiro, o estudo também destaca desafios estruturais do setor. O Brasil assumiu, no âmbito do Acordo de Paris, metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. No transporte rodoviário, os caminhões respondem por cerca de 42% das emissões do segmento, segundo o Observatório do Clima.
Além disso, a idade média da frota brasileira, próxima de 12 anos, compromete a eficiência energética e reforça a necessidade de renovação tecnológica, conforme dados do Anuário CNT do Transporte. Ainda assim, o trabalho da Poli-USP demonstra que a forma de medir as emissões pode alterar significativamente a percepção sobre sustentabilidade no setor.
Ao considerar a emissão por carga efetivamente transportada, a pesquisa sugere que o Brasil pode contribuir de maneira mais eficiente para as metas climáticas do que indicam análises baseadas apenas em padrões europeus. Nesse sentido, o estudo abre espaço para um debate mais técnico e ajustado à realidade do transporte pesado nacional.
Detalhes da pesquisa
Para assegurar a consistência metodológica, o pesquisador utilizou dados reais de repositórios oficiais do VECTO e da legislação brasileira para caracterizar os veículos padrão do Brasil e da Europa. Para mapear uma rota de mais de mil quilômetros, Fortes combinou informações reais com Inteligência Artificial integrada ao Google Maps, a fim de identificar limites de velocidade ao longo do trajeto.
Posteriormente, algoritmos desenvolvidos em Python processaram mais de 100 mil pontos de dados, o que elevou o nível de detalhamento da simulação. Dessa maneira, o trabalho conseguiu refletir com maior fidelidade as condições operacionais do transporte rodoviário nacional.
Para o professor Marcelo Augusto Leal Alves, coordenador do Centro de Engenharia Automotiva da Poli-USP e orientador do projeto, o estudo preenche uma lacuna importante. “No Brasil, onde o transporte rodoviário domina o escoamento de cargas, a avaliação das emissões de CO₂ de caminhões é estratégica. Como o país não dispõe de uma ferramenta equivalente ao VECTO, pesquisas como essa ganham ainda mais relevância”, destaca.