Terça-feira, 13 de agosto de 2019 - 11h58
Navegando em busca de uma logística mais eficiente
Autoria de ALESSANDRO SCAPOL COMPATANGELO

Costumo dizer que o Brasil reúne todas as condições naturais para ser uma das grandes potências econômicas do mundo. Mas infelizmente a ineficiência no uso dos recursos tem sido uma das barreiras para competir com os países desenvolvidos. A oportunidade de um país fazer negócios internacionais está diretamente relacionada à sua capacidade de executar uma logística competitiva em custos e à confiabilidade nos prazos de entrega.

E nesse cenário é que entra o transporte hidroviário, modal responsável por quase metade de toda a receita gerada com fretes e por mais de 90% do peso de mercadorias transacionadas no comércio internacional. Atualmente estima-se que são mais de 50 mil navios em operação ao redor do mundo, transportando um volume superior a quase 8 bilhões de toneladas por ano. No Brasil, o transporte hidroviário responde por cerca de 75% de todo o volume exportado.

O interessante é que quando falamos em transporte hidroviário é quase que imediata a associação que fazemos aos navios que circulam por nossa extensa costa litorânea, por vezes esquecendo que esse modal é composto também pelas vias fluviais – a navegação realizada em rios e lagos. E a navegação fluvial, realizada normalmente em barcaças, tem papel essencial na competitividade de um país com dimensões continentais, como é o caso do Brasil, normalmente sendo utilizada em conjunto com outros modais. Barcaças, por exemplo, são utilizadas para levar mercadorias do interior do Brasil para os portos, e na sequência as cargas são embarcadas nos navios de cabotagem ou exportação. Há também os casos em que as mercadorias chegam por barcaças e são transbordadas para caminhões, seguindo para seu destino final.

O fato é que existem muitas vantagens no uso das vias fluviais. É a forma de transporte de menor custo e também a mais amigável do ponto de vista ambiental. O custo do transporte fluvial é, em média, duas vezes menor que o da ferrovia e quase cinco vezes inferior ao transporte rodoviário. O transporte fluvial emite bem menos CO2 que seus concorrentes (rodovia e ferrovia). Outra vantagem do modal fluvial é sua capacidade de transportar grandes volumes em uma única viagem – uma barcaça carrega o equivalente a 15 vagões de trem ou, ainda, 58 carretas.

Dentre as limitações no uso desse modal, destaca-se a baixa velocidade de transporte e consequentemente o aumento do transit time. Barcaças viajam a uma velocidade média de apenas 9 a 24,5 km/h. Outra desvantagem é o número reduzido de rotas navegáveis, o que restringe muito a sua utilização. Como qualquer outro modal de transporte, o fluvial tem suas limitações e, portanto, deve ser visto como um modal complementar, sendo utilizado de maneira integrada a outros modais.

Conforme um documento publicado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em 2013, o Brasil tem cerca de 41 mil km de via navegáveis, mas apenas metade disso economicamente navegável. Ainda, segundo o Departamento de Hidrovias Interiores, apenas 3% de todo volume transportado no país é movimentado via navegação fluvial, demonstrando existir muito potencial a ser explorado.

A falta de investimentos em sinalizações para segurança da navegação e em dragagens são alguns dos motivos para a limitação de seu uso. Além disso, existem as próprias limitações cíclicas, como o volume de chuvas. Em determinados períodos do ano a navegação precisa ser interrompida por conta tanto da baixa quanto das cheias dos rios.

Investimentos para transformação de um rio em hidrovia navegável são muito altos e por vezes inviáveis do ponto de vista econômico. Se analisado o custo-benefício fica claro que o governo deveria concentrar seus recursos financeiros na manutenção das vias atualmente disponíveis. Muitas delas estão sem manutenção adequada, já causando restrições de navegabilidade. Apesar de apenas 3% do volume movimentado no país ocorrer em vias fluviais, existem regiões e até mesmo alguns setores extremamente dependentes desse modal. Um colapso no sistema fluvial, por falta de manutenção e/ou melhorias, pode gerar grande impacto econômico e social para o Brasil.