Segunda-feira, 16 de setembro de 2019 - 15h17
Colaboração e revolução digital transformando o armazenamento
Autoria de RAFAEL SZARF

Para cobrir o extenso território nacional e sua capilaridade, geralmente a estratégia das grandes empresas de bens de consumo se apoia na criação de depósitos próprios ou em hubs centralizados com distribuidoras. Independentemente da opção escolhida, ao longo dos últimos anos, a crescente individualização do consumidor final forçou estas empresas a, de alguma forma, diversificarem seu portfólio e o número de itens estocáveis e, em paralelo, aumentar a percepção do nível de serviço, diminuindo tempo de entrega ao consumidor.

Aqueles que escolheram depósitos próprios investiram em manter ou ativar diversas unidades, enquanto aqueles que optaram pelo hub, investiram em tecnologia para lidar com o aumento da complexidade nas operações, garantindo-lhes a agilidade necessária.

O surgimento de companhias como Amazon, Alibaba e semelhantes revolucionou o mercado, instigando as demais empresas a se tornarem mais rápidas, atendendo clientes cada vez mais exigentes e dispostos a contrapor o serviço prestado ao custo. Aqui, o exemplo é simples. Se você estivesse realizando uma compra online de um produto hipotético 'A', o que optaria: pagar R$ 10 e recebê-lo 20 dias depois, ou pagar R$12 para tê-lo no dia seguinte?

Mesmo sem saber qual é a finalidade deste produto ou mesmo a urgência necessária, certamente muitos escolheriam a segunda opção, aceitando um acréscimo de 20% no custo, em prol do benefício de ser atendido rapidamente. Dessa maneira, é imperativo que tanto a empresa que optou por depósitos próprios quanto as que preferiram o hub se preparem para essa tendência. É o momento de relacionar colaboração e revolução digital com armazenamento.

A colaboração é essencial para o futuro sustentável da logística. Aqui vale uma analogia com a máquina de lavar. Afinal, com que frequência você usa a sua máquina: uma vez ao dia, uma a cada dois ou três dias? Pois bem, se sua casa fosse uma fábrica de moradores felizes, qual seria a relevância da máquina de lavar roupas? Sabendo ainda que este é um dos eletrodomésticos mais caros da sua casa, faz sentido ela ficar tão mais tempo desligada do que ligada, ocupando ainda um bom espaço físico? Por que então não compartilhamos uma máquina de lavar por andar do prédio ou entre um número específico de vizinhos?! Certamente, você tem argumentos para não compartilhar a sua máquina de lavar, mas extrapolando esse raciocínio para o ambiente corporativo, você teria as mesmas restrições? Provavelmente, não.

Os últimos anos assolaram o Brasil com uma forte recessão econômica. Segundo estudo da LCA Consultores, nosso PIB encontra-se 5,1% abaixo do nível pré-crise (no segundo trimestre 2014), restringindo o poder de compra do consumidor, refletindo, por sua vez, na redução significativa dos volumes de venda da indústria nacional. Como consequência desta redução, diversos armazéns criados sob o efeito do otimismo dos anos 2000 se tornaram ociosos e, assim, caros. Aquelas empresas, que outrora investiram em tecnologia e automação, viram o retorno sobre investimento ficar cada vez mais longo ou até mesmo negativo, enquanto as que focaram na alta capilaridade suportada por armazéns próprios passaram a lidar com uma constante gestão do espaço ocioso.

Voltando ao exemplo, por que precisamos cada um ter a sua própria máquina de lavar? Em uma indústria cujo objetivo é satisfação dos consumidores, qual é a relevância dos armazéns? A colaboração ajudaria as empresas a dividirem custos, sistemas e demais recursos com outras companhias, mesmo que concorrentes. Surge uma nova demanda de mercado, pois indústrias não sabem sublocar áreas, parametrizar sistemas integrados, e agir de forma neutra com outras empresas, deixando de gerar uma real situação de ganha-ganha.

Avançando no conceito de satisfazer os consumidores que optam por velocidade, a criação de depósitos urbanos é a chave para o sucesso. Estes nada mais são do que pequenas estações de trânsito de carga, que reduzem drasticamente a última milha percorrida até o cliente. Se antigamente um depósito abastecia a cidade de São Paulo inteira e, assim, possuía dimensões físicas enormes e se localizava em cidades próximas (para equalizar a questão do custo do metro quadrado), agora serão necessários talvez cinco ou dez micro depósitos urbanos para abastecer um punhado de bairros. Neste ponto, a revolução digital é fundamental, suportando o planejamento do estoque de uma região tão pequena.

A teoria acadêmica nos ensinou que quanto mais armazéns, maior o nível de inventário. O avanço das tecnologias prescritivas dirá que o perfil de consumo de Pinheiros é diferente do de Osasco, que por sua vez é diferente do de Tatuapé e Itaim, embora todas estas localidades estejam em São Paulo. Portanto, a complexidade está na previsão do consumo, para que os depósitos urbanos tenham o mais baixo e assertivo estoque possível, evitando aumento no custo de inventário. Lembrando que, como estes depósitos ficam em regiões mais caras, o espaço reduzido será capaz de armazenar, possivelmente, apenas um ou dois dias de demanda. Big data e inteligência artificial são hoje capazes de atuar nesse nível de granularidade de informação.

Por fim, a colaboração convergirá com a revolução digital, ofertando ferramentas flexíveis de crowdsourcing para armazenagem. Da mesma maneira que o Uber não possui carros ou o Airbnb não possui hotéis, qual será a plataforma que permitirá proximidade sem obter um ativo sequer? Neste cenário, de um futuro próximo (atualmente testado em baixa escala na Europa) torna-se evidente o fato de que diversos pequenos depósitos irão substituir rapidamente os grandes latifúndios, atualmente chamados de hubs ou depósitos.

Essa tendência é uma realidade para algumas empresas nacionais. Na Souza Cruz, presente em cerca de 315 mil pontos de venda no Brasil do Oiapoque ao Chuí, compartilhamos quase todos os 36 Centros de Distribuição com outras empresas, enquanto os armazéns urbanos já são uma realidade no Rio de Janeiro. De uma forma ou de outra, o importante é estar sempre à frente e nunca esquecer do lema: reinvente-se, pois os seus clientes já o fizeram!