Segunda-feira, 11 de maio de 2020 - 16h44
Mundo novo e futuro diferente, incerto e ainda desconhecido desafiam governantes e executivos empresariais
Autoria de PAULO ROBERTO GUEDES

Não há qualquer dúvida que o mundo, já em constantes e profundas mudanças desde o início deste século, terá, a partir da pandemia do coronavírus, um ponto de inflexão que mudará a história da humanidade.

Durante cinco ou seis décadas de razoável estabilidade, pós Segunda Guerra Mundial, tudo parecia ter objetivos claros, todas as “coisas” estavam em seus devidos lugares e a sociedade caminhava célere ao encontro da paz, da justiça social e do progresso. É incontestável que a Democracia, a globalização e o próprio sistema capitalista, mesmo com as conhecidas disfunções na forma de distribuir a renda desta última, conseguiram proporcionar, à maioria dos países, condições favoráveis. Uma significativa parte da população mundial, até então marginalizada do progresso, passou a ser incorporada ao processo e a se beneficiar do desenvolvimento gerado.

Mas ao contrário do que se esperava, o início deste século deu clara indicação que nem tudo estava bem. Problemas gerados pela mudança climática (que a diretora do FMI, Kristalina Georgieva, chama de “a outra crise existencial que encaramos”, além do coronavírus), fundamentalmente em função das atividades predatórias do próprio ser humano, a excepcional movimentação de pessoas em migrações cada vez mais obrigatórias (fugir ou morrer), e algumas de suas terríveis consequências, o nacionalismo exacerbado e a intolerância, o aumento do terrorismo e do crime organizado, do desemprego, principalmente das pessoas menos qualificadas ou alijadas do mercado de trabalho por causa da acelerada evolução científica e tecnológica que se apresentava, e a impossibilidade de se encontrar respostas imediatas, criaram clima de insatisfação da população com relação aos governos de plantão.

Junte-se a isso tudo, o fato de que os mecanismos de proteção das pessoas mais pobres, na maioria dos países, estavam sendo paulatinamente desmontados. As consequências foram imediatas: aumento da violência e da insegurança principalmente nas grandes metrópoles, fenômeno muito bem retratado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Explosões populares foram surgindo em todos os ‘cantos’ do planeta e, na medida em que as reclamações não eram atendidas, movimentos radicais foram aumentando de intensidade e frequência e as possibilidades para o surgimento de governos populistas e demagogos foram crescendo.

É óbvio que o Brasil, com os mesmos tipos de problemas, não ficou indiferente a esse movimento mundial e as consequências, guardadas suas devidas proporções, foram idênticas. Nada parecia estar em seu devido lugar e o Brasil e o mundo viviam um tempo que Bauman, aqui já citado, chamou de “era do interregno”, não exatamente com estas palavras, mas que queria dizer que “tudo o que servia até agora para resolver nossos problemas não existe mais, e tudo o que resolverá nossos problemas daqui para a frente ainda não foi desenvolvido”. E isso tudo antes da pandemia do coronavírus!

Diante da pandemia, e totalmente pego de surpresa, o mundo todo, mesmo sem saber exatamente como, começou a buscar soluções para resolver o problema e se adaptar às mudanças que, sem dúvida, serão muito mais significativas do que se imaginava. Até porque muitas das providências adotadas durante a urgência e o “pico” da crise, criarão consequências novas.

Mas desde o início da pandemia, pelo menos quatro tarefas têm sido regra geral:

·         Combate ao coronavírus, através de investimentos na pesquisa, na ciência e na medicina, com objetivos claros: entender o comportamento do vírus, descobrir e desenvolver remédios e vacinas específicas, diminuir a sua velocidade de disseminação (via distanciamento social ou o “não saia de casa”), aumentar o número de leitos nos hospitais (construção de hospitais e/ou reestruturação e adaptação daqueles já existentes) e equipamentos de proteção, por exemplo, e instalar programas de comunicação claros e objetivos para toda a população;

·         Manutenção de renda mínima de sobrevivência para as camadas mais pobres da população, de desempregados, moradoras de rua, trabalhadores na informalidade ou que, por qualquer motivo, estejam fora de qualquer sistema de previdência ou de benefício social;

·         Amparo e auxílio às empresas, notadamente às pequenas e médias, para pagarem suas folhas salariais e manterem os postos de trabalho (evitar desemprego e fechamento de empresas);

·         Desenvolvimento de estratégia para “saída do isolamento” e retorno paulatino ao trabalho, sem riscos de uma “segunda onda de pandemia”, de forma a considerar as reais dimensões da crise e estabelecendo metas de retomada do crescimento econômico, reestruturação da economia – quando não da própria sociedade – uma vez terminada a fase crítica da pandemia.

No caso do Brasil, mais especificamente, algumas outras tarefas devem ser incluídas, pois por terem sido “quase” esquecidas pela maioria dos últimos governos deste país, precisarão ter suas prioridades reestabelecidas:

·         Políticas voltadas à melhoria da saúde pública (vacinação, distribuição de remédios para os mais pobres, expansão e modernização da rede hospitalar, etc.) e de incentivo – e quando preciso financiamento - à pesquisa, à ciência, ao treinamento e maior capacitação dos diversos tipos de profissionais da área de saúde;

·         Políticas efetivas no combate à pobreza, tais como a reformulação do sistema tributário (que hoje é extremamente perverso com os mais pobres), de mais acesso aos sistemas de saúde, educação, moradia e infraestrutura geral (inclusive à internet, caso queira se aproveitar mais eficazmente do ensino à distância).

Diante deste cenário, é óbvio que algumas consequências, de forma imediata, poderão (ou deverão) surgir. Mesmo com muitas incertezas, é possível elencar algumas das mais relevantes:

1)      Queda no nível de atividade econômica na grande maioria dos países do mundo, diminuição da riqueza, diminuição na geração de renda e de empregos (1) e desorganização do sistema econômico;

2)      Aumento substancial da pobreza e da desigualdade social. Aliás como já demostram, aqui no Brasil, pesquisas e estudos oficiais do IPEA e do IBGE (2), por exemplo;

3)      Diminuição dos fluxos de pessoas, recursos e das atividades de comércio internacional, principalmente, na medida em que os países, em face do fechamento de suas fronteiras, de estímulo à produção interna (talvez um novo modelo para o antigo processo de substituição de importações?) e de certo exagero nacionalista, deverão se isolar cada vez mais;

4)      Extraordinário endividamento dos Estados, dados os aumentos nos gastos realizados pelos governos, não só para combater a pandemia, mas também para o período seguinte, com riscos eminentes de aumento da inflação, iliquidez estatal, paralisação dos investimentos públicos e ‘perigosa’ dependência do setor privado;

5)      Maior seletividade nos investimentos por parte dos investidores que, ao exigirem maior ‘segurança’, levarão mais dificuldades para os países emergentes ou que mais necessitam de investimentos estrangeiros. Aqueles que já viviam em crise econômica e com déficits persistentes em suas finanças públicas terão, sem dúvida, maiores obstáculos;

6)      Alterações no ‘mundo dos negócios’, na medida em que diversas atividades econômicas, com desempenhos extraordinários antes da pandemia, estão tendo seu desempenho e/ou sua importância diminuídos. Turismo, restaurantes, cinemas e a grande maior de eventos que concentrem um número grande de pessoas, são apenas alguns exemplos;

7)      Aumento do trabalho, do estudo e da assistência médica à distância, com modificações no mercado de trabalho, nas profissões e na forma de capacitá-las e nos relacionamentos empregado/emprega e cliente/fornecedor. Estímulos diretos para um desenvolvimento ainda maior da tecnologia voltada à comunicação e à transmissão de dados também ocorrerão;

8)      Diminuição na movimentação de pessoas e de mercadorias (preferência a mercados mais próximos), com impactos diretos nos sistemas de mobilidade, transporte, logística e infraestrutura correspondente, bem como nos espaços nos quais essas atividades serão desenvolvidas;

9)      Maior consciência política e aumento no sentimento de cidadania, com alterações comportamentais na maioria das pessoas, não só no aumento imediato do sentimento de solidariedade, que se percebe no momento, mas também na postura reivindicatória para melhorias nos sistemas de saúde, educação, segurança, saneamento básico e de proteção do meio ambiente;

10)  Mudança no comportamento do consumidor, que utilizará cada vez mais o e-commerce, as lojas virtuais e as diversas formas de pagamento, com diminuição ainda maior da utilização do papel-moeda;

11)  Alterações nas cadeias de abastecimento e distribuição, principalmente aquelas ligadas ao mercado internacional, seja devido à queda na demanda dos produtos menos essenciais, ou seja, pelo aumento da demanda de outros produtos, tais como os farmacêuticos e de higiene.

Não há que se descartar que essas “mudanças”, e outras tantas que virão, afetarão o mundo, elevarão os níveis de incerteza e aumentarão a intolerância e o “nervosismo” de uma grande parte da população mundial, posto que mesmo após a crise, nem tudo estará resolvido. Mesmo estando empregadas, muitas pessoas sofrerão de depressão, ansiedade e desconforto, inclusive com possibilidade de recorrerem ao álcool e às drogas. E cuidados especiais com aqueles que tem trabalhado diretamente com a pandemia (médicos, enfermeiros, atendentes hospitalares, motoristas de ambulância, etc.) também deverão ser tomados (3).

E se antes da pandemia, muitas das soluções para os principais problemas mundiais dependiam fortemente de mais multilateralismo, muita cooperação internacional e solidariedade, agora mais do que nunca. As soluções somente poderão ser eficazes se tiverem convergência e forem globais, diferentemente do que pensam – e praticam, infelizmente - alguns governantes.

O mundo empresarial, sem qualquer dúvida, também será alcançado pela crise. E se inicialmente a preocupação limitava-se à sobrevivência, em função da pandemia e consequente crise econômica, já é chegado o momento para que as empresas “repensem seus negócios”, e de forma bastante profunda. Sua condição financeira, seu posicionamento no mercado, outrora totalmente estabilizado (dentro do que permitia o clima concorrencial), organizado e integrado às suas redes de fornecedores e de clientes, o seu corpo de funcionários e colaboradores, e até seu próprio produto ou serviço prestado, serão questões a fazer parte das novas discussões estratégicas.

Apenas como ilustração, matéria publicada no Estadão do último dia 4 (“O que deu certo no Ibovespa até agora”), dos jornalistas José Ayan Jr. e Pedro Hallack, reportou que, ao analisar o comportamento das ações das 73 principais empresas que compõem o índice da Bolsa, os destaques positivos ficaram por conta das empresas exportadoras e varejistas (estas últimas principalmente quando focadas em vendas online), empresas de e-commerce, empresas que melhoraram suas gestões, e portanto menos vulneráveis à crise, empresas quase nada alavancadas, empresas que se beneficiaram por aumento específico na demanda por seus produtos ou serviços, empresas que já haviam investido em novas e mais eficientes malhas logísticas e centros de distribuição (com isso permitiu-se o atendimento do mercado de forma eficiente e sem novos investimentos), e empresas que ampliaram seus portfólios, inclusive através de parcerias com outras lojas e utilização de suas plataformas digitais.

A McKinsey & Company, ainda no mês de abril, fez uma pesquisa (4) junto a diversos líderes mundiais, em todos os setores produtivos, questionando sobre o que fazer após a pandemia, de forma a “garantir um seguro e bem-sucedido relançamento da atividade econômica”. O trabalho realizado merece ser lido e analisado, pois além de corroborarem com o pensamento de que daqui para a frente os cuidados intensivos com saúde, medicina e redes hospitalares determinarão o ritmo de recuperação futuro, outras questões precisarão ser respondidas. E foi exatamente a partir de um conjunto de perguntas (“Como serão afrouxadas as restrições? Qual é a saúde financeira — e o estado de mente - de fornecedores e consumidores? Como os funcionários podem ser motivados a voltar ao trabalho e tranquilizado sobre sua segurança? Com que rapidez a demanda vai voltar? O que será saúde e segurança estipulações significam para a organização de operações e cadeia de suprimentos?”, são alguns exemplos) que os pesquisadores provocaram os pesquisados.

Apenas uma observação sobre as respostas recebidas no questionário McKinsey a respeito de como os funcionários poderão ser motivados a voltar ao trabalho (5), além da necessária segurança nos diversos locais de trabalho: “funcionários também precisarão restaurar senso de significado e ‘propósito’ da empresa”

Richard Edelman e o Dr. David Nabarro, responsáveis por outra pesquisa McKinsey (“Coronavírus: uma perspectiva global e o papel das empresas”, site Edelman de 06/03/2020), enfatizaram: “Em apenas algumas semanas, as empresas terão que mergulhar em uma nova fase, a do reinício, com muitas incógnitas que permanecerão nebulosas por um longo tempo. Elas poderão estar longe de ter todas as suas capacidades operacionais. Elas não terão vínculos em sua cadeia de suprimentos e terão acesso restrito apenas aos seus diversos mercados. Além disso, elas terão que viver sob a sombra de um ressurgimento da epidemia com novas medidas de confinamento.

Diante de todo o exposto, é de se compreender porque, durante e depois da crise, um dos valores a ser ainda mais ressaltado dentro das empresas é a Governança Corporativa (6). Na medida em que todos os “stakeholders” (que em diversos outros artigos tenho chamado de “nossos patrões”) precisarão ter segurança absoluta sobre o que e como está em andamento neste novo mundo, a informação, a transparência e a clareza sobre as estratégias desenvolvidas e implementadas, são instrumentos importantíssimo para a tomada de decisões.

E se como indica pesquisa realizada pela empresa norte-americana de relações públicas Edelman (7), são as corporações empresariais as instituições consideradas como mais importantes no mundo atual, principalmente por serem mais confiáveis (a conferir), é essencial que elas desenvolvam, com urgência, cenários e planos de negócios que contemplem esse novo mundo, diferente, incerto e ainda muito desconhecido.

(1)   No Brasil os desempregados já somam cerca de 13,5 milhões de pessoas, devendo chegar aos 18 milhões até o final do ano. Nos EUA o número de desempregados está próximo dos 20 milhões, com aproximadamente 33,5 milhões de pessoas que já solicitaram seguro desemprego;

(2)   Com base nos dados da PNAD, a simulação do IPEA indica perda da renda mensal anual de todas as pessoas ocupadas, mas de forma completamente diferente: os de maior renda deverão perder 11% da renda média anual, enquanto aqueles de menor renda perderão 28%. O IBGE também publicou dados recente a respeito: entre 2018 e 2019, enquanto a renda média mensal dos 10% de menor renda (cerca de 21 milhões de pessoas) cresceu 0,9%, os 50% de menor renda (105 milhões de pessoas) tiveram suas rendas aumentadas em 0,23%, o 1% de maior renda (2,095 milhões de pessoas) teve sua renda acrescida em 2,73%;

Carta de Conjuntura do 2º Trimestre de 2020. Estudo “Heterogeneidade do impacto econômico da pandemia”, realizado por Ajax Moreira. Com base nos dados da PNAD 2018 e 2019, a simulação indica que enquanto as pessoas de maior renda perderão cerca de 11% de sua renda média anual (RMA), as pessoas de menor renda perderão 28%. Analisados por domicílios, as perdas serão, respectivamente, 11% e 24% da RMA;

(3)   Desde o início da quarentena no Brasil, os casos de depressão subiram quase 50% e os de ansiedade, 80%, segundo estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro junto aos médicos, enfermeiros, etc. A pesquisa revelou que as mulheres são mais propensas a sofrer com estresse e ansiedade durante o isolamento. Outro ponto do estudo mostra que não conviver com crianças ou idosos aumenta as chances de ter depressão nesse período (matéria publicada dia 07 deste mês no Estadão). “A percepção de que a saúde mental saiu da linha por causa do isolamento social já paira no ar e pode ser medida. A Newsletter Veja do dia 08 menciona matéria da Veja a ser publicada nesta semana: 36% dos cidadãos nos EUA sofreram impactos, na forma de prostração severa e depressão, em decorrência do confinamento, quadro comparável ao dos dias e semanas após os ataques do 11 de setembro. No Brasil, as consultas virtuais com psicólogos e psicanalistas aumentaram e já são quase 90.000 os profissionais cadastrados e autorizados a atender à distância.

(4)   “The Restart - Eight actions CEOs can take to ensure a safe and successful relaunch of economic activity” é o trabalho elaborado por Homayoun Hatami, Sébastien Lacroix e Jean-Christophe Mieszala, publicado pela McKinsey & Company em abril de 2020;

(5)   “a) Garantir a segurança dos funcionários no local de trabalho. Controle ao acesso do local de trabalho, medição de temperatura dos funcionários na entrada de edifícios (e impondo um período de quarentena para aqueles que adoecerem), minimização das viagens, através da realização de trabalhos remotos sempre que possível, redução na densidade do espaço de trabalho, alteração dos turnos e horários de trabalho, provisão de materiais de segurança (todos os que forem necessários), incluindo aqueles de uso único, tais como máscaras. Esses protocolos precisarão ser validados junto às autoridades públicas, quando necessário e com programas intensivos e claros de comunicação; b) Estender medidas de proteção aos funcionários que também trabalham fora da base operacional, isto é, trabalham fora. De acordo com as regulamentações existentes, utilizar tecnologias – sempre que disponíveis - que permitam a identificação e o rastreamento de possível ressurgimentos do vírus; c) Remobilizar funcionários, pois além das preocupações com a segurança, funcionários também precisarão restaurar senso de significado e ‘propósito’ da empresa”.

(6)   Sempre trabalhando para a perenização da empresa e mesmo considerando que cada empresa defina seu próprio conjunto de processos, costumes, políticas, leis, regulamentos e instituições que orientam e definem a maneira como ela é dirigida, inclusive no que diz respeito às relações existentes entre os objetivos maiores da empresa e todos os demais atores (“stakeholders”), o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) defende a existência de alguns pressupostos essenciais para que se realize uma boa Governança Corporativa: Transparência, Equidade, Prestação de Contas, Conformidade e Responsabilidade Corporativa.

(7)   Dados da Edelmann (Pesquisa Trust at Work 2020, realizada entre os dias 6 a 10 de março, junto a 10 países) revelam que, “na falta de confiança no governo, na mídia e até nas ONGs, existe uma expectativa de que os negócios liderem mudanças sociais”. O estudo sobre o coronavírus (Edelman Trust Barometer) indica que a pandemia está permitindo que “meu empregador”, além de ser a fonte mais confiada durante o período de crise, deverá desempenhar papéis cada vez mais importantes.