Segunda-feira, 3 de junho de 2019 - 14h28
Startups: Tegma, Brink’s, Randon e Rumo apostam em inovação
Players do setor logístico se movimentam para analisar as propostas, fomentar o desenvolvimento e aplicar as soluções criadas por essas novas empresas de tecnologia

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Há tempos as companhias perceberam a importância de investir pesado no departamento de Tecnologia da Informação. A área é fundamental para aspectos como análise, controle e segurança, e também no desenvolvimento de produtos, serviços e soluções. Mas ultimamente ela tem ganhado mais uma função: trabalhar junto às startups.

O mercado hoje apresenta uma série de empresas que têm como foco a inovação. E elas trabalham cada vez mais próximas das grandes corporações para desenvolver, fornecer e implantar soluções específicas para cada setor.

Na logística isso não é diferente. Grandes players do mercado atuam junto às startups, fomentam iniciativas e aplicam em suas operações as soluções concebidas por essas empresas.

Demandas

Neves, da Tegma
Neves, da Tegma

Antes de investir, porém, é preciso identificar as necessidades. O líder do projeto que resultou na TegUp – aceleradora de startups e braço de inovação vinculado à Tegma Gestão Logística – e responsável pela área de Tecnologia da Informação da companhia, Pedro Neves, explica que a  TegUp atende empresas de qualquer segmento que necessitem de apoio para fomentar inovação tecnológica em logística. A ideia, revela, é que por meio da aceleradora de startups a empresa potencialize sua capacidade de inovação, atraindo e apoiando empreendedores criativos que buscam desenvolver soluções tanto para a Tegma quanto para seus clientes, além de aproximar a empresa de um ecossistema de inovação aberto

“Nós procuramos startups inovadoras, com elevado potencial de expansão, que já tenham superado o estágio inicial do negócio e tenham um plano que suporte a chegada de novos investimentos, principalmente smart money, que é o nosso propósito. O mercado relacionado a inovação e interação com startups está crescendo em diversas áreas de negócios. Onde existe uma ampla carência de soluções, como é o caso da logística, geralmente existe um campo fértil para oportunidades”, frisa.

Neves revela que a Tegma possui uma ótima percepção da qualidade das startups e de seus empreendedores dentre aquelas que participam dos processos seletivos promovidos pela companhia. Segundo o executivo, essas empresas promovem um ambiente colaborativo entre elas, fomentando a indicação mútua para os desafios que sozinhas não conseguem atender. Além disso, o trabalho em conjunto possibilita vencer as barreiras de contratação, característica latente às grandes empresas. “As grandes corporações querem usar as soluções, mas têm impedimentos internos para promover o ambiente experimental. A TegUp se propõe a facilitar essa conexão entre o ambiente corporativo e os empreendedores.”

Atualmente na Tegma dois profissionais estão envolvidos 100% do tempo com as startups, mas a companhia também conta com duas consultorias especializadas que apoiam com objetivos complementares, além da participação de um comitê de executivos, que suporta e patrocina a iniciativa.

Hipólito, da Brink's
Hipólito, da Brink's

Na Brink’s, o diretor de Novos Negócios, Gil Hipólito, reforça a importância das startups dizendo que uma empresa só consegue existir e se manter relevante investindo constantemente em inovação. “O mercado brasileiro exige que as empresas sejam sempre inovadoras, então procuramos startups com projetos que acelerem esse processo de inovação da Brink’s”, resume.

A ideia na empresa é apoiar startups que possuam sinergia com os temas relacionados aos negócios, como segurança, logística, gerenciamento de risco, inteligência em segurança, meios de pagamento e gestão de processos sensíveis. De acordo com Hipólito, as startups recebem investimento e acompanhamento dos executivos da Brink’s das áreas relacionadas aos projetos escolhidos a fim de  auxiliar no processo de desenvolvimento das soluções e inovações, podendo envolver mais de 100 colaboradores dos mais diversos setores da empresa.

“Estamos sempre atentos ao que as startups estão trazendo para o mercado e buscamos sempre conhecer as soluções inovadoras para serem utilizadas na Brink’s. É importante salientar, entretanto, que algumas tecnologias ainda não são aderentes às características dos mercados onde estamos inseridos, que demandam soluções em termos de roteirização, sistemas de controle e rastreamento de cargas e veículos, telemetria e tecnologias de comunicação anti-jammer”, diz.

Já o diretor de Planejamento e Recursos Humanos das Empresas Randon, Daniel Ely, faz questão de frisar que a companhia não atua na aceleração de startups, mas faz parcerias com elas. Para ele, uma boa startup é focada num problema real e, muitas vezes, bastante específico. “Quando olhamos o mercado e buscamos um parceiro, precisamos de uma solução eficiente. Em geral, ela tem um time de empreendedores com brilho no olho, qualificação, domínio técnico dos assuntos e muita paixão pelo desafio de nos ajudar com uma efetiva solução, agregando novas tecnologias embarcadas”, pontua.

Hoje na Randon oito profissionais estão diretamente envolvidos com os processos, mas há a participação das demais áreas da empresa. Com isso, revela, é possível afirmar que para cada projeto com startups, há um envolvimento de, pelo menos, dez pessoas da área responsável dando apoio e suporte. “Nos demos conta de que nem tudo precisa ser feito dentro de casa. Apesar dos muitos talentos no nosso quadro de pessoal, também temos muitas demandas. A conexão com as startups nos permite ter soluções inovadoras e rápidas, resolvendo problemas reais com uma significativa redução do tempo de implementação”, relata Ely.

O executivo ainda sustenta que o principal fator de sucesso para a conexão entre uma grande empresa e a startup é o desejo de resolver o problema. “É verdade que, muitas vezes, conhecendo novas tecnologias, acabamos encontrando oportunidades, mas o começo da conversa é sempre um desafio a ser superado. Nós tomamos o cuidado de avaliar a qualificação dos empreendedores e seu domínio técnico sobre o tema, a capacidade de atendimento para as nossas demandas – que pode ser um limitador dependendo do estágio da startup –, mas nós também temos um fator interno que é a disponibilidade da área e a capacidade de articulação com outras demandas”, conta.

Na Rumo Logística, o coordenador de Inovação, Lucas Tomas, assim como Ely, da Randon, afirma que a empresa não atua acelerando startups, mas desenvolve um relacionamento direto com diversas aceleradoras. Ele afirma que para um empresa como a Rumo, que está em processo de amadurecimento e expansão do seu programa de inovação, esse relacionamento é fundamental para entender a linguagem das startups, possibilitando a realização de negócios reais. Para isso, a empresa conta com uma equipe robusta. Atualmente, a área de Inovação da Rumo é composta por 16 pessoas, incluindo uma estrutura de gerência executiva, duas gerências e três coordenações.

No que diz respeito ao relacionamento com as startups, o executivo garante que a companhia é uma grande proponente de iniciativas que possam otimizar a operação ferroviária. “Com a lógica do pensamento ágil – experimentar, falhar, aprender e repetir –, as startups conseguem propor soluções rápidas de baixa e média complexidade, de suporte à operação e em áreas de backoffice, por exemplo, mas de grande amplitude, gerando ganhos importantes, muitas vezes associados ao aumento de eficiência operacional e à diminuição de custos”, salienta.

Antes de aplicar a ferramenta, contudo, Tomas revela que a alguns critérios são analisados. Os principais são avaliar o quadro de colaboradores da startup e o potencial da sua solução, com o tamanho do mercado e os diferenciais em relação ao produto substituto. O coordenador destaca que o produto ou serviço não precisam estar necessariamente prontos, mas a tese de solução deve ser sustentada e parar em pé em uma discussão.

“Não buscamos num primeiro momento uma startup que atenda em larga escala nossos desafios, mas que consiga demonstrar um produto mínimo viável por meio de uma prova de conceito, validando a tese de resolução. Durante todo esse processo a Rumo presta todo o suporte técnico e financeiro, para maximizar as chances de sucesso”, garante. De acordo com ele isso ocorre pois o relacionamento entre uma grande empresa e as startups deve ser sempre num modelo ganha-ganha, gerando um ciclo virtuoso em todo o ecossistema de inovação. De forma geral, completa, o que a Rumo busca é um pensamento fora da caixa, utilizando novas tecnologias que solucionem desafios que até então pareciam impossíveis.

Soluções

Depois de identificadas as demandas e analisadas as propostas, aplicar as ferramentas é o desafio. Na TegUp, Neves divulga que já contratou três startups para a promoção de eficiência operacional da própria Tegma, sendo duas de logística. Além disso, já foram executadas 14 provas de conceito e há nove em andamento. “Temos um funil de avaliação, com alguns critérios preestabelecidos, que tem sido aprimorado a cada ano”, resume.

Na Brink’s, oito startups já foram aceleradas. A Botfy, por exemplo, desenvolveu plataformas de telemetria de baixo custo utilizadas para monitorar parâmetros de qualidade de cargas sensíveis, principalmente de cadeia fria. “Eles enriqueceram a proposta de valor dos serviços ofertados pela empresa ao possibilitar a coleta, a comunicação e o controle de dados da carga em tempo real. Com isso, podemos atender as demandas dos nossos clientes mais exigentes, inclusive da cadeia fria ou mesmo segmentos sensíveis, como farma”, cita.

Ely, da Randon
Ely, da Randon

Ely, da Randon, anuncia que a estratégia de conexão com startups iniciou em processos de back office e, aos poucos, está evoluindo e envolvendo outros segmentos. “Na logística e no supply chain elas são muito promissoras. Nós estamos experimentando algumas tecnologias de monitoramento e movimentação de materiais para entender qual atende melhor as nossas necessidades”, explica.

Hoje a Randon tem seis startups parceiras e algumas em avaliação ou em negociação. Na logística, o executivo cita a Sirros, que usa tecnologia bluetooth para o apontamento de localização interna de materiais ou produtos. O diretor de Planejamento e Recursos Humanos das Empresas Randon diz que a solução está sendo testada atualmente em uma das unidades da Randon Implementos, sem revelar a localização.

O executivo explica a dinâmica de aplicação. “Nossas ações e projetos com startups começam sempre com o trabalho inicial de entendimento e realização de uma prova de conceito, em uma área determinada, que chamamos de ambiente controlado para testes. A partir do teste, definimos um cronograma de expansão que pode ser massificado ou depender de avaliação interna de outras áreas para seguir de forma gradual e escalável internamente. Geralmente não são processos simples e precisam do envolvimento e do entendimento do nosso time interno”, descreve.

Tomas, da Rumo, afirma que a empresa busca startups independentes que estejam relacionadas ao supply chain. “Nossos desafios estão em diversas áreas do negócio, mas nosso foco está relacionado principalmente a soluções ligadas à indústria 4.0, como inteligência artificial, IoT e Big Data, além de segurança”. Para esses projetos, a empresa utiliza provas de conceito para chegar à solução, o que permite a realização de testes em pequenos grupos de controle. Assim, são feitos os ajustes necessários antes da aplicação em toda a operação, evitando cascatear erros e causar grandes impactos operacionais e perdas.

Tomas, da Rumo
Tomas, da Rumo

O coordenador de Inovação salienta, ainda, que a Rumo está sempre atenta a oportunidades disponíveis no mercado e que valem a pena investir. “Em qualquer movimento nesse sentido é realizado um business case detalhado, onde avaliamos o potencial da solução e do mercado, analisamos o time da startup e os demais aspectos relacionados à tecnologia em questão. São sempre análises customizadas e que superam os desafios específicos do projeto”, define.

Algumas ações já foram colocadas em prática. A empresa realizou duas provas de conceito com startups residentes, a 4vants e a Senscar. A primeira consistiu em testes de inspeção dos trilhos e da faixa de domínio. Utilizando um software de inteligência artificial, a startup realizou um teste de aero inspeção de 55 quilômetros em trechos da Serra do Mar no Paraná e na Serra de Santos, em São Paulo. Com uma câmera acoplada na locomotiva, o sistema gera um banco de imagens que detecta possíveis anomalias e otimiza o tempo de inspeção. A tecnologia permite identificar situações recorrentes na operação ferroviária, como bolsões, excessos de lastros, vegetações nos trilhos e invasões. Já a Senscar é uma startup de tecnologia que tem como objetivo contribuir com a redução dos acidentes de trânsito no Brasil, e a Rumo apoia o desenvolvimento de sensores que identificam o uso de álcool e drogas durante a condução de veículos.

Programas

A busca por startups no mercado, porém, deve seguir uma lógica. Para isso, as empresas desenvolvem programas ou firmam acordos com institutos ou organizações.

A TegUp, por exemplo, iniciou em 23 de abril de 2018 o 2º ciclo de seleção de startups com foco em logística. O programa, que teve a primeira edição em 2017, tem como objetivo identificar empresas inovadoras com elevado potencial de evolução, que já tenham superado o estágio inicial do negócio e estejam estruturadas para receber investimentos.

No ciclo do ano passado houve 64 startups inscritas, das quais 33 foram aprovadas, 12 selecionadas e quatro foram premiadas. A TegUp oferece estrutura de coworking para as participantes, mentoria para a consolidação da empresa e abre uma rede de contatos para novos negócios. Essa rede de relacionamento inclui clientes e parceiros da Tegma. Puderam se inscrever no programa startups que desenvolvem ferramentas tecnológicas para a logística nas áreas de transportes de cargas, gestão de frotas, pátios e armazéns, automação de atendimento e e-commerce. De acordo Neves, a iniciativa identifica e estimula startups que desenvolvem tecnologias complementares às que a empresa possui, o que permite criar sinergias para enfrentar novos desafios e ampliar a capacidade competitiva.

Criado em 2017, o Brink’sUp! é o programa de aceleração para startups da Brink’s. A iniciativa é realizada em parceria com a Liga Ventures, especializada em gerar negócios entre startups e grandes corporações. O programa está em sua terceira edição e este ano selecionará quatro startups que possuam sinergia com os temas relacionados a segurança, logística, varejo meios de pagamento e moedas, produtividade e inteligência.

No programa, cada startups terá quatro meses de aceleração, mentoria com executivos da empresa e um investimento de R$ 160 mil. As empresas também terão suas soluções apresentadas ao mercado e poderão ter suas inovações utilizadas na Brink’s.

Na Randon, a estratégia fica por conta do apoio à Hélice – Movimento pela Inovação em parceria com a ACE Cortex, braço de inovação corporativa da ACE, que atua como um transformador de inovação e ajuda a tornar corporações organizações exponenciais, mudando liderança e cultura com método e promovendo a conexão com o ecossistema global de startups.

Já a Rumo Logística celebrou, no último dia 7 de maio, um ano do ciclo de atividades no Distrito Spark CWB. O hub liderado pela companhia, ao lado do Conglomerado Financeiro Barigui e da Bosch, se tornou referência na capital paranaense no relacionamento com o ecossistema de inovação e incentivo a projetos de startups, institutos de pesquisa aplicada, universidades e outras instituições. No primeiro ano de atividade, o Distrito Spark CWB realizou 32 eventos internos sobre abordagens disruptivas e melhorias nos processos internos, além de reuniões de executivos.

Fábio Penteado