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Quarta-feira, 29 de janeiro de 2020 - 12h55
Carga aérea: bons ventos sopram em 2020
Concessionárias de terminais de carga mantêm os planos de investimento, direcionam aportes a melhorias e projetam um ano de movimentações em alta. Com o mesmo otimismo, transportadores apostam no aquecimento do segmento, aperfeiçoam suas estruturas e reforçam frequências de voos
Crédito: Gru Airport

O ano de 2020 promete para o mercado de carga aérea no Brasil. E não são promessas vagas ou sem uma fundamentação sólida. As expectativas dos próprios players do setor já se mostram bastante positivas. Prova disso são as ações e estratégias que a empresas – concessionárias aeroportuárias e companhias aéreas – começam a divulgar: investimentos retomados, perspectivas de movimentações em alta e projetos saindo do papel.

Pelo visto, e pelo que se ouve dos mais diferentes protagonistas do segmento, o ano que se inicia trará bons ventos para o mercado brasileiro, aquecendo as operações nos terminais de carga (Tecas).

O que vem por aí

Marcelo Mota, da Aeroportos Brasil Viracopos

Marcelo Mota, diretor de Operações da Aeroportos Brasil Viracopos, que administra o aeroporto localizado em Campinas (SP), afirma que a perspectiva é que a concorrência seja ainda mais acirrada no mercado. “A movimentação de cargas domésticas pode crescer um pouco mais que 2%. No entanto, esses dados ainda dependem de alguns fatores em torno da política nacional, já que entramos em um ano eleitoral e isso pode influenciar o humor do mercado e da economia.”

Para se destacar, implementar melhorias direcionadas aos clientes e crescer mais do que o previsto, o executivo divulga que neste ano deve investir na modernização de equipamentos, como novas empilhadeiras e transelevadores, e também em novas tecnologias, que serão adotadas para proporcionar mais agilidade e seguranças aos trâmites. “A empresa vem realizando uma série de aportes no terminal de carga desde o início da concessão, em 2012, e já foram investidos cerca de R$ 80 milhões no período”, diz.

O executivo lembra que entre as obras e melhorias já realizadas está a ampliação das câmaras frigoríficas. de 13 mil m³ para 21 mil m³, proporcionando aumento no atendimento à indústria farmacêutica e às empresas que importam ou exportam produtos perecíveis.

Leandro Lopes, do Riogaleão

No Riogaleão, no Rio de Janeiro, as estratégias também já estão traçadas. O gerente Comercial de Cargas do Riogaleão Cargo, Leandro Lopes, anuncia a abertura de duas áreas para operações de regimes aduaneiros especiais – entreposto aduaneiro e Depósito Alfandegado Certificado (DAC) –, que vão ao encontro da estratégia de um complexo logístico completo. “Uma das nossas principais expectativas para o mercado de carga aérea é que com essa capacidade de diferenciação, por meio de serviços personalizados, o aeroporto consiga ampliar ainda mais sua penetração com importadores de outros estados, principalmente com aqueles que buscam eficiência, rastreabilidade e qualidade para suas operações”, pontua.

Outras ações estão previstas. O executivo conta, que dando continuidade ao projeto do condomínio logístico do aeroporto fluminense, que teve início com a inauguração, no fim de 2019, do Riogaleão Log, serão realizados investimentos nos acessos ao complexo de cargas, buscando maior sinergia entre os negócios e trazendo ainda mais segurança aos usuários. “Para 2020, a expectativa é um aumento de 8% nas importações e de 3% nas exportações”, calcula Lopes.

Gustavo Figueiredo, do Gru Airport

No maior terminal aeroportuário do país, em Guarulhos (SP), o presidente do Gru Airport, Gustavo Figueiredo, anuncia que o foco será a obtenção de mais duas licenças importantes para o negócio de cargas.

A primeira é a certificação como Operador Econômico Autorizado (OEA), que representa o compromisso da empresa junto à Receita Federal em exercer suas atividades de importação e exportação de maneira regular e idônea. A outra licença é o Certificado de Boas Práticas de Distribuição e Armazenagem (CPDA), emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que atesta que o terminal de cargas do Gru Airport detém boas práticas de distribuição e armazenagem no procedimento de importação e exportação de cargas.

Ações e estratégias

Com as ações estipuladas, é preciso definir o escopo de trabalho. Mota revela que entre as principais ações estão ampliar rotas e frequências de voos de carga internacionais em Viracopos. “Em 2019, por exemplo, tivemos Korean e Qatar Airways Cargo como novidades. Além disso, a equipe do Teca vai participar de eventos de carga para afinar a relação com os clientes e apresentar modelos comerciais para a atração de novas empresas no setor de logística”, diz.

Quantos às estratégias, o diretor de Operações ressalta que elas passam pelo treinamento de todos os agentes do Teca e pela ampliação e aprimoramento da integração com os órgãos públicos que estão no aeroporto, como Receita Federal, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro), Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Polícia Federal e Anvisa. “É primordial que esses órgãos e o aeroporto estejam alinhados como o único objetivo de proporcionar mais agilidade, eficiência e segurança ao cliente de carga”, define.

Crédito: Viracopos

Lopes, do Riogaleão Cargo, ressalta que o objetivo é ampliar a atuação fazendo com que a empresa deixe cada vez mais de ser meramente um prestador de serviços de armazenagem, passando a atuar como suporte estratégico nos processos logísticos. “A diversificação vai desde a estruturação de serviços especiais ao cliente, como carregamentos especiais e recebimentos em prioridade, até a disponibilização de estruturas logísticas que atendam as mais diferentes operações: importação, exportação, carga doméstica, entreposto e armazenagem geral.”

Para isso, o gerente Comercial informa que o Riogaleão tem procurado parceiros pontuais para estruturar projetos-piloto e, a partir daí, estruturar soluções que sejam mais amplas ao mercado. “De qualquer forma, nossa percepção tem indicado que até clientes do mesmo segmento muitas vezes têm necessidades diversas, daí a nossa preocupação em customizar, cada vez mais, soluções logísticas, conforme a demanda de cada um. Nosso maior objetivo é ser percebido por nossos clientes cada vez menos como um mero fornecedor, mas sim como um grande facilitador do processo logístico”, completa.

Exercício de futurologia

Mercado promissor, investimentos mensurados e ações e estratégias traçadas. Com isso em mente, as companhias analisam o mercado de maneira macroeconômica.

“É preciso buscar novos mercados em expansão, tais como América do Sul, Ásia e África, por exemplo. Além disso, devemos estreitar ainda mais a relação com grandes empresas do entorno da chamada Dorsal Paulista: Campinas, Piracicaba, Sorocaba e Jundiaí. Isso seria realizado por meio de visitas tanto ao aeroporto quanto à sede das empresas. Viracopos também possui um plano para ampliar estruturas para atender a movimentação de cargas domésticas, em parceria com empresas como Azul Cargo e Modern Logistics”, descreve Mota.

O executivo analisa que, apesar do otimismo para 2020, há uma certa tensão também, por conta de configurações do mercado exterior, como a disputa entre China e Estados Unidos, a escalada de conflitos no Oriente Médio e a instabilidade política em alguns países da América do Sul. No entanto, avalia, é possível buscar alternativas, já que nos períodos de crise também se configuram oportunidades de negócios com outras regiões do mundo. Além disso, enfatiza, é preciso passar pela modernização e desburocratização de algumas legislações que possam incentivar o comércio exterior.

Para Mota, há uma grande expectativa para a retomada da produção industrial, elevando, assim, o transporte de peças para indústrias em geral, além da indústria de tecnologia e automotiva. No caso de Viracopos, também há o objetivo de ampliar o processamento de cargas das indústrias farmacêutica e metalmecânica.

No Riogaleão Cargo, a logística de carga aérea está se aprimorando nos últimos anos, principalmente após a assinatura pelo Brasil do acordo de facilitação com a Organização Mundial do Comércio (OMC). Lopes diz que o segmento de óleo e gás é uma das principais apostas para o segundo semestre de 2020. “Depois de vários anos em queda, 2019 apresentou números ligeiramente melhores do que os de 2018, o que nos leva a crer que 2020 será o início da recuperação desse mercado tão importante para o estado do Rio de Janeiro.”

Crédito: Riogaleão

Na opinião do executivo, a recuperação econômica no âmbito nacional, mas principalmente no Rio de Janeiro, é um grande desafio. Outro ponto que ele destaca como muito sensível na logística é a complexidade tributária e a guerra fiscal entre os estados, que provoca uma série de ineficiências.

Quanto à previsão e ao desempenho dos fluxos, o executivo diz que a operação de carga doméstica no Brasil tem uma limitação devido ao tipo de aeronave que realiza o transporte de passageiros internamente, que restringe muito a capilaridade da distribuição aérea, já que operação de passageiros é realizada por aviões narrow body, sem capacidade de transportar carga paletizada. “Na carga internacional, fatores como o câmbio, a recuperação econômica de segmentos chave e questões comerciais mundiais, como a relação entre EUA e China, determinarão os caminhos do mercado de carga aérea.”

As companhias aéreas fazem o seu papel

Otávio Meneguette, da Latam Cargo

Se os terminais de carga aérea se preparam para um ano de 2020 com números positivos, os transportadores não ficam para trás e investem para acompanhar o ritmo. O gerente sênior de Operações da Latam Cargo Brasil, Otávio Meneguette, afirma que a expectativa é que ano a ano a representatividade do transporte aéreo ganhe espaço entre os clientes no país, tendo em vista a gama de benefícios que esse tipo de transporte proporciona.

O executivo diz que internamente a empresa segue em constante aprimoramento das equipes, modernização dos terminais de cargas e otimização da frota. As ações comprovam o que diz o gerente. De acordo com ele, a Latam segue seu plano de negócios iniciado em 2014, que envolve a reforma e a construção de novos terminais, além de investimentos em segurança e tecnologia.

Para 2020, comunica, a Latam Cargo também pretende seguir com a expansão de sua oferta de capacidade de transporte de carga em diferentes rotas, tanto no mercado nacional quanto internacional. “Seguiremos ampliando e investindo na reforma de nossos terminais, além de investir ainda mais no transporte de produtos de maior valor agregado, como fármacos, autopeças e peças industriais, para reforçar a rentabilidade das operações”, revela Meneguette.

De acordo com o executivo, o foco da companhia é o investimento em operações sustentáveis. “Nos próximos anos continuamos observando com atenção os movimentos de demanda, que seguem dentro do previsto, mas com especial crescimento no mercado nacional, principalmente devido ao aumento de frequências pela Latam Airlines Brasil, que consequentemente, oferece mais opções para o transporte da Latam Cargo no país.”

Já como tendência, o gerente afirma que tem observado que o e-commerce segue ganhando força e, assim como produtos já consolidados no segmento, como o transporte de fármacos e eletrônicos, deve continuar sendo um setor forte em 2020. Além disso, o transporte de perecíveis também é uma meta no Grupo Latam Cargo este ano.

Crédito: Latam Cargo

Análises macroeconômicas também são realizadas por Meneguette. Globalmente, diz, ele enxerga um cenário desafiador. “Houve forte retração nas transações comerciais entre nações ao longo dos últimos meses e isso vinha contribuindo com a redução na demanda do mercado brasileiro por embarques aéreos de importação e exportação. Acreditamos que entraremos em um novo período de recuperação.”

No Brasil, o executivo considera que um dos grandes desafios para o segmento ainda é a subutilização do modal aéreo de cargas, com uma representatividade de aproximadamente 0,05% quando comparado aos modais rodoviário, ferroviário, fluvial e por oleodutos, enquanto nos Estados Unidos essa participação é de quase 1%. “O potencial do modal aéreo para o transporte de cargas, que é realizado em aviões cargueiros, bem como nos porões das aeronaves comerciais, é muito grande”, resume.

Fábio Penteado