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Terça-feira, 24 de março de 2020 - 14h06
Investimentos 2020: tudo como planejado, mesmo com o coronavírus?
Companhias de diferentes segmentos do setor logístico mantêm as estratégias e acreditam que, apesar da nova realidade devido ao surgimento do coronavírus, é preciso manter o plano de ação traçado para 2020 a fim de suportar as operações e atingir as projeções positivas previstas

O início do ano de 2020 se mostrava diferente dos anos anteriores para o setor logístico. Isso porque o mercado vislumbrava uma mudança de cenário, com certa estabilidade política, reformas sendo aprovadas pelo legislativo federal, como a da previdência, gerando um aquecimento da economia e perspectivas positivas para as operações. A expectativa era de que o Produto Interno Bruto (PIB) ficasse acima dos 1,1% computado em 2019.

A opinião era quase unânime de que já havia uma retomada dos investimentos e projetos estavam sendo novamente tiradas da gaveta. O surgimento do coronavírus (Covid-19) e a declaração de pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), entretanto, trouxeram um pouco de receio ao setor. Mas e agora, como as empresas irão se posicionar? Haverá cancelamento ou postergação das ações?

Para responder essa e outras perguntas fomos ao mercado e falamos com companhias que atuam em diferentes segmentos do setor logístico. Todos foram enfáticos. Apesar desse fato novo, os investimentos serão mantidos.

Tirando da gaveta

Vilela, da RV Ímola

Esse é o caso da RV Ímola, operador logístico especializado no setor da saúde, que projeta para este ano aplicar cerca de R$ 10 milhões no aprimoramento de seus serviços. “O setor de logística hospitalar cresce em torno de 20% ao ano. Dentro desse quadro, esperamos crescer organicamente de 15% a 20% e esse crescimento traz, sem dúvida, a necessidade de investimentos”, afirma o presidente Roberto Vilela.

As estratégias já estão traçadas. Uma delas será a instalação de um sorter para aumentar a agilidade e a produtividade. “Com relação à logística 4.0, que está em fase de implementação, sabemos que ela requer conhecimento especializado. Por isso, vamos promover treinamentos para os funcionários e pretendemos implantar uma escola de líderes, com o objetivo de desenvolver novas competências e habilidades na equipe”, divulga Vilela.

O executivo acredita que a economia está reagindo em 2020, por isso, além dos R$ 10 milhões, prevê investir também na expansão dos negócios nas regiões Nordeste e Sul, mais especificamente no estado de Santa Catarina. “A maior parte dos investimentos será direcionada à área de operações. Empresas como a nossa, que prestam serviços para o setor da saúde, trabalham com um produto muito valioso e muito frágil – medicamentos, incluindo os controlados, como vacinas e remédios importados. Logo, temos obrigatoriamente de ter operações com alto padrão de qualidade quanto ao armazenamento, distribuição e gestão hospitalar. O grande desafio é a capacidade de gerenciamento dessas três frentes”, pontua.

O diretor Econômico-Financeiro e de Relações com Investidores da Santos Brasil, Daniel Pedreira Dore, aponta pontos de cautela. Para ele, 2020 no geral se mostrava um ano de retomada dos investimentos, por causa do maior grau de confiança da iniciativa privada no crescimento da economia doméstica. O advento imprevisível e extraordinário do coronavírus, porém, alterou esses fundamentos, ao menos no curto prazo, com o PIB já sendo revisado para baixo pelo consenso de mercado. “A magnitude dos impactos provocados pela pandemia ainda é incerta, de difícil quantificação. Apesar disso, no caso específico da Santos Brasil, pretendemos manter os investimentos considerados estratégicos para o desenvolvimento do nosso negócio, visando o posicionamento de longo prazo da companhia”, afirma.

O executivo revela que as expectativas sempre se ancoram em fundamentos estruturais que possam induzir o crescimento econômico, a exemplo de reformas nacionais – previdência, tributária e trabalhista – que reduzam o peso do estado sobre as empresas e fomente um ambiente propício ao investimento, oferta de crédito para financiar investimentos, inclusive via mercado de capitais, e também demanda projetada crescente.

“Nesse sentido, as expectativas iniciais para 2020 foram similares ao ano de 2019. Mas trata-se apenas de uma fotografia. O filme acontece ao longo do exercício e vamos nos adaptando a ele. De qualquer modo, a visão da Santos Brasil é de longo prazo, de perenidade de seu negócio, portanto sempre avaliamos investimentos num horizonte mais longo”, conta.

Dore divulga ações que já estão em prática. O projeto de modernização e ampliação do Tecon Santos (SP), por exemplo, prevê investimentos de R$ 1,5 bilhão em valores atualizados. Isso permitirá que o terminal receba simultaneamente até três navios New Panamax, aumentará a sua eficiência operacional e energética, a velocidade e o fluxo da operação, além de ampliar em ao menos 20% a capacidade de movimentação do terminal, de 2 milhões de TEUs para 2,4 milhões de TEUs por ano. A previsão da empresa é investir apenas este ano mais R$ 250 milhões no terminal localizado o litoral paulista.

Já neste mês de março começam a operar dois portêineres, 30 reboques e 30 terminal tractors para a movimentação de cargas no pátio.  Apenas essas aquisições somam R$ 100 milhões. Os equipamentos vieram a bordo do navio Zhen Hua 23 praticamente montados e chegaram ao Brasil depois de uma jornada de 50 dias que teve início no Porto de Shanghai, na China, em 26 de dezembro.

Na Autonomy Investimentos, gestora de fundos de private equity real estate, o CEO, Roberto Miranda de Lima, também segue a linha mais otimista. “Nunca paramos de buscar oportunidades. Observamos uma crescente demanda desde o final de 2019, o que impulsionou os investimentos. Projetos em boas localizações foram entregues, como o Golgi Rodoanel Dutra e o Golgi Jundiaí, atualmente em fase de locação. Somos otimistas para 2020. Seguiremos fortes na busca de novas oportunidades para aquisições e deveremos iniciar o Golgi Cajamar e a segunda fase do Golgi Jundiaí”, diz.

Balognese, da Sequoia

Na Sequoia, operador logístico que atua nos setores de e-commerce e tecnologia, o cenário é similar. O diretor executivo Comercial, Marcos Bagnolesi, calcula que para este ano estão estimados investimentos entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

“O foco é continuar aumentando a operação. Já estamos olhando novas empresas para possíveis aquisições. O ano de 2020 começou com grandes expectativas mercadológicas, apontando um primeiro trimestre na Sequoia mais de 20% acima de 2019”, avalia.

O que esperar

Mas e agora, com o surgimento do coronavírus, que estratégias devem ser adotadas e o que irá suportar as operações para o crescimento previsto? Vilela aposta que os setores aéreo e ferroviário devem ter um papel fundamental a partir de agora e possivelmente irão apresentar melhor desempenho este ano, com a demanda sendo puxada pela agroindústria e pela saúde.

Dore acredita em um crescimento mais longo e sustentável do Brasil – apesar de mais moderado –, com reformas estruturantes sendo implementadas e ambiente regulatório mais estável e liberal, capaz de destravar o potencial do setor portuário brasileiro, tornando a alocação de capital mais eficiente.

“A Santos Brasil continuará investindo na melhoria contínua de seus ativos, visando a excelência de suas operações, ampliação dos serviços ofertados e aumento de produtividade, inclusive por meio de inovação e automação de processos, sistemas e equipamentos”, garante. Ainda segundo ele, a expectativa é a manutenção da sua trajetória de crescimento e a intensificação do ciclo de investimentos em seus ativos, visando a excelência de suas operações, ampliação dos serviços ofertados e aumento de produtividade.

Lima afirma que a partir da retomada econômica e com o consequente crescimento das atividades é necessário profissionalizar e desenvolver o setor. “As companhias devem estar focadas no seu negócio principal e, por isso, somos facilitadores. Queremos cuidar de parte importante do patrimônio das empresas ocupantes, os ativos físicos, proporcionando-lhes segurança, produtividade e eficiência e, assim, favorecendo a economia de dinheiro e tempo”, salienta.

O executivo conta que o Brasil possui um estoque de galpões logísticos muito antigo, com custos de ocupação e manutenção altos. Por isso, revela, há um grande mercado em potencial, tanto que, nos próximos três anos, a expectativa da Autonomy é dobrar o tamanho de sua área locável. “Acreditamos muito no segmento de condomínios logístico de alta qualidade com ênfase na eficiência e na sustentabilidade”, resume.

Cenário passado

O ano de 2020 mostra-se realmente diferente e os números computados nos anos anteriores mostram isso, apesar de as empresas considerarem os resultados satisfatórios.

A RV Ímola divulga que investiu R$18 milhões em 2019 e contabilizou um crescimento de 10% frente a 2018, atingindo uma receita líquida de R$ 140 milhões. “Estamos extremamente satisfeitos com esses números, que refletem o posicionamento estratégico da RV Ímola no mercado. Constatamos que o faturamento está acompanhando nossos investimentos e este é um sintoma de que estamos no caminho certo”, diz Vilela.

Dore, da Santos Brasil

Entre 2018 e 2019, a Santos Brasil investiu R$ 60 milhões na ampliação e modernização de seu terminal de contêineres em Vila do Conde (PA), em obras civis e equipamentos de pátio e cais. Ainda no ano passado, R$ 150 milhões foram destinados à ampliação do cais acostável em 220 metros, totalizando 1.510 m, sendo 1.200 m no Tecon Santos e 310 m no Terminal de Veículos (TEV), estrutura ao lado.

Dore informa que no Porto de Santos, onde está o  principal ativo da companhia, o crescimento foi de 10,8% na movimentação de contêineres no consolidado do ano de 2019. O desempenho foi comemorado. “No mesmo período, o porto caiu 0,3%. Ou seja, não apenas a empresa ganhou market share como também agiu tempestivamente para controlar custos e despesas tão logo o cenário macroeconômico mostrou-se mais desafiador do que o inicialmente esperado”, pontua.

Lima, por sua vez, diz que o foco esteve no grau de satisfação que os empreendimentos desenvolvidos pela Autonomy podem proporcionar aos clientes. “Os condomínios logísticos são projetados e construídos com especificações técnicas de alta qualidade, buscando mais eficiência por meio de um baixo custo operacional, padrão rigoroso de segurança, fácil acesso e próximo a importantes centros urbanos, tudo isso para atender os mais exigentes inquilinos”, ressalta.

Já Bagnolesi afirma que a Sequoia vem investindo tanto em tecnologia e estrutura quanto em aquisições ano após ano. “Os últimos anos tiveram investimentos em todas as frentes, focados em suportar o nosso negócio e melhorar a experiência do serviço oferecido ao cliente. Esse cenário nos ajudou a garantir um crescimento representativo nos últimos anos e a manter esse mesmo ritmo para 2020.”

Fábio Penteado