Terça-feira, 28 de abril de 2020 - 15h31
A hora e a vez da logística expressa
O atual cenário de isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus escancarou a importância das operações logísticas expressas. Empresas do segmento, já preparadas para atender ao aumento imediato na demanda, vislumbram ainda mais oportunidades e anunciam reforços em suas estruturas e também novos serviços

O segmento de entregas expressas nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos meses. E os motivos são óbvios. A pandemia de Covid-19 declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11 de março obrigou que fossem tomadas diversas medidas de isolamento social. Os resultados foram imediatos. Impedidos de circular e com parte do comércio fechado ou trabalhando apenas com entregas, os consumidores adotaram mais do que nunca as compras online.

E é aí que entram as empresas de logística expressa. De nada adiantaria, porém, a demanda crescer se as companhias não estivessem capacitadas a atender de forma eficiente. Coletar e entregar nos prazos e em conformidade são apenas alguns dos diversos aspectos que envolvem a atividade.

Protagonistas num momento de convulsão econômica e social, as companhias mostram que planejar, aplicar estratégias pontuais e aproveitar as oportunidades são deveres de casa não apenas nesse segmento, mas em todo o setor de transporte.

Evolução

Vitor, da DHL Express

Estar na vanguarda parece realmente fazer parte do DNA dessas empresas. O gerente de Operações da DHL Express, Amaury Vitor, explica que a empresa nasceu para atender uma necessidade do mercado e criou um nicho de transporte até então inexistente: a entrega expressa internacional de remessas, primeiramente de documentos e em seguida de pacotes de uma forma geral. Desde então, conta, a DHL está atenta a todos os cenários e movimentos desse negócio. “Fazemos isso observando as tendências por meio de pesquisas, novos hábitos dos consumidores e empresas, políticas governamentais, novas tecnologias aplicadas e, principalmente, ouvindo e interagindo com nossos clientes”, diz.

O gerente de Expansão da Lalamove, Philippe Rambaud, afirma que no Brasil o mercado de entregas expressas vem se tornando mais importante e mais requisitado a cada dia. Segundo ele, muitas empresas perceberam que hoje podem atingir um número maior de pessoas ao oferecer serviços de entrega. Além disso, a popularização do e-commerce e dos smartphones contribuiu para o aumento da demanda por esse tipo de serviço.

No entanto, o executivo entende que a estruturação do processo logístico para uma empresa pode ser uma tarefa intimidadora, especialmente para as de menor porte. E é justamente nesse contexto que a Lalamove chegou ao Brasil. “Existem similaridades socioeconômicas entre o país e outros mercados que atuamos na Ásia. Assim como ocorre por lá, aqui há muitos desafios logísticos que precisam ser superados. Queremos facilitar a vida dos negócios e ajudá-los a prosperar, oferecendo uma forma muito simples de transportar o que eles precisarem”, pontua Rambaud.

O gerente destaca que há outras semelhanças, como uma alta porcentagem da população com acesso à internet e o aumento da exigência dos consumidores, que querem que seus produtos cheguem até eles o mais rápido possível. “Claro que o Brasil é um local com outras características únicas, mas estamos nos adaptando bem ao mercado.”

Diogo Travasso, CEO da Picap, tem uma visão bastante clara sobre o negócio. Para ele, há um desenvolvimento natural do setor, até pela mudança gradual dos hábitos de consumo e pela transformação do varejo como um todo no mundo digital. “Agora, já esperamos um nível de serviço instantâneo em tudo, seja na mensagem de texto ou na comida que pedimos. Não é diferente com outros produtos. Aos poucos, a nova norma vai ser o seu frete demorar apenas algumas horas para entregar pacotes pequenos”, acredita.

Juliani, da Flash Courier

O CEO da Flash Courier, Guilherme Juliani, segue a mesma linha de Travasso. “Nos últimos anos, vivemos um crescimento sem precedentes, o que nos permitiu investir em novos sistemas e em automação. Isso nos proporcionou começar novos serviços para alavancar ainda mais o crescimento. Nesse começo de 2020 especificamente, todas as empresas vivem um momento diferente. As adaptações têm que ser tão rápidas e fortes quanto as quedas dos mercados, mas sem paralisar o planejamento estratégico da empresa”, explica.

De acordo com Juliani, nesse cenário as entregas expressas têm sido vitais, já que muitas mercadorias antes compradas em lojas estão sendo compradas por e-commerce, como insumos de primeira necessidade, e isso só está sendo possível devido ao avanço da tecnologia e a um planejamento sério feito pelas empresas de entregas expressas.

Estratégias e ações

O cenário desafiador pelo visto não causa medo nas companhias de logística expressa. E os desafios não são poucos. A DHL Express, por exemplo, observa alguns pontos de atenção advindos da expansão do comércio eletrônico. O primeiro é a necessidade de manusear enormes quantidades de produtos em janelas de tempo restritas. O segundo ponto está relacionado à entrega, que deve ser efetuada ao cliente no menor tempo de trânsito possível, sem restrição de localização. “É necessário buscar soluções estratégicas, extremamente bem planejadas, definindo equipamentos e tecnologias adequadas para atender às exigências e se manter competitivo”, explica Vitor.

É necessário, também, acredita o executivo, investir cada vez mais na capacitação da força de trabalho, firmar acordos com fornecedores e estabelecer e acompanhar indicadores de performance a fim de garantir a correta infraestrutura para realizar a operação de forma segura e com o menor custo.

Na DHL Express, agora, a fase é de testar a utilização de armários eletrônicos localizados em estações de metrô como mais uma opção para os clientes receberem suas remessas de forma confortável e conveniente. A empresa também está oferecendo scanners aos couriers, com tecnologia que permite, por exemplo, disparar um e-mail ou mensagem de texto, via SMS, para o remetente assim que o cliente final assinar o recebimento da entrega. Há, ainda, o DHL On Demand (ODD), que permite ao cliente final customizar a sua entrega.

Rambaud, da Lalamove

A Lalamove não fica atrás e destaca como grande inovação trazida para o mercado brasileiro o serviço de utilitários e VUCs para entregas de última milha via plataforma. “Antes da nossa chegada, para fazer uma entrega com veículos do tipo, havia três caminhos principais: usar uma transportadora, criar uma frota própria ou entrar em contato individualmente com motoristas pelo WhatsApp ou telefone, de forma informal. Surgimos como uma alternativa simples e prática para empresas de todos os tamanhos”, ressalta Rambaud.

Outro destaque é o serviço de utilitários com isolamento térmico ou refrigeração, desenvolvido para atender aos pedidos das empresas que utilizam as soluções. “Vemos muito potencial nesse serviço. Acreditamos que ele será muito útil para os clientes que precisam transportar produtos em uma temperatura específica”, resume. Outras novidades são o Carreto 8 Horas e o Utilitário 6 Horas, que proporcionam entregas à vontade por um preço fixo durante um determinado espaço de tempo.

Travasso, da Picap

Na Picap, Travasso destaca como estratégia a agilidade. “Agora, mais do que nunca, é preciso se adaptar em tempo recorde. É uma questão de sobrevivência também para as empresas. Para isso, o mais importante tem sido não ter medo de arriscar, quebrar e aprender. É isso que vai validar nossas hipóteses, nossos produtos e gerar tração.”

Para ele, o mais inovador nesse momento é entender que o mundo está passando por uma situação atípica não só profissionalmente, mas também no âmbito pessoal, sendo preciso, então, trabalhar a empatia, o que não deixa de ser uma inovação.

Juliani, da Flash Courier, afirma que uma das principais ações da empresa é observar como atuam e operam as maiores transportadoras do mundo, captar as ideias e adaptá-las à realidade aplicando de forma eficiente no Brasil. Recentemente, a empresa realizou um investimento de mais de R$ 16 milhões em suas estratégias de expansão, inovação e automação logística.

Esse projeto contemplou a aquisição de 220 AGVs, além de três esteiras, sendo uma delas uma esteira cross belt de 800 saídas, capacidade três vezes maior que o equipamento usado anteriormente. Hoje, conta o executivo, em um determinado galpão onde trabalham 35 pessoas, a capacidade de roteirização, em média, é de 6 mil pacotes por hora. Com os robôs e a esteira, o número poderá chegar a 17 mil pacotes por hora.

A empresa também aposta em sistemas de averbação e emissão de CT-e, que permitirão a toda a malha de franquias captar clientes em todo Brasil, seguindo o compliance das regras da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a abertura de filias nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Bahia.

Mercado e expectativas

As iniciativas das companhias que atuam no segmento expresso refletem e impactam positivamente no mercado de forma geral. “Somos vistos como consultores e genuínos parceiros, que fazem parte da cadeia de suprimentos e que podem contribuir de forma decisiva para a redução do custo total logístico na medida em que há um trade off interessante entre o valor do frete, os custos de estoque, os custos das rupturas e o nível de serviço prestado”, analisa Vitor, da DHL Express.

O executivo conta que nos laboratórios de inovação da empresa, localizados nos Estados Unidos e na Alemanha, diversas novas tecnologias estão sendo testadas, como drones para entregas e realização de inventário, roteirizadores integrados e inteligentes, telemetria, dispositivos eletrônicos de segurança, RFID, impressoras 3D, veículos elétricos e, principalmente, aplicação intensiva da robótica para tarefas repetitivas.

Para o gerente de Operações, no Brasil ainda existem boas oportunidades para melhorar a experiência do cliente quanto à entrega final, o last mile, por meio de novos canais e formas de distribuição urbana. O uso de veículos elétricos e outras opções que menos agridem o meio ambiente também são, na opinião do executivo, tendências que as empresas do segmento precisam colocar na agenda de forma prioritária.

Rambaud, da Lalamove, revela que no último mês de março a empresa encomendou uma pesquisa e o resultado mostrou que os serviços disponíveis são muito valorizados pelo mercado. “Estamos ajudando muitas empresas a aumentar sua base de consumidores e ganhar eficiência nas entregas. A mesma pesquisa mostra que a praticidade é o principal valor que os clientes enxergam na Lalamove”, diz.

Em relação à imagem junto à concorrência, o executivo acredita que a visão geral é que as plataformas de entregas trouxeram soluções muito interessantes ao mercado, facilitando a vida do consumidor final, que ganhou uma alternativa simples para receber quase qualquer coisa em casa, e trazendo oportunidades de negócios.

E já existem novidades que reforçam esse pensamento. “Vamos começar as entregas com minivans e SUVs, serviço que será lançado até o fim deste mês de abril de 2020. E nos próximos três meses também vamos incluir caminhões de 2,5 toneladas na plataforma”, adianta.

Rambaud acredita que uma tendência do setor seja a integração de serviços inovadores que atuam em todas as etapas da logística. “Creio que, no futuro, uma empresa poderá contar com uma rede integrada de aplicativos que permita a esse negócio entregar produtos com uma rota de entrega que começa em qualquer lugar do mundo e termina em qualquer outro ponto do planeta, em veículos como VUCs, utilitários, navios e aviões. Tudo isso em questão de segundos ou de minutos para solicitar o serviço, que seria concluído em apenas alguns dias.”

Travasso, da Picap, destaca que quanto mais o mercado adere às entregas expressas, mais elas deixam de ser um diferencial e se tornam obrigatórias. “É a expectativa do consumidor. E é importante que todos consigam entregar esse nível de serviço, seja a um marketplace online gigantesco ou a venda da esquina, pra ninguém ficar pra trás. Por isso, nosso serviço é tão importante para o pequeno comércio.”

Já Juliani, da Flash Courier, lamenta que as empresas do setor ainda não sejam tão valorizadas quanto deveriam. “Infelizmente parte do mercado ainda nos considera apenas um fornecedor. Mas existem clientes que já perceberam que precisamos ser posicionados como um departamento da empresa e inclusive nos chamam para reuniões estratégicas, colocando nossas opiniões e sugestões no centro das decisões operacionais. Isso nos permite ter uma segurança muito maior de investir e efetivamente construir um negócio moldando as operações em conjunto.”

Fábio Penteado