Terça-feira, 4 de agosto de 2020 - 16h23
Locação de ativos: impulsionada pela pandemia, modalidade veio pra ficar
Ainda subutilizada no Brasil, a locação de veículos e equipamentos – de caminhões extrapesados a transpaleteiras –, tem ganhado força no mercado e registrou alta durante a pandemia do coronavírus, período em que muitas empresas precisaram redimensionar suas operações e cortar custos

Optar pela locação de ativos em detrimento da aquisição é uma decisão que abrange diversos fatores e tem relação íntima com a realidade de cada companhia. Os investimentos realizados na compra de um caminhão ou de um equipamento de movimentação não são baixos e, quando falamos de frotas inteiras, os valores sobem exponencialmente. Dimensionar com exatidão as necessidades quanto a esses ativos é muito importante para não amargar prejuízos futuros com mudanças repentinas nas operações, que podem ocorrer por inúmeros motivos.

Operações mais curtas e que demandam maior flexibilidade apresentam as características que mais se encaixam na modalidade de locação, enquanto empresas de logística que possuem contratos mais longos podem optar pela compra dos ativos sem temer perdas oriundas de alterações na operação. Justamente por isso, a pandemia do coronavírus, que virou alguns mercados de cabeça para baixo, fez com que a procura pela locação crescesse nos últimos meses.

Fábio Leite, diretor Comercial da Unidas Trucks, conta que recentemente a companhia observou um aumento significativo de solicitações de propostas, que chegou a ser superior a 50%. “A pandemia do novo coronavírus, que afetou o cenário econômico do país e a disponibilidade de crédito, reduziu o acesso a financiamentos e surpreendeu os planos de muitas empresas, pois ninguém poderia prever essa situação”, diz o executivo.

A Unidas Trucks oferece a locação de veículos que vão desde veículos utilitários que demandem implementação, passando por todos os tipos de caminhões, como leves e médios para grandes centros urbanos, até os pesados e extrapesados para segmentos mais específicos. “Também somos especialistas em implementos rodoviários, de um simples baú até rodotrens e treminhões, nas suas mais variadas diversificações. Oferecemos ainda em nosso portfólio, de forma complementar, a opção de locação de máquinas e equipamentos.”

O executivo enaltece que, além de disponibilizar a frota, a companhia realiza um trabalho de gestão e otimização dela, com ênfase na disponibilidade e segurança, com alto nível de customização, independente do segmento, localização geográfica da operação ou severidade. “Entre os serviços estão a gestão da documentação, da manutenção preventiva e corretiva, serviços de guincho, pneus, telemetria e seguros. São pacotes que podem ser montados de acordo com a necessidade de cada cliente. Outro diferencial é podermos ofertar uma modalidade de compra da frota própria do cliente e apoiá-lo ainda mais no reforço e necessidade de caixa.”

Vaz, da Marbor

Para Renato Vaz, diretor da Marbor Frotas Corporativas, a maior procura pela locação está bastante ligada também ao crescimento das compras no comércio eletrônico durante o período de isolamento social. “Para os setores que já vinham praticando a locação, como as construtoras, entendemos que o crescimento da demanda tenha vindo pelo desenvolvimento do mercado, com mais projetos. Mas percebemos um aumento na demanda ligada às operações logísticas, que entendemos ser fruto do crescimento do e-commerce”, analisa o executivo.

A Marbor também oferece ao mercado a locação de diversos ativos, como utilitários, furgões, caminhonetes, caminhões e empilhadeiras, incluindo implementos. “O projeto de locação precisa entender e respeitar as necessidades de cada cliente, ou seja, uma empresa locadora precisa disponibilizar os veículos adequados à operação, sejam eles quais forem”, exalta Vaz.

Mercado em expansão

Apesar de a crise sanitária dos últimos meses ter aumentado a procura pela locação de ativos, os players que atuam no setor afirmam que a modalidade já vinha se apresentando como tendência mesmo antes dos efeitos do coronavírus na economia e que a necessidade de rever os custos somente acelerou um movimento que já estava em crescimento no país.

Michelon, da U-Rent

“Alugar empilhadeiras e veículos tem se tornado uma prática constante entre os empresários, donos de depósitos, estoques e empresas de transporte. Afinal, são muitas as vantagens de locar um equipamento de grande porte em vez de comprar”, diz Regis Michelon, sócio da U-Rent. “Comprar um equipamento requer disponibilidade de tempo e capital. Já no aluguel, os gastos são extremamente menores e o processo é infinitamente menos burocrático, fazendo com que seja mais barato e prático”.

A U-Rent também opera com a locação e a venda dos mais diversos ativos, de carretas baú, frigoríficas, sider e carga seca até carretas silo, além de empilhadeiras e demais equipamentos de movimentação. Michelon destaca justamente a flexibilidade proporcionada pela locação como um dos diferenciais que fazem as empresas de logística buscarem cada vez mais essa modalidade. “Os contratos de aluguel são feitos de maneira singular, detalhando o modelo de serviço, desde as configurações do equipamento até o tempo de locação. Assim, é possível ter uma perspectiva dos gastos e se organizar financeiramente, fechando o contrato apenas durante o período em que o equipamento é necessário e há capital disponível”, argumenta.

Gustavo Couto, CEO da Vamos, explica que a economia gerada em um contrato de aluguel de cinco anos, por exemplo, chega a 30% quando comparada ao valor gasto na compra do mesmo equipamento. “Essa é uma tendência que não é estimulada pela pandemia, mas pela necessidade do cliente de buscar maior produtividade, melhor alocação de capital, menor endividamento e redução de custos. Isso tem feito com que as empresas, cada vez mais, busquem o modelo da locação para a renovação das suas frotas, efetivamente trazendo maior eficiência para suas operações, com veículos mais modernos, com menores custos de manutenção e de consumo de combustível e maior disponibilidade. A pandemia é um momento para as empresas repensarem seus negócios, avaliarem alternativas para se tornarem mais eficientes e reduzirem seus custos. E o modelo de locação pode ajudar nesse sentido”, diz.

O Grupo Vamos atua com locação de caminhões, cavalos mecânicos, máquinas e equipamentos, buscando também atender aos clientes de forma customizada. As opções vão desde caminhões leves tipicamente urbanos, passando pelos médios e pesados, até os extrapesados para uso rodoviário ou fora de estrada.

Couto explica que existem vários motivos que fazem com que a procura pela locação venha crescendo. “A primeira vantagem é financeira, mas há ainda a possibilidade de se incluir a manutenção no contrato, o que cria a previsibilidade do custo durante todo período de uso. Isso permite às empresas focar nas suas atividades fim, deixando a gestão da frota por nossa conta. Por último, o aluguel ainda elimina outro problema: a desmobilização do equipamento após o uso. Muitas vezes um ativo fica parado no pátio esperando ser vendido, perdendo valor e, no final das contas, ainda sai por um preço abaixo do pretendido.”

Michelon concorda, e indica ainda outros benefícios. “Não há gastos com manutenção e o auxílio técnico é especializado. Em caso de defeito com o equipamento alugado, a locadora disponibiliza técnicos para dar apoio aos locatários, bem como todas as peças necessárias para o reparo. Por possuir o controle de todos os equipamentos alugados, seja sobre suas especificações ou suas configurações, são realizados também atendimentos telefônicos e online, facilitando o reparo de quaisquer defeitos que possam surgir.”

O executivo destaca também a facilidade na substituição do equipamento. “Em caso de defeito que não possa ser resolvido por meio da assistência técnica, todo o processo de substituição é muito mais fácil quando se escolhe alugar uma empilhadeira, por exemplo. Esse é outro procedimento a cargo da locadora, o que poupa o empresário do trabalho gerado por esse mesmo processo quando o equipamento é comprado”, diz.

“Uma grande vantagem é propiciar ao cliente que ele consiga focar 100% do seu esforço na gestão de seu negócio principal, sem a necessidade de se endividar ou mobilizar capital se preocupando com a gestão e disponibilidade de frota”, acrescenta Leite, da Unidas Trucks.

Tendência

O fato de o mercado de locação de ativos para o segmento logístico já estar em ascensão mesmo antes do surgimento do coronavírus faz com que as empresas do setor acreditem que o crescimento da procura se mantenha mesmo quando a pandemia passar.

Vaz, da Marbor, acredita que o sistema de locação veio para ficar. “É uma opção mais adequada às novas demandas, que ajuda as empresas a evoluírem nas suas operações e gestão. Para os empresários que ainda não estudaram ou analisaram a locação como opção para sua frota, recomendamos que se dediquem a isso. A locação está crescendo não por modismo ou por uma oportunidade pontual levantada pela crise. Trata-se de um novo modelo de negócios que pode gerar ganhos importantes a quem o adota.”

Ele conta que, para que as empresas tenham mais clareza sobre as vantagens da terceirização de frotas, a Marbor desenvolveu, com o apoio de professores de economia da Universidade de São Paulo (USP), uma ferramenta chamada Conta em Foco, que compara os custos totais dos equipamentos próprios aos dos alugados. “Basta preencher um formulário com os dados dos veículos que a empresa possui ou pretende comprar, como valor de aquisição, custo financeiro, custos com impostos, licenciamento, seguro e custos administrativos. A partir daí a planilha gera automaticamente todo o fluxo de caixa da operação, calculando o valor presente líquido (VPL), e demonstra qual a melhor opção para aquela empresa”, explica.

“A locação de caminhões vem crescendo em todos os setores, já que os benefícios intrínsecos independem diretamente da atividade que o cliente desempenha. Mas nessa fase inicial de conhecimento dessa solução podemos afirmar que os setores mais demandantes são os do agronegócios, construtoras e operadores logísticos”, acrescenta o executivo.

Couto, da Vamos

Couto também afirma que a locação de caminhões ainda é um mercado pouco conhecido no Brasil, mas que apresenta muito potencial. “Durante algum tempo ela ficou restrita às grandes empresas, mas hoje é uma alternativa para renovação de frota para empresas de diferentes portes. Num país com uma frota média tão antiga quanto a nossa, com 20,7 anos, a diversidade das necessidades é imensa e a locação consegue atender a todas elas. Hoje percebemos que pequenos, médios e grandes frotistas de diferentes setores estão buscando mais a locação.”

O CEO da Vamos também acredita que a procura elevada deve permanecer mesmo quando os efeitos da pandemia passarem. “Acreditamos que a locação é um mercado que veio para ficar no Brasil, assim como já é comum na Europa e nos Estados Unidos. O nosso modelo de negócios é diversificado e se enquadra bem nos diferentes setores da economia brasileira. Hoje temos mais de 14 mil equipamentos alugados nos mais diversos segmentos: agronegócios, transporte e logística, varejista e serviços como telecomunicações, distribuição de energia elétrica e coleta de lixo.”

De acordo com Leite, a procura elevada pela locação durante a pandemia ocorreu especialmente por conta da maior consideração por parte de segmentos que antes não analisavam essa hipótese, mas a tendência é que esse movimento persista. “Setores mais resilientes à pandemia, ou aqueles considerados serviços essenciais, aceleraram a expansão ou renovação de frotas. Um bom exemplo é o setor de transporte de cargas expressas, especialmente no last mile, mas já temos estatísticas indicando o crescimento da terceirização de frotas de pesados no Brasil. Projetamos um aumento progressivo na porcentagem da frota que passará a ser locada no país.”

Atualmente, os setores que mais utilizam os serviços da Unidas Trucks são farmacêutico, de alimentos e bebidas, óleo e gás, telecomunicações, saneamento, eletricitário, construção, florestal e agronegócio. “Entre nossos clientes temos as próprias indústrias e embarcadores, prestadores de serviços e transportadores. Os negócios têm crescido de maneira exponencial ao longo do ano e nossas expectativas são muito animadoras”, finaliza o executivo.

Fernando Fischer