Terça-feira, 18 de agosto de 2020 - 11h49
Diversificação dos serviços: oportunidades demandam planejamento e estratégias pontuais
O cenário logístico exige tomadas de decisões imediatas e, com as alterações pelas quais o mercado passou, novas possibilidades foram apresentadas aos players. É preciso, porém, avaliar a real necessidade e as consequências de expandir e adotar inovações nos negócios

O debate quanto ao modelo de atuação das empresas de logística já passou por diferentes momentos. Já foi ressaltada, por exemplo, a importância de operações especializadas em determinados setores e que isso era o grande diferencial. Em outro momento foi mostrado que atuar junto a diferentes setores mostrava-se a decisão mais correta. Uma coisa, porém, é certa: o mais importante sempre foi ser eficaz na prestação de serviço, seja trabalhando com diversas empresas de um mesmo setor e junto a companhias correlatatas ou atuando de forma menos especializada e pulverizada quanto aos setores atendidos.

Mas o cenário atual trouxe à tona alguns desafios, e as novas formas de operar no setor logístico são as mais variadas possíveis. De novos serviços à expansão da carteira, as empresas tiveram que se readequar e pensar em alternativas para superar as limitações impostas pelos reflexos causados pela pandemia da Covid-19. O mercado nos dias de hoje exige a tomada de ações imediatas e não aceita tentativas de acertos e erros. Apesar disso, oportunidades surgem e as empresas aproveitam para expandir.

A situação do setor

O diretor executivo Comercial da BBM Logística, Agapito Pereira dos Anjos, afirma que se trata de um mercado em que alguns segmentos foram bastante impactados pela questão da pandemia. Nesse sentido, ele acredita que as empresas que operam em segmentos específicos ou em nichos de negócios mais impactados estão sendo mais fortemente afetadas.

Por outro lado, continua, vários mercados se mantiveram aquecidos ou até aumentaram suas demandas. Como exemplo, ele cita as atividades logísticas voltadas para a exportação, operações portuárias e de conexão modal. “Transporte de commodities também é uma área que tem surpreendido. Além disso, as operações logísticas e de transporte para segmentos considerados essenciais e operações de e-commerce tiveram grandes demandas”, conta.

Outros executivos vão nessa mesma linha. É o caso do diretor geral da Golden Cargo, Mauricio Pastorello. “Em função da pandemia, vejo um aquecimento no mercado de logística principalmente no atendimento de operações de e-commerce e varejo. O setor do agronegócio não foi afetado, estando com as operações normais”, garante.

Malavasi, da Loger

Já o Chief Visionary Officer (CVO) da Loger Logística, Celio Malavasi, salienta que o mercado tem passado por transformações em função das novas demandas considerando o encurtamento do ciclo entre produção e consumidor final. “Empresas têm investido em estoques regulados para a demanda de atendimento no curtíssimo prazo, e isso gera desafios para todos os setores da logística, quer seja na questões de abastecimento e processamentos das indústrias ou mesmo no last mile de entregas a consumidores finais. Nesse último, muito voltado para o crescimento do e-commerce no Brasil”, pontua.

Ainda de acordo com o executivo da Loger, tanto indústrias quanto operadores logísticos têm buscado inovar com foco principal no cliente final. “As alternativas claramente percebidas estão no desempenho do atendimento e geração de valor pela experiência de compra, independente do setor ou segmento da economia”, diz Malavasi.

Adequação ao cenário

As mudanças demandaram novas decisões. Na BBM, o diretor executivo Comercial revela que apesar de o mercado logístico apresentar oportunidades, ainda existe muito a se desenvolver e em qualquer ambiente haverá a necessidade de as empresas terem um papel de destaque, diante da importância do setor para todos os segmentos da economia.

Por outro lado, dos Anjos destaca, todos sabem dos grandes problemas de infraestrutura e processos logísticos que temos no Brasil e que impactam negativamente na cadeia produtiva, onde em geral se observa altos custos e baixa produtividade. “Trazer novas soluções logísticas, aporte tecnológico, integrando de forma digital e física toda a cadeia de suprimentos e conectando melhor os diversos modais é fundamental para que tenhamos um crescimento sustentável de nossa economia e desse mercado”, revela.

Dos Anjos, da BBM

Segundo ele, a BBM Logística vem atuando fortemente para diversificar seu leque de soluções integradas e omnichannel para cobrir toda a cadeia de suprimentos em todos os canais de atendimento com alto nível de serviço. Além disso, continua ampliado a malha logística e de transporte e o aporte tecnológico e de transformação digital.

“Desenvolvemos a mais moderna plataforma digital do setor, que suportará todas as nossas operações e que já está gerando uma verdadeira transformação digital na companhia. Também investimos intensamente no aporte de tecnologia nos processos de digitalização de nossas operações e rapidamente ajustamos nossa estrutura e disponibilidade de equipamentos, ampliando nossa atuação em segmentos essenciais, como e-commerce, farmacêutico, alimentício, higiene e limpeza”, completa.

O executivo prossegue dizendo que a empresa também avançou nos setores de medicamentos, alimentício e higiene e conseguiu ampliar as soluções intermodais para clientes nas operações de exportação e importação e iniciou as operações com soluções integradas no segmento petroquímico.

Outras ações contribuíam para a manutenção das operações na BBM. “Ajustamos rapidamente nossos processos à nova realidade, uma vez que já vínhamos em um movimento forte de expansão de nossos serviços, ampliação de segmentos e regiões de atendimento, aumentando nossa malha e diversificando as soluções que oferecemos aos nossos clientes. Hoje, atuamos em praticamente todos os segmentos da economia e em todas as fases da cadeia de suprimentos, o que é um diferencial fundamental na realidade atual do segmento”, conta.

Mas não é fácil para todas as organizações. Dos Anjos diz que certamente houve uma movimentação pela busca de alternativas, porém, várias empresas do segmento tiveram problemas nessa busca devido ao momento de incerteza gerado. “É preciso entender que grandes alterações na área de logística e transporte envolvem infraestrutura, mudança de processo de malha de distribuição, perfil de equipamentos e investimentos que nem todos os players têm condições de fazer.”

Pastorello, da Golden Cargo, acredita que novos desafios, principalmente em distribuição, estão na mesa. “Muitas empresas buscando novas formas de distribuir seus produtos e em novos mercados. Vejo isso em todos os segmentos, não só em varejo e e-commerce”, resume.

Ele exemplifica citando o agronegócio. De acordo com o executivo, nesse setor não houve uma mudança no modelo, mas a empresa teve que se adequar, focando em suas unidades que estão próximas às áreas de produção, buscando soluções de armazenagem e distribuição final aos clientes. “Decidimos investir naquilo que já fazemos muito bem e no atendimento aos clientes, seja em nível de serviço, seja em informação precisa. Diminuímos o transporte de longa distância, principalmente transferência”, conta.

A companhia não parou por aí. Em São Paulo, a Golden Cargo está ampliando sua atuação e iniciou, no último mês de julho, as movimentações junto a clientes de químicos embalados – empresas produtoras ou comercializadoras de produtos químicos em geral que possuem como exigência alto grau de especialização, licenças, e cuidados especiais. “Também pretendemos iniciar ainda neste ano de 2020 o serviço de distribuição no estado de São Paulo”, adianta.

Já na armazenagem, a Golden Cargo, que contava com uma área especial para produtos inflamáveis, disponibiliza agora um local com temperatura e umidade controladas, podendo, assim, diversificar o tipo de produto estocado. “A adequação está mais ligada a atender requisitos específicos dos clientes, ou seja, uma especialização ainda maior”, pondera Pastorello.

A Loger também investiu em melhorias. Malavasi anuncia que a companhia criou uma área de atuação voltada ao entendimento futuro das competências logísticas que serão demandadas por um mercado em constante evolução para, com isso, determinar ações de alinhamento interno frente aos desafios. “Modernizamos nossa área de engenharia e inovação compartilhando propósitos com nossa área comercial e de marketing para rápida reação à nova realidade. Instituímos essa responsabilidade a uma nova função que, com o cargo de Chief Visionary Officer, que passa a contribuir com a visão do negócio como um todo e os rumos futuros de nossa organização nesse quesito”, explica.

Como resultados iniciais, ele divulga que a empresa voltou a atuar em transportes com foco em abastecimentos programados e recorrentes para alguns clientes e ampliou o relacionamento com outros, assumindo novas responsabilidades nos processos logísticos de abastecimento e distribuição, além de começar operações diretamente ligadas aos processos de manufatura. “Novos clientes recentes dos segmentos de bens de capital, sistemas de refrigeração industrial e fornos industriais, sistemas agrícolas e geração de energia se somaram ao nosso portfólio”, conta.

O CVO da Loger diz ainda que a empresa construiu ferramentas específicas que demonstram a viabilidade econômica dos projetos previamente às negociações com os clientes, sejam eles existentes ou prospectos. “Todo o projeto passa a ser então desenvolvido em seus aspectos técnicos e operacionais, mas com a certeza antecipada de que haverá ganhos e reduções para nossos clientes. Uma vez estabelecida a parceria, nosso time de implantação de projetos pilota o alinhamento de todas as áreas internas e atividades envolvidas juntamente com o cliente para o cumprimento do cronograma.”

Perspectivas

Desafios e ações estratégicas colocados à mesa, mas e agora? O que as empresas do setor logístico devem esperar? Para dos Anjos, será essencial avaliar muito bem a capacidade de investimento, estrutura física, equipamentos, processos e também o suporte tecnológico e digital necessários para a atuação em setores distintos com requerimentos diversos. Na opinião do executivo, as oportunidades de melhoria e expansão são enormes em todas as frentes que envolvem as operações logísticas no país, mas a demanda será por soluções de alta performance, que garantam uma relação mais otimizada e equilibrada entre custo e nível de serviço, e os riscos envolvidos continuarão crescentes.

Para isso, será necessário adotar cada vez mais o que a tecnologia oferece.  “Observo novos processos, alta tecnologia aplicada em todas as fases da cadeia de suprimentos, sistemas cada vez mais digitais, internet das coisas e logística 4.0. Também acredito numa demanda cada vez maior por operações integradas de alta performance em todos os sentidos. Na verdade, considero que o setor deve passar por uma  transformação digital, porém continuará sendo fundamental a capacidade de execução física das operações de forma cada vez mais produtiva e eficiente, com informações compartilhadas digitalmente em tempo real, com todos os envolvidos no processo.”

O executivo, contudo, faz um lembrete. “Continuamos com os gargalos gerados pela falta de um marco regulatório no setor e também de uma visão de longo prazo, com o objetivo de garantir investimentos em infraestrutura, equipamentos e em projetos que gerem maior produtividade”, reforça dos Anjos.

Pastorello, da Golden Cargo

Na opinião de Pastorello, a ampliação dos setores atendidos tem que ser avaliada com cuidado. “Considero que atuar em segmentos muito distantes do que a empresa atua é um alto risco. Perde-se o foco nos diferenciais competitivos. A diversificação só pode acontecer em segmentos compatíveis e próximos aos que você já atua. Os processos são parecidos, com apenas algumas particularidades”, diz.

Na Golden Cargo, o foco e a tendência é aproveitar as grandes oportunidades geradas pela logística de químicos em geral, que demandam requisitos especiais que a companhia já possui. Para o executivo, na logística em geral o setor de operações de e-commerce continuará a crescer, mas sem nada de novo, apenas um aumento nas taxas de crescimento que demandará novos modelos de distribuição urbana, com mais eficiência e menor custo. O agronegócio segue essa linha, uma vez que cada indústria tem sua estratégia comercial de atender os produtores e revendas, que já foram exaustivamente testados.

Malavasi, da Loger, também acredita em operações alinhadas. “É extremamente necessário entender o mercado e criar soluções que tenham aderência aos seus objetivos como empresa. Criar novas linhas de negócios que não sejam adjacentes às suas principais competências pode gerar insucesso e desequilíbrio institucional, além de prejuízos financeiros.”

Ele também cita a aplicação de recursos e a regulação do setor. Segundo o executivo, o cenário econômico está desfavorável às iniciativas que demandam investimentos em soluções no curto prazo, assim como a redução da capacidade de consumo também gera incertezas sobre o retorno desses investimentos. “No momento atual, os grandes gargalos estão na insuficiência de programas de estímulo ao desenvolvimento econômico e na retomada dos setores voltados à logística”, considera.

Alguns serviços surgem como essenciais. O CVO da Loger cita, por exemplo, que a armazenagem externa deve aumentar. Isso porque a aproximação da indústria com o consumidor final, atrelada às expectativas cada vez maiores na qualidade e nos prazos da entrega, tende a gerar elevação de portfólio de produtos e estoques. A administração profissionalizada desses recursos, continua o executivo, tende a elevar as necessidades de acordos com operadores logísticos que acomodem esses estoques e tenham eficiência nesse processo.

Para completar, Malavasi percebe a tendência de grandes fusões de empresas, que reduzirão a concorrência nos segmentos de infraestrutura e serviços. “Vejo o e-commerce substituindo o comércio tradicional e grande parte das indústrias criando soluções que as diferenciem no mercado, além do enxugamento de custos operacionais como forma de recompor o fluxo de caixa. Nesse sentido, a terceirização de processos internos passará a ser uma solução de curtíssimo prazo.”

Espaços aproveitados em sua totalidade

O setor aéreo também sentiu os efeitos da pandemia e se mobilizou para adequar suas operações. Empresas que só atuavam com o transporte de passageiros, por exemplo, desenvolveram soluções para ofertar ao mercado o transporte de mercadorias. Além da manutenção das atividades, as companhias descobriram um novo nicho.

Esse foi o caso da Asta Linhas Aéreas, empresa mato-grossense que, desde 1995, presta serviços de transporte de cargas e passageiros no estado, com foco no agronegócio. Hoje, a companhia conta com três aeronaves monomotor de nove lugares Cessna Grand Caravan, o que a habilita a operar em qualquer pista disponível no país, atendendo regiões inviáveis para aeronaves de maior porte.

Atualmente, partindo de Cuiabá, são dez as cidades atendidas: Água Boa, Aripuanã, Canarana, Juara, Juína, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Pontes e Lacerda, Primavera do Leste e Tangará da Serra.

O CEO da companhia, Adalberto Bogsan, vislumbra uma grande oportunidade na expansão do modal aéreo com o transporte de cargas menores e com alto valor agregado, como produtos eletrônicos, que podem ser entregues nas pequenas cidades atendidas pela modalidade de passageiros, conseguindo assim um melhor custo-benefício nessas movimentações.

A Asta já começou a s adequar, investindo em ações a fim de movimentar materiais biológicos e laboratoriais. As alterações têm um motivo. “Houve uma redução drástica na demanda aérea em nossa região. Somos uma empresa realimentadora das grandes empresas e fomos impactados diretamente com o cancelamento dos voos das outras companhias”, diz Bogsan.

O executivo aposta na expansão do serviço, mas destaca alguns desafios. “O gargalo principal é o financeiro, já que não houve a liberação de auxílios para as empresas aéreas e o faturamento nesse período ficou extremamente prejudicado, com uma redução de 70% da receita bruta”, calcula.

Apesar disso, ele aposta que haverá crescimento e já toma as medidas. “A oportunidade que temos agora é de firmar acordos com as congêneres para ampliação da área de atendimento. A tendência é a de que as empresas que sobreviverem a esse período fiquem mais maduras e mais conscientes para tomadas de decisões”, aposta o CEO.

Fábio Penteado