Terça-feira, 13 de outubro de 2020 - 16h15
Terceirização logística em alta
Os prestadores de serviços logísticos comemoram o crescimento das operações, apesar do ano atípico devido à pandemia do novo coronavírus. As oportunidades chegam para acelerar o mercado, mas demandam investimentos em tecnologia e o entendimento das novas necessidades dos clientes

O debate sobre a terceirização das operações logísticas nunca esteve tão em evidência, com o cenário atual causado pela pandemia do novo coronavírus reforçando a discussão. O distanciamento social exigido, a introdução do trabalho home office, o crescimento do e-commerce e do delivery de uma maneira geral, os novos desafios das operações last mile e a aplicação de tecnologias até então apenas avaliadas mudaram grandemente o mercado.

Mas o que vem por aí? Como os players do setor observam as atividades hoje? Quais as novidades e o que a pandemia exigiu das empresas que atuam na prestação de serviços e ofertam a terceirização logística? Novidades não faltam.

A situação do mercado

O gerente corporativo Comercial da CSI Cargo, Anderson Barth, tem forte convicção de que a terceirização das operações logísticas tende a aumentar no mundo pós-pandemia. Ele afirma que, mais do que nunca, as organizações buscarão a redução dos custos e a ampliação de mercados, associados a um aumento no nível de serviço.

Barth, da CSI Cargo

“Nesse cenário, as vantagens da terceirização logística são inúmeras, já que os contratantes podem se beneficiar de um pacote de benefícios e know-how em diferentes categorias de negócios, coisas que só um operador logístico experiente é capaz de oferecer. Desde inovações tecnológicas e equipamentos de ponta até equipes altamente capacitadas, que permitem entender e desenhar soluções personalizadas para cada categoria de negócio”, salienta Barth.

Para ele, algumas mudanças que ocorreram durante a pandemia nos padrões de trabalho e consumo vieram para ficar. O aumento das compras do e-commerce frente às lojas físicas, por exemplo, é uma delas. “O comércio eletrônico continuará demandando muito da logística e somente empresas preparadas em termos de logística 4.0 serão capazes de navegar bem nesses novos tempos. Digitalização de atividades, internet das coisas (IoT) e inteligência artificial devem ser incorporados ao dia a dia dessas empresas. Da mesma forma, visualizamos que os segmentos farmacêutico, de higiene e cosméticos também devem continuar em alta”, pontua o executivo.

Na opinião do vice-presidente do Grupo TPC e primeiro vice-presidente da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), Luiz Chamadoiro, a terceirização logística é uma tendência não só no Brasil, mas mundialmente, e até mesmo independe da pandemia que estamos vivendo atualmente. “Cada vez mais as empresas têm que focar na sua atividade fim e no relacionamento com seus clientes. Cuidar de armazéns, controle de estoques, empilhadeiras, mão de obra logística e transportes se tornam cada vez mais uma atividades para as quais existem empresas especializadas que podem executar com um nível de qualidade melhor e com um menor custo.”

Chamadoiro, do Grupo TPC

Chamadoiro reforça o que diz Barth. “Entendo que a pandemia do coronavírus trouxe maiores demandas e consequentemente maiores desafios para o e-commerce, a entrega B2C e a distribuição last mile. Diante dessa ‘nova realidade’, a terceirização de serviços logísticos para esse segmento vem crescendo muito e ainda há muito o que crescer”, acredita.

De acordo com o diretor do Grupo Movicarga, Gustavo Ribeiro, o movimento de terceirização está acontecendo desde o primeiro semestre. Não opinião do executivo, os benefícios de ter uma empresa especialista fazendo a operação e a gestão dos processos logísticos são, além da redução de custos, a flexibilidade na mobilização e a desmobilização de equipe e equipamentos em função da oscilação de demanda, a melhoria da produtividade e dos níveis de serviço e permitir que o cliente mantenha o foco no seu negócio.

“A Célere, como operador logístico focado na intralogística, sempre teve a inovação e o investimento em tecnologia como estratégia de negócio. Operações de movimentação interna com intensa utilização de equipe precisam ser monitoradas através de KPIs e ferramentas de gestão que permitam o constante acompanhamento da produtividade e do nível de serviço da equipe. O uso adequado e a correta definição dos equipamentos de movimentação são fatores que garantem o aumento da capacidade operacional e redução dos custos dos materiais movimentados”, cita Ribeiro.

O executivo da Movicarga completa dizendo que cada vez mais a busca por um operador logístico no Brasil deixa de acontecer apenas em função da redução do custo operacional, com a redução da base salarial e dos benefícios da equipe, pois em um modelo onde o aumento da produtividade das operações, da qualidade da gestão e dos investimentos em tecnologia, feitos por uma empresa especialista na atividade, leva a um melhor custo final. “Está claro que o menor preço não leva necessariamente ao melhor custo por material movimentado”, comenta.

Paulo Franceschini, diretor de Contract Logistics da Geodis, é enfático ao dizer que haverá, sim, um aumento na busca pela terceirização, especialmente em três casos específicos: empresas com canal de vendas baseado em lojas físicas, que ao entrarem no mundo do e-commerce irão buscar na terceirização a implantação mais rápida e eficiente dessa estratégia; redução de custos; e companhias que aumentaram seus volumes e negócios durante a pandemia da Covid-19.

Novas operações

A crise, como em vários momentos de situações emergenciais, gerou oportunidades. Barth revela que a CSI Cargo ampliou sua carteira com a entrada de clientes no setor de alimentos. Além disso, registrou um aumento de operações de clientes que já compunham o portfólio.

Crédito: CSI Cargo

“Os contratos mudaram ao longo dos últimos anos em relação às exigências derivadas dos níveis de serviços, com pouco modelos ganha a ganha, favorecendo somente os clientes. Percebo uma mudança nesse momento nos contratos em relação ao prazo, que está maior, e isso viabiliza maiores investimentos, assim como os prazos para pagamento, que estão sendo alongados”, conta.

No Grupo TPC, Chamadoiro diz que a entrada de clientes aconteceu baseada na busca pela resolução dos gargalos logísticos do e-commerce. “As mudanças mais claras são que os clientes, sejam eles nossos ou o consumidor final, demandam cada vez mais informações precisas e em tempo real. As exigências estão maiores a cada dia e isso demanda dos operadores logísticos muito investimento em tecnologia e gente capacitada”, resume.

Crédito: Grupo TPC

Para ele, o prestador de serviços logísticos não pode ser mais encarado como um simples fornecedor e cada vez mais torna-se uma peça chave e fundamental na estratégia comercial do cliente.

Ribeiro, do Grupo Movicarga

A ampliação da carteira também foi verificada no Grupo Movicarga. Ribeiro revela que a companhia fechou novo contratos desde o início da pandemia em diferentes segmentos. “Temos nesses novos contratos operações primarizadas que estavam avaliando a terceirização há um bom tempo e que em função da crise aceleraram o fechamento.”

Ele segue a linha de Chamadoiro e pontua que atualmente é cada vez mais importante a figura flexível do prestador. “O que está sendo reforçado é a importância do operador logístico adequar a sua solução à real necessidade dos seus clientes, buscando sempre a flexibilidade para suportar as mudanças de demanda e situações adversas como a que estamos vivendo.”

Franceschini, da Geodis

A Geodis segue o mercado e comemora a ampliação da carteira, também com mudanças de comportamento operacional. “Acredito que a Covid-19 irá trazer mudanças significativas de como fazer e manter negócios de uma forma geral. A relação irá mudar para melhor e mudar para melhor irá exigir dos dois lados uma maior colaboração, planejamento e principalmente parceria de longo prazo”, aponta Franceschini.

O que vem por aí

Colocados o cenário atual e as oportunidades, os executivos vislumbram mais mudanças. Para Barth, a logística é um setor que não para de crescer e se desenvolver. Segundo ele, se um operador logístico não se mantém atualizado, com certeza irá perder espaço no mercado.

A CSI Cargo, garante, faz a sua lição de casa. “Estamos investindo pesado nas novas tecnologias e buscando formas de implementá-las de forma viável junto aos nossos clientes. A logística 4.0 é o futuro e a inteligência artificial será fundamental para o sucesso da nossa estratégia. Nós temos alocada uma equipe de TI com foco nesse aprimoramento das tecnologias, pois sabemos que é nesse caminho que teremos maior impacto na oferta de soluções logísticas. E é claro que em meio às atualizações logísticas também estamos investindo no capital humano, visto que a combinação desses dois é que trará maior sucesso e um crescimento sustentável ao longo dos anos”, diz o gerente corporativo Comercial.

Outro ponto que o executivo destaca é o da conexão da logística e do transporte, outro setor que se mostrou primordial durante a pandemia, pois quando se trata de desenvolvimento e crescimento econômico, a logística e o transporte estão interligados, visto que são setores que não podem parar. “Eles se mostraram como suporte à competitividade e inserção do país no cenário globalizado, responsabilidade quanto à sustentabilidade ambiental e na geração de oportunidades de emprego, trabalhando em conjunto para conectar todo o país.”

Na opinião de Chamadoiro, no final das contas a demanda vem do cliente, do consumidor final, que fica mais exigente a cada dia. Dessa forma, ele salienta que os clientes do Grupo TPC demandam cada vez mais qualidade, não só dos serviços físicos, mas também nas informações. “Temos um portifólio de clientes bem diversificado e tomamos as medidas certas no início da pandemia visando a racionalização dos processos com a consequente redução de custos. Ganhamos clientes esse ano, com novas operações robustas e complexas. Temos uma boa perspectiva de crescer acima dos 15% para 2021”, calcula.

Crédito: Grupo Movicarga

Sem revelar números, Ribeiro diz que o Grupo Movicarga também tem expectativas de crescimento em 2020 e 2021 e aposta na aplicação de tecnologias. “O operador logístico como especialista tem que saber oferecer a melhor solução tecnológica para seus clientes. A tecnologia deve ser usada como ferramenta para a gestão de processos e pessoas, dando confiabilidade e velocidade às informações que baseiam as tomadas de decisão. O objetivo não deve ser a tecnologia, mas os benefícios gerados com a correta utilização das mais modernas tecnologias.”

Franceschini, por sua vez, acredita que as empresas do setor serão cada vez mais exigidas por novos e mais complexos serviços no e-commerce, com same day e urban delivery no transporte, por exemplo. Outro aspecto destacado pelo executivo é a discussão sobre a forma de contratação, que deverá passar por uma revisão, deixando-a mais flexível e ajustada a situações não padrões, como a de uma pandemia.

Crédito: Geodis

“O ano de 2020 será muito atípico, diferente dos anos anteriores, pois o planejamento dos novos negócios ficou comprometido pela pandemia e com certeza ele ficará abaixo do planejado. Porém, por outro lado, tivemos um aumento bastante significativo nos volumes dos nossos clientes atuais, principalmente no e-commerce. Teremos um resultado um pouco abaixo do esperado, mas com um crescimento de mais 10% em relação a 2019.”

Para 2021, adianta o diretor de Contract Logistics da Geodis, a perspectiva é otimista e a meta é retomar o planejamento estratégico definido pela companhia, voltando a crescer 20% ao ano.

Fábio Penteado e Fernando Fischer