Quinta-feira, 9 de setembro de 2021 - 8h21
Certificações no transporte de carga: mais que um reconhecimento, um diferencial no mercado

Mostrar para o mercado que os serviços que sua empresa presta são de qualidade e respeitam todos os requisitos legais de operação, segurança, sustentabilidade etc. é um fator primordial para se destacar na hora de negociar com potenciais clientes ou mesmo para atraí-los. É claro que uma presença forte, anos de atuação e bons relacionamentos servem como vitrine, mas isso só pode ser construído ao longo dos anos e com uma presença de marca realmente relevante. Como então demonstrar a qualidade da sua empresa de uma forma mais imediata?

Muito provavelmente as certificações sejam a melhor resposta para essa questão. Elas atestam a capacidade de atuação das empresas utilizando critérios estritamente técnicos e são emitidas por empresas certificadoras independentes, o que garante a lisura do processo de auditoria e inspeção para sua emissão. “Possuir uma certificação será sempre uma vantagem competitiva, pois ela promove o reconhecimento da empresa pelo mercado”, destaca Tomás Pueta, gerente de Operações da Control Union.

Com presença física em mais de 70 países e serviços prestados em quase todos os países do mundo, a Control Union tem como principais atividades auditoria, inspeção, análise e certificação de produtos durante o transbordo em portos. A empresa atua nos mercados agrícola, têxtil, de biocombustíveis, biomassa, florestal e na indústria de alimentos, além de realizar verificações de inventários de gases de efeito estufa.

Atendendo principalmente transportadoras e outras empresas do setor logístico, a Control Union certifica as normas BRCGS, voltada para qualquer mercado que atue com o armazenamento, distribuição ou somente transporte de produtos alimentícios, embalagens ou produtos de consumo diversos; FSSC 22000, norma de sistema de gestão de segurança de alimentos que possui uma categoria especificamente voltada para  empresas que realizam o transporte e prestam serviço de armazenagem de alimentos; GMP+, específica para o mercado de alimentação animal e requer que todas as empresas de transporte, armazenamento e transbordo envolvidas nessa cadeia sejam certificadas; e também ISO, bastante utilizadas pelos operadores logísticos.

Pueta, da Control Union

Segundo Pueta, o processo de implementação de uma certificação leva a mudanças notáveis dentro de uma organização. “A alta direção passa a ser mais ativa e participante nos assuntos do dia a dia da empresa e os colaboradores passam a observar suas atividades de outros pontos de vista, com o aumento do grau de instrução, tornando-se mais engajados nos assuntos pertinentes à certificação”, explica. “As auditorias promovem uma troca enriquecedora e contribuem com percepções externas aos processos já implementados. Uma não conformidade observada muitas vezes é a alavanca necessária para tirar um projeto de melhoria do papel. A melhoria contínua promovida pelas certificações pode melhorar o ambiente de trabalho, seja devido a mudanças estruturais ou nos processos, o que consequentemente contribui para a satisfação dos colaboradores”.

O valor das certificações

A Primeserv Logística e Serviços, sediada no município de Taubaté (SP), conta com as certificações ISO 9001, que reconhece o cumprimento de normas técnicas para a gestão da qualidade em organizações de diversos setores, Sassmaq, sigla para o nome autoexplicativo Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade, e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para lidar com cargas dos segmentos de cosméticos, medicamentos, produtos para saúde e saneantes.

Saad, da Primeserv

Segundo Temer Saad, sócio-fundador e diretor geral da Primeserv, essas certificações constituem um diferencial muito importante para a empresa no mercado. “Elas permitem o atendimento de toda e qualquer demanda na área de transporte de cargas, atendendo todos os requisitos legais. Nosso setor possui alta oferta de empresas. Estima-se a existência de cerca de 700 mil transportadoras com CNPJ ativo. O que nos diferencia das demais é justamente o processo organizacional que envolve diretamente a gestão da qualidade”, diz o executivo.

A Primeserv foi fundada em 2020 e, de acordo com Saad, iniciou no mesmo ano o processo de obtenção das certificações. “Implementamos um processo interno de gestão da qualidade. Legalmente, para se transportar determinados tipos de produto, são necessárias algumas documentações, que inclusive fazem parte do Sassmaq quando se fala em produtos classificados e da Anvisa no caso de segmentos mais específicos”.

Para o diretor, porém, o mercado ainda precisa aprender o real valor das certificações para perceber as vantagens de contar com um prestador de serviços logísticos que realmente seja capaz de atestar sua capacidade técnica. “O investimento é alto para ter a possibilidade de manter um sistema de qualidade com tantas certificações. Custa muito caro e demanda uma boa cultura organizacional para a manutenção. Mas infelizmente muitas empresas olham só o quesito preço, quando é preciso olhar para o valor. Quando um embarcador opera o transporte como sendo uma commodity, toma a decisão errada, pois transportadora, definitivamente, não é tudo igual. O mercado fechando os olhos para tais diferenciais e só entende a importância quando há algum problema com fiscalização”, observa Saad.

Chaiane, da Coopercarga

Chaiane Rosa, supervisora de Sistema de Gestão Integrada da Coopercarga, destaca que um sistema de gestão bem implementado, que fortalece a confiança e a qualidade nos serviços prestados, é capaz de melhorar a imagem de uma organização no mercado. “Além de gerar diversos benefícios, como mitigação de riscos, redução de custos, padrão de processos, atendimento às expectativas dos clientes, cumprimento de legislação, redução de impactos ambientais e melhoria na satisfação dos colaboradores”.

Aline, da Coopercarga

Sua colega de empresa, Aline Zilio Muller, que atua como especialista de Inteligência de Mercado na Coopercarga, acredita que o mercado já é capaz de perceber o valor de a empresa contar com certificações. “Diante de um cenário logístico cada vez mais acirrado, ter diferenciais competitivos é peça chave de sucesso. Além da qualidade dos ativos e equipamentos, o tema licenças e certificações tem suma importância juntos aos embarcadores. Apesar dos processos de certificação serem morosos e muitas vezes restritos, a Coopercarga trata o tema com muita seriedade, pois sabemos que assegurar a satisfação dos clientes é o propósito das entregas de sucesso do grupo”, exalta.

Atualmente a Coopercarga, cooperativa de transportes sediada em Concórdia (SC), possui as certificações ISO 9001, Sassmaq e ISO 14001, voltada à gestão ambiental. Além disso, estão em processo de obtenção as certificações ISO 45001, de gestão em Saúde de Segurança e do Programa Operador Econômico Autorizado (OEA).

Josiane Soares, gerente nacional de Qualidade da RPA Transportes e Logística, com sede em Jundiaí (SP), também acredita que o mercado consegue perceber as vantagens de contar com os serviços de uma empresa que investe na obtenção de certificações. “Ao contratar uma transportadora certificada, o cliente tem a garantia de que o prestador de serviço cumpre a legislação de transporte rodoviário de cargas, ambiental e fiscal, além de assegurar que ele possui processos definidos que proporcionarão um atendimento de qualidade”, enaltece. “As certificações comprovam que as empresas oferecem serviços qualificados nas operações logísticas, aumentando a segurança, agilidade, eficácia e reduzindo riscos e custos durante o transporte de cargas”.

Josiane, da RPA

Segundo ela, as transportadoras brasileiras também têm percebido cada vez mais o valor de buscar o reconhecimento de seus sistemas de gestão. “As empresas de logística estão buscando as certificações pois elas geram múltiplos benefícios, como maior credibilidade para o mercado, redução de custos, garantia de contratos mais sólidos e manutenção de um negócio mais competitivo”. A RPA é certificada pela norma ISO 9001, além de contar com a anuência dos órgãos reguladores do transporte rodoviário, como Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Anvisa, polícia federal e polícia civil.

 

“Atualmente o mercado brasileiro valoriza as certificações específicas para o transporte de determinados produtos, como aquelas voltadas para o transporte de produtos perigosos, e as certificações ISO também são bem aceitas pelas empresas transportadoras”, diz Tomás Pueta, da Control Union. “Porém, ainda existe muito mercado a ser conquistado. A certificação de transporte de produtos alimentícios, por exemplo, ainda tem muito a crescer no Brasil. Consultando os bancos de dados de certificações em alimentos é possível notar que existem diversas indústrias de processamento de alimentos certificadas no Brasil, mas existem menos de dez empresas certificadas no escopo de transportes. Assim, as indústrias valorizam a certificação de seus processos, mas negligenciam a importância de uma certificação na etapa de transportes, que é fundamental para a manutenção da qualidade e segurança dos produtos finais”.

O gerente de Operações diz que enxerga um movimento de busca por certificações principalmente por parte das grandes empresas, mas não das pequenas. “Isso acontece, em sua maioria, pela demanda dos clientes. As empresas que buscam as certificações hoje em dia o fazem pois atendem a grandes clientes com alto poder de barganha e que fazem tal exigência, visto que as certificações irão demandar tempo e investimento por parte dos operadores logísticos e transportadoras”, completa.

O passo a passo das certificações

Edilma, da Control Union

Edilma Mendes Venâncio Alves, coordenadora de Food e Feed da Control Union, explica que o primeiro passo na busca por uma certificação é identificar qual delas atende melhor as necessidades da sua empresa. “Cada norma apresenta particularidades, por isso essa etapa requer uma análise do cenário onde a empresa está inserida, quais as expectativas dela em relação à norma e se existe alguma demanda particular dos clientes”.

Uma vez feita a escolha da certificação, a empresa precisa adquirir uma versão da norma – algumas possuem download gratuito em seus websites –, estudar o assunto e iniciar o seu processo de implementação. “Essa etapa é provavelmente a que irá demandar mais tempo, pois podem ser necessárias diversas mudanças em documentos, processos e até mesmo estruturas. É necessário treinamento adequado da equipe, que poderá variar em função das responsabilidades de cada um dentro da organização. Muitas vezes é válido realizar a implementação em conjunto com uma empresa de consultoria, que trará a expertise necessária para conduzir esse passo de forma mais otimizada. Depois, é necessária uma auditoria interna que irá identificar as lacunas ainda existentes em relação ao atendimento da norma, que deverão então ser abordados pelos responsáveis antes da próxima etapa”, prossegue Edilma.

Na sequência, deverá ser contatado o organismo de certificação que será o responsável pela auditoria, quando a empresa será avaliada quanto ao seu sistema de gestão e conformidade com a norma escolhida. Serão avaliados também os requisitos legais e requisitos de clientes que sejam pertinentes ao escopo de certificação. A empresa pode optar por contratar um serviço de pré-auditoria, que serve como uma avaliação diagnóstica, que irá apresentar como resultado um relatório contendo a situação atual e sua adequação em relação ao padrão avaliado.

A auditoria inicial deve então ser agendada em conjunto com o organismo de certificação e, ao final desse processo, o cliente recebe um resumo das constatações e desvios, se existentes. Esses desvios são registrados por meio das não conformidades, que possuem prazos e metodologias para que sejam analisadas e tratadas. As evidências de que todos os desvios foram sanados devem ser enviadas ao organismo de certificação, que irá avaliar e aceitar ou não tais tratativas. Todo o processo é então revisado por uma equipe que avalia tecnicamente as operações auditadas por meio de um relatório, mas que também avalia o próprio processo da auditoria, para então determinar se todas as atividades executadas atenderam aos requisitos normativos. Por último é então tomada a decisão de certificação.

“Em caso de decisão positiva é feito a emissão do certificado, que pode ser um documento físico ou mesmo um documento digital. O cliente é inserido na plataforma de empresas certificadas, podendo então fazer a divulgação dessa conquista. Uma vez certificada, a empresa deve garantir que todos os procedimentos sejam mantidos e uma nova auditoria deve ser agendada seguindo o ciclo da norma, que geralmente consiste em uma auditoria anual e certificados válidos por um ou três anos. Esses prazos variam de acordo com a norma, o escopo e os resultados da auditoria”, conclui a coordenadora.

Fernando Fischer