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Empresas introduzem a remanufatura e logística reversa em sua estratégia

Por Paulo Roberto Leite em 13 de dezembro de 2022 às 10h50 (atualizado às 10h58)
Paulo Roberto Leite

Temos observado, com frequência crescente, notícias de grandes grupos empresariais anunciando em suas estratégias a “introdução efetiva” das atividades de Remanufatura e de Logística Reversa de peças e componentes.

Uma das últimas notícias, vinda de Amsterdam e anunciada pelo jornal O Estado de São Paulo, refere-se ao grupo automotivo mundial Stellantis, que reúne as marcas Fiat, Peugeot, Citroën e Jeep. De acordo com o jornal, o grupo Stellantis começa a comercializar peças remanufaturadas em suas fábricas a preços de até 40% do preço de peças novas, integrando dessa maneira as atividades de Logística Reversa e Remanufatura em suas atividades estratégicas.

“Remanufatura” de um produto durável, também conhecido como um processo de “Reconstrução”, ou ainda de “Recondicionamento”, além de outros nomes específicos em cada setor, é o processo industrial de reconstrução do produto reaproveitando os componentes e materiais que oferecem condições tecnológicas. Tem como objetivo a confecção de um produto com as mesmas características e funcionalidades do produto original.

Aparentemente as ideias que vimos comentando há décadas em artigos e nos livros de Logística Reversa de 2003, 2009 e 2017, começam a aparecer com maior frequência em diversos setores empresariais, inclusive no setor automobilístico. Até recentemente, os chamados OEM (Original Equipment Manufacturer), mostravam interesse muito seletivo sobre essas atividades, mantendo um certo distanciamento e antagonismo em relação à indústria de remanufatura independente. 

Sempre defendemos ser mais apropriado para as empresas fabricantes originais OEM “participar efetivamente” das atividades e do mercado de remanufatura e reciclagem, empregando o seu know-how atualizado e seu desenvolvimento técnico, reutilizando as peças e materiais reaproveitados na fabricação de novos produtos. As economias para as empresas e os benefícios para o meio ambiente são enormes!

Ao mesmo tempo, temos alertado sobre um certo “preconceito” existente na reutilização de peças remanufaturadas e materiais reciclados, tanto nas indústrias como na sociedade, como reflexo dessa. Evidentemente a má qualidade pode existir em qualquer tipo de indústria, seja na original fabricante ou naquela de reaproveitamento! Necessário conhecer os métodos de trabalho e sua reputação no mercado. 

Esse “preconceito” tem um reflexo negativo sobre as possibilidades de desenvolvimento desse “mercado” de reaproveitados em geral, limitando a absorção das enormes quantidades descartadas no meio ambiente, contribuindo negativamente para a economia circular do planeta e para a imagem ESG (Meio Ambiente, Social e Governança) das empresas.

Sob o ponto de vista da economia circular e sustentabilidade ambiental, o processo de Remanufatura deve sempre, quando possível, ser priorizado em relação ao da reciclagem, porque este processo economiza os materiais e a energia já utilizadas no processo de fabricação original, além de reduzir drasticamente os custos dos processos de reconstrução dos produtos remanufaturados. 

Realizada com normas técnicas e de qualidade adequadas, os produtos ou componentes remanufaturados podem substituir os originais com as mesmas características dos originais. Além disso, grande parte de produtos e componentes metálicos podem ser remanufaturados muitas vezes, o que é sempre muito bom para a economia circular.

A norma ABNT NBR 16.290/2014º distingue: 

Remanufatura é o processo industrial realizado pelo fabricante original do produto novo (OEM), por empresa pertencente ao mesmo grupo societário ou por empresa autorizada pelo fabricante original especificamente para este processo. Como é feita pela mesma empresa, por empresa do mesmo grupo ou por empresa autorizada pelo fabricante, a marca será a mesma do fabricante original. Este bem deve receber identificação indelével, deixando clara sua condição de remanufaturados. Recondicionamento é o processo industrial, realizado por qualquer empresa. O bem recondicionado deve ter a marca do fabricante original substituída pela marca da empresa responsável pelo processo de recondicionamento, salvo quando proibido por regulamento específico. Este bem deve receber identificação indelével, deixando clara sua condição”

“Reciclagem” de um produto ou embalagem é o “processo industrial” de extração dos materiais constituintes. Extraem-se materiais como plásticos, vidros, metais etc., que serão reaproveitados e reincorporados a novos produtos ou embalagens. Observe-se que nesse processo existe a destruição dos produtos e seus componentes, reduzindo-os às suas matérias primas originais, com maior ou menor valor econômico em função do tipo de material extraído. 

“Logística Reversa”, neste caso de pós-consumo, é a atividade empresarial que  equaciona os fluxos reversos físicos e as informações correspondentes, dos produtos e materiais descartados, também chamados de resíduos sólidos, criando cadeias reversas, comerciais e industriais, destinando-os adequadamente sob a ótica da economia circular e das ideias ESG, gerando imagem positiva para as empresas. 

As atividades de remanufatura e reciclagem de materiais não são novidades no mundo dos negócios, e têm sido utilizadas por empresas perspicazes, que trabalham efetivamente estas operações como forma de ganhos em faturamento e iniciativas de sustentabilidade. Empresas OEM como a Xerox e Canon na área de copiadoras, Motores Cumins, Scania, Volvo, Volkswagen entre outras fábricas de motor de caminhão, Bosh e Weg na área de motores elétricos, Eaton e Luk na área de embreagens, empresas na área ferroviária, fabricantes de rolamentos de grande porte, empresas na área aeronáutica, entre outros setores. 

Além das empresas de remanufatura OEM, existem inúmeras outras que chamamos de “independentes”, não ligadas a uma OEM e trabalhando em mercados complementares e independentes, muitas vezes chamados, pejorativamente, de mercado paralelo. 

Como tantas outras, o exemplo da indústria de remanufatura automotiva independente tem enorme importância econômica em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil. Muitas destas empresas ocupam um espaço no mercado com tecnologia e qualidade variável, algumas já terceirizando OEM e com preços menores.    

Estima-se que os custos de remanufatura de um produto sejam da ordem de 20% em relação ao custo de fabricá-lo pela primeira vez, seja pela economia de material e de energia, já incorporados ao produto e, mais ainda, porque os custos de fabricação são menores. Como resultado, os produtos remanufaturados podem ser vendidos por cerca de 40% a 50% do preço do produto original gerando lucro para as empresas. 

 Imagine o leitor o caso de um motor de partida ou alternador elétrico de porte médio, como o de um automóvel, constituído basicamente de ferro fundido na carcaça e fios de cobre em seus enrolamentos internos. De uma forma simplista, este equipamento será desmontado e será reaproveitada a estrutura do produto (chamada de “carcaça” ou “core”), trocados os fios de cobre já reciclados e substituídos elementos não aproveitáveis, que serão enviados para a reciclagem industrial. 

Empresas industriais com visão ESG devem, portanto, privilegiar os processos de remanufatura, próprios ou terceirizados, de forma a economizar recursos naturais e reduzir custos dos produtos, conscientizando o público ao seu consumo e reduzindo preconceitos, através da garantia da marca original. 

A introdução das atividades de remanufatura na estratégia empresarial permite melhorar o “design do produto”, visando maior eficiência nos processos de remanufatura. Além disso, a empresa terá um feedback da performance de seus produtos podendo melhorar seus projetos.

A participação ativa de empresas nas áreas de reaproveitamento de produtos e materiais, tais como temos observado em noticiários recentes, certamente permitirá reduzir o “preconceito” de uso de peças e materiais reaproveitados, ainda muito perceptível no mercado em geral. Saliente-se, por importante, que sistemas de garantia de qualidade sejam implantados de forma a mitigar os efeitos de “preconceitos” em todos os setores de reaproveitamentos em prol da economia circular.

Os negócios industriais, comerciais e de serviços, envolvidos com estes reaproveitamentos serão beneficiados pelo crescimento dos mercados e florescimento de novas oportunidades em todas as regiões do país, contribuindo fortemente para a empregabilidade, empreendedorismo, entre outras atividades. Como corolário, teremos o crescimento de novas especialidades funcionais e certamente novas legislações que incentivarão estes negócios, criando um círculo virtuoso.

A introdução das atividades de reaproveitamentos na estratégia competitiva das empresas, como já comentado em outros artigos, minimiza as possibilidades de concorrência disruptiva de seus produtos, evitando ou minimizando o uso indevido de seus produtos e marcas. A ausência da empresa OEM nestes mercados permitirá a concorrência disruptiva de boas empresas, que também avançarão tecnicamente e ocuparão um espaço no mercado de peças e produtos com preços mais baixos e com qualidade gradativamente reconhecida. 

Exemplos em diversos setores não faltam, revelando perda parcial ou total de mercado pela OEM.

Referências:

Leite, Paulo Roberto – “Logística reversa -Meio Ambiente e Competitividade” – Ed. Pearson Prentice Hall -São Paulo, 2003, 2009

Leite, Paulo Roberto – “Logística Reversa – Sustentabilidade e Competitividade” Ed. Saraiva, São Paulo, 2017 

Empresas introduzem a remanufatura e logística reversa em sua estratégia
Paulo Roberto Leite, presidente do Conselho de Logística Reversa do Brasil (CLRB)
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