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O Fim do "Custo" no Seguro

De "mal necessário" a vetor de receita: a nova era do seguro na Logística
Por Rodrigo Ventura em 25 de março de 2026 às 7h44
Rodrigo Ventura
Rodrigo Ventura, CEO da 88i Seguradora Digital

Durante décadas, o seguro no transporte de mercadorias foi encarado como um "mal necessário", ocupando um lugar previsível e pouco nobre nas planilhas de frete. Classificado meramente como custo fixo, era visto como uma exigência contratual imposta por grandes embarcadores ou um rito burocrático inevitável para o cumprimento da legislação. Esse tempo, porém, anuncia seu fim. O setor vive hoje uma mudança de paradigma sem precedentes. Impulsionado pela digitalização e pela consolidação do seguro embarcado – o chamado embedded insurance –, o seguro deixa de ser um centro de despesas para se afirmar como vetor de eficiência operacional, diferencial de acesso a mercado e, em muitos casos, uma nova frente de geração de receita.

A lógica tradicional no setor de transportes sempre foi reativa: contratar, cumprir exigências e torcer para não acionar a apólice. No entanto, a nova lógica, viabilizada por tecnologias aplicadas ao mercado segurador, reposiciona a proteção como instrumento ativo de criação de valor. Em operações de alto valor agregado ou áreas de risco crítico, como as "Zonas Vermelhas" do Rio de Janeiro ou de São Paulo, o custo somado de seguros (RCTR-C e RCF-DC), escolta armada e gerenciamento de risco pode elevar o peso do ecossistema de proteção para até 15% do faturamento bruto. Em um setor onde as margens líquidas raramente ultrapassam um dígito, essa ineficiência estrangula a rentabilidade.

Nesse contexto, a integração de dados em tempo real via Sistemas de Gestão de Transportes (TMS), aplicativos e telemetria embarcada torna-se um divisor de águas. O cruzamento contínuo entre dados operacionais e informações securitárias não apenas reduz sinistros, mas combate fraudes e eleva a precisão cirúrgica da operação. O efeito é mensurável. A redução da sinistralidade em modelos inteligentes pode chegar a 30%, impactando diretamente o valor dos prêmios e, consequentemente, a margem EBITDA do negócio.

A evolução, contudo, vai além da economia de custos. A proteção integrada funciona como um selo de credibilidade. Transportadoras que operam com coberturas robustas e transparentes ampliam o acesso a contratos mais volumosos e sofisticados. O seguro deixa de ser uma obrigação para abrir portas comerciais.

A inovação mais disruptiva, contudo, reside na possibilidade de a própria transportadora se tornar uma representante de Seguros (CNAE 6622-3/00). Ao oferecer seguros de mercadorias flexíveis ao cliente final ou seguros de renda para transportadores autônomos, a empresa cria uma linha de receita onde antes havia apenas despesas. O seguro passa a ser serviço e fonte de faturamento adicional.

Essa estratégia ganha contornos vitais no universo do last mile, marcado pela alta rotatividade de profissionais. Dados de mercado indicam que o engajamento de entregadores autônomos cresce cerca de 15% quando a plataforma oferece seguro de renda e vida. O profissional protegido tende a priorizar a transportadora que lhe oferece segurança, resultando em maior produtividade e uma redução drástica nos custos de recrutamento e treinamento.

Para ilustrar essa "virada de chave", considere-se o caso de uma transportadora de médio porte que migrou do modelo tradicional para o embedded insurance. No cenário anterior, a empresa despendia R$ 100.000/mês com prêmios e gerenciamento de risco, enfrentando uma sinistralidade de 65%, o que impedia qualquer negociação de taxas. Além disso, perdia 10% de sua frota de agregados mensalmente para a concorrência.

Ao integrar seu TMS diretamente à plataforma de uma seguradora digital, o seguro passou a ser cobrado por viagem e por risco real da rota (com base em telemetria), abandonando a taxa fixa sobre o faturamento. Com o uso de dados para evitar rotas perigosas em horários críticos, a sinistralidade recuou 40% em 12 meses. Essa melhora permitiu uma renegociação que reduziu o custo direto do seguro em 20%. Paralelamente, como representante de Seguros, a empresa passou a oferecer seguro complementar para pequenos embarcadores, gerando comissões que hoje cobrem 30% das despesas fixas do seu departamento de seguros. No RH, a rotatividade de motoristas caiu 18%, estabilizando a operação.

O seguro contemporâneo, portanto, é um código integrado ao sistema de gestão, capaz de proteger simultaneamente a carga, o veículo, o motorista e o consumidor final. Ignorar o potencial do seguro como ferramenta de inteligência de negócios é um erro estratégico. As empresas que compreendem que seguro não é apenas apólice, mas gestão financeira e estratégica ativa de transferência de riscos que podem impactar a operação, são justamente aquelas que estão liderando a nova competitividade do transporte brasileiro, ganhando novos e maiores contratos de transporte, além de crescer em dominância de mercado aumentando market share e lucratividade.

 

* Rodrigo Ventura é CEO da 88i seguradora digital

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