
A Multilog inicia um novo ciclo de crescimento. Com um plano de investimentos de quase R$ 1 bilhão, a empresa projeta dobrar seu faturamento até 2028, apoiada na expansão de capacidade, reposicionamento de unidades e novas frentes de atuação.
Em entrevista à Tecnologística durante a Intermodal, o Presidente Djalma Vilela detalha os planos da companhia, comenta o cenário mais desafiador de 2026 e aponta as oportunidades que seguem no radar do setor logístico.
Investimentos e expansão: foco em capacidade e demanda reprimida
Tecnologística – Quais são os principais investimentos anunciados pela Multilog e como eles sustentam a meta de crescimento da empresa, que prevê sair de R$ 1,5 bilhão para R$ 3 bilhões nos próximos anos?
Djalma Vilela – No ano passado, anunciamos um investimento de quase R$ 1 bilhão, que será realizado ao longo de 2026 e 2027. Esse movimento faz parte de um planejamento estratégico para levar a empresa de um faturamento de R$ 1,5 bilhão, registrado em 2025, para cerca de R$ 3 bilhões até 2028.
O foco está na adequação e no reposicionamento de algumas unidades, que hoje estão em localizações menos favoráveis. Com isso, devemos ampliar em torno de 30% a nossa capacidade operacional, tanto em pátios quanto em armazéns.
Além disso, estamos trabalhando no reposicionamento de cerca de seis unidades. A primeira delas será inaugurada no final do primeiro semestre, em Santos, já em uma área mais adequada e com aumento significativo de capacidade. A partir daí, seguimos com outras unidades ao longo deste ano e de 2027.
Tecnologística – Esse aumento de capacidade está ligado a uma demanda já existente no mercado?
Djalma Vilela – Exatamente. Existe uma demanda reprimida que hoje não conseguimos atender, principalmente por limitações de algumas dessas unidades. Com essa reestruturação, passamos a capturar essa demanda que já está no mercado.
Tecnologística – Essas unidades são focadas em operações alfandegadas?
Djalma Vilela – Essas seis unidades são diretamente alfandegadas. Mas, como consequência, haverá também um incremento nas operações não alfandegadas e nos serviços de transporte.
Tecnologística – Como esse movimento se conecta com a estratégia da Multilog em transporte e soluções integradas?
Djalma Vilela – Esse aumento de capacidade gera naturalmente um crescimento nas demais soluções. A Multilog trabalha com uma oferta integrada, combinando operações alfandegadas, centros de distribuição e transporte.
Hoje operamos com uma frota própria reduzida, com menos de 60 caminhões, mas movimentamos mais de 500 veículos por meio de parceiros e agregados. Esse modelo nos permite trabalhar com produtividade e eficiência, o que se reflete também para o cliente.
No fim do dia, o cliente avalia o Custo Total Logístico (CTL), e nossa proposta é oferecer uma solução integrada que seja competitiva dentro dessa lógica.
Foz do Iguaçu e Paraguai: aposta em crescimento e eficiência logística
Tecnologística – A Multilog também tem uma inauguração prevista em Foz do Iguaçu. O que está sendo estruturado na região?
Djalma Vilela – Temos uma inauguração prevista para 10 de dezembro de 2026. Na prática, trata-se de uma relocalização da operação. Já vínhamos atuando em uma área da União, mas, há cerca de cinco anos, adquirimos um terreno de aproximadamente 600 mil metros quadrados, em uma localização bastante estratégica.
O desenvolvimento da região de Foz do Iguaçu tem sido muito expressivo, com crescimento não só do comércio exterior, mas também de outros investimentos relevantes.
Tecnologística – O que torna essa nova localização estratégica para a operação?
Djalma Vilela – A área está posicionada na BR-277, cerca de 1,5 km da Perimetral construída junto à segunda ponte, voltada ao transporte de cargas. Isso nos coloca em uma posição privilegiada para atender o fluxo logístico da região.
Estamos estruturando a operação com capacidade para atender até 2 mil caminhões por dia, considerando principalmente o potencial dessa relação logística com o Paraguai.
Tecnologística – Qual é hoje o peso do Paraguai nas operações da Multilog?
Djalma Vilela – Hoje, cerca de 75% do volume dessa unidade já está relacionado ao Paraguai. E vemos uma tendência clara de crescimento, com muitas empresas brasileiras se instalando no país.
Tecnologística – Essa movimentação está ligada também a mudanças no cenário tributário?
Djalma Vilela – Sim. Com a Reforma Tributária, acreditamos que haverá uma nova dinâmica de incentivos, não apenas entre estados brasileiros, mas também entre países. Nesse contexto, o Paraguai tem se destacado como um polo atrativo.
Tecnologística – E como a Multilog pretende capturar esse movimento?
Djalma Vilela – Estamos estruturando um novo produto associado ao Porto Seco, com a implantação de um terminal de contêineres em anexo. Hoje, praticamente 100% da carga de importação destinada ao Paraguai entra por Buenos Aires ou Montevidéu.
Quando comparamos essa rota com a utilização de Paranaguá, considerando a região de consumo próxima à fronteira com o Brasil, temos uma economia de cerca de 700 quilômetros no transporte rodoviário — o que representa uma redução significativa de custo.
Com isso, estamos criando um pátio de aproximadamente 25 mil metros quadrados para atender esse fluxo, tanto de importação quanto de exportação, especialmente das empresas brasileiras instaladas no Paraguai.
Cenário de mercado: pressão de custos, reforma tributária e desafios em 2026
Tecnologística – Como a Multilog está avaliando o cenário atual, especialmente diante das mudanças tributárias e dos desafios do mercado?
Djalma Vilela – A questão dos incentivos fiscais é uma grande incógnita. Alguns estados construíram seu desenvolvimento com base nesses incentivos, e a tendência é que isso mude com a Reforma Tributária.
O que temos observado é um movimento de transição para modelos de incentivo financeiro, e não mais fiscal. Há estados que já discutem formas de compensação nesse sentido, ainda que não consigam cobrir integralmente os valores atuais de renúncia.
Na prática, isso não significa o fim dessas operações, mas uma redução de intensidade. Por isso, estamos trabalhando no reposicionamento da Multilog, fortalecendo outras regiões e portos.
Tecnologística – E como está o mercado em 2026?
Djalma Vilela – 2025 foi um ano muito positivo para nós. Já 2026 começou de forma mais desafiadora. Tivemos um movimento de ajuste de estoques por parte dos clientes e, além disso, o impacto do conflito no Oriente Médio trouxe uma pressão relevante sobre os custos logísticos.
Esse cenário já gerou um aumento de cerca de 15% nos custos de frete, tanto marítimo quanto rodoviário. No caso do frete marítimo, por exemplo, os armadores passaram a cobrar uma taxa adicional relacionada ao conflito, cerca de US$ 150 por contêiner.
Tecnologística – Esse aumento de custos tem sido repassado ao mercado?
Djalma Vilela – Em muitos casos, não. Temos clientes, como no segmento de derivados de petróleo, em que o aumento de custo chega a 30%, e isso não consegue ser totalmente repassado. Isso pressiona bastante a cadeia.
Por isso, estamos diante de um ano mais desafiador, que já trazia outros fatores, como eleições e Copa do Mundo, que naturalmente impactam o ritmo das operações.
Tecnologística – Diante desse cenário, qual é a estratégia da Multilog?
Djalma Vilela – Mesmo com esses desafios, conseguimos manter o planejamento no primeiro trimestre dentro do previsto. Mas sabemos que o segundo semestre tende a ser mais complexo.
A nossa estratégia passa por posicionamento de mercado e preparação para capturar oportunidades. A Multilog tem uma posição consolidada e continua investindo, mesmo em um cenário de juros elevados.
Transformação e futuro: tecnologia e jornada do cliente
Tecnologística – E olhando para o futuro, quais são as principais apostas da Multilog?
Djalma Vilela – Criamos recentemente uma diretoria de transformação, com um Chief Transformation Officer (CTO), focada em inovação, tecnologia e inteligência artificial.
A ideia é atuar tanto na melhoria dos processos internos — com automação e ganho de eficiência — quanto na interface com os clientes, por meio das plataformas digitais que já desenvolvemos.
Tecnologística – Esse movimento também está ligado a mudanças no comportamento dos clientes?
Djalma Vilela – Sem dúvida. Existe um amadurecimento claro. Mesmo em operações B2B, onde a relação sempre foi muito pessoal, os clientes passaram a demandar mais tecnologia, mais transparência e mais autonomia.
Hoje, eles esperam acompanhar cada etapa do processo, com acesso a informações em tempo real e maior fluidez no autosserviço. Isso exige uma evolução também por parte dos operadores logísticos.
Tecnologística – E como você vê o Brasil nesse contexto?
Djalma Vilela – Eu sou um otimista convicto. O Brasil continua sendo uma grande oportunidade. É um mercado com escala, consumo e muitos desafios — especialmente em infraestrutura — mas com enorme potencial de desenvolvimento.
A Multilog acredita nesse cenário e continua investindo, mesmo em momentos mais adversos. Faz parte do nosso perfil apostar no crescimento de longo prazo.
Mesmo diante de um cenário mais pressionado por custos, juros elevados e incertezas externas, a Multilog mantém sua estratégia de crescimento baseada em investimento, reposicionamento e inovação.
Para Djalma Vilela, o momento exige adaptação — mas também reforça o potencial do mercado brasileiro, que segue oferecendo oportunidades relevantes para operadores logísticos preparados para evoluir junto com seus clientes.