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Maturidade operacional: por que algumas empresas evoluem e outras apenas sobrevivem

Por Andrey Leite em 8 de abril de 2026 às 10h05
Andrey Leite
Andrey Leite, diretor de supply chain na Ekantika Consultoria

Quando se fala em operações e supply chain, é comum ver empresas investindo em tecnologia, novos sistemas ou projetos pontuais de eficiência esperando um salto de performance. Em muitos casos, porém, o resultado vem aquém do esperado. Não por falta de esforço, mas porque existe um fator estrutural que costuma ser ignorado: o nível de maturidade operacional da organização.

O desempenho de uma operação depende de diversos fatores, entre eles, pessoas. A evolução se dá por estágios, com características próprias de gestão, tomada de decisão, planejamento, estrutura de processos e uso de dados. O problema é que muitas empresas tentam aplicar soluções típicas de estágios avançados em operações que ainda não consolidaram os fundamentos básicos. É como instalar um sistema sofisticado de planejamento em uma operação que ainda não confia nos próprios estoques.

Ao longo de anos observando operações industriais, varejistas e logísticas, fica claro que a maturidade operacional normalmente evolui em camadas.

O primeiro nível é o da operação reativa. Aqui, o dia a dia é dominado por urgências. Falta produto, sobra produto, o transporte atrasa, pedidos são refeitos, inventários não batem. Grande parte da energia da liderança está concentrada em “apagar incêndios”.

Nesse estágio, quatro características aparecem com frequência: baixa confiabilidade de dados; processos instáveis com pouca padronização; decisões altamente dependentes de pessoas específicas e muita ineficiência com baixa replicabilidade.

Porém, muitas operações conseguem crescer mesmo assim. Elas funcionam muito mais pelo protagonismo e talento individual do time do que pela robustez do sistema operacional. O salto para o próximo nível acontece quando a empresa consegue estabilizar a operação.

No segundo estágio, surge a operação estruturada. Processos começam a ser padronizados, indicadores aparecem de forma mais consistente e existe uma tentativa real de controlar variabilidade. Inventários passam a ter rotinas claras, a logística ganha algum nível de planejamento e as responsabilidades começam a ficar mais definidas.

Aqui aparece um fator crítico de maturidade: disciplina de gestão. Não é tecnologia que faz esse salto acontecer; e sim a governança. Rituais de acompanhamento, metas claras, gestão visual, indicadores bem definidos e uma liderança que cobra consistência na execução. Muitas empresas subestimam o poder dessas rotinas básicas.

A partir daí, surge o terceiro estágio: a operação gerenciada por dados. Nesse nível, a empresa já tem estabilidade suficiente para começar a tomar decisões estruturais baseadas em informação. Forecast passa a ser levado a sério, níveis de estoque começam a ser dimensionados com critérios mais claros, e a logística deixa de ser apenas execução para participar da estratégia.

A empresa começa a estruturar rotinas de gestão, reuniões de acompanhamento dos indicadores, plano de ação com “acabativa” e a percepção de evolução se torna mais clara.

As rotinas e rituais são claros e estruturados, gerando ritmo, reforçando padrões e resolvendo problemas na causa raiz. Isso permite uma evolução contínua, estável e com ciclos de melhorias.

E então chegamos ao último estágio: a operação integrada ao negócio. É nesse ponto que ferramentas mais sofisticadas realmente começam a fazer diferença. Modelos de planejamento, otimização de malha logística, segmentação de estoques, análises de produtividade e simulações de cenários.

Mas há um detalhe importante: empresas que atingem esse estágio normalmente não chegaram lá apenas com tecnologia, e sim porque desenvolveram capacidade analítica dentro da operação. Ou seja, pessoas que sabem interpretar dados e transformar números em decisões.

Quando a operação deixa de ser apenas eficiente e passa a ser estrategicamente integrada ao negócio, o supply chain participa da formulação de decisões de alto impacto, como: definição de malha logística; estratégias de estoque; posicionamento de centros de distribuição; nível de serviço de acordo com a necessidade do cliente e decisões de “make or buy”. Esse é o estágio onde surgem organizações verdadeiramente competitivas.

Vale ressaltar que a evolução entre esses níveis raramente acontece por acaso. Existem alavancas claras que permitem saltar de estágio. A primeira delas é clareza de processo. Operações maduras sabem exatamente como trabalham. Processos críticos são mapeados, responsabilidades são definidas e existe consistência na execução.

A segunda alavanca é qualidade da informação. Não existe gestão avançada com dados frágeis. Empresas que evoluem investem cedo em confiabilidade de estoque, rastreabilidade e governança de dados.

A terceira propulsora de evolução, e uma das mais importantes, é o desenvolvimento de pessoas. Nenhuma operação se torna sofisticada apenas com sistemas. Ela evolui quando as equipes aprendem a pensar e trabalhar em sinergia: entender causa e efeito, interpretar indicadores, antecipar problemas e tomar decisões estruturadas.

E uma quarta alavanca, que costuma diferenciar empresas medianas de empresas de alto desempenho, é a liderança operacional. Operações maduras têm líderes que não gerenciam apenas tarefas. Eles criam rotinas, estabelecem prioridades claras, conectam indicadores à estratégia e garantem que a organização aprenda continuamente com seus próprios dados.

No final, a maturidade operacional não será atingida somente em um projeto. É uma jornada, que passa por processos, tecnologia, planejamento e estratégia, mas que, acima de tudo, depende da capacidade de uma organização de evoluir em sua forma de tomar decisões. Porque no fundo, operações maduras não são aquelas que somente executam melhor; são as que entregam consistência, estratégia e pensam melhor sobre como operar. 


 
* Andrey Leite é diretor da Ekantika Consultoria

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