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Desafios e oportunidades do Porto de Chancay, o megaprojeto da China na Amazônia

Consórcio Internacional apresenta primeiro relatório sobre o impacto do porto e alerta para a necessidade de planejamento e governança para aproveitar o novo hub logístico
Por Redação em 6 de abril de 2026 às 7h42
Desafios e oportunidades do Porto de Chancay, o megaprojeto da China na Amazônia
Foto: Divulgação / Cosco Shipping Ports Chancay
Foto: Divulgação / Cosco Shipping Ports Chancay

O Consórcio Conexão Chancay - Amazônia apresentou os resultados de seu primeiro relatório de pesquisa sobre o Porto de Chancay, megaporto recém-inaugurado pela China no Peru. O consórcio é formado pelo Centro de Estudos sobre China e Ásia-Pacífico da Universidad del Pacífico (CECHAP), pelo Centro de Estudos sobre a Extração de Recursos Naturais e Sociedade da Clark University (EUA) e pela organização peruana Derecho, Ambiente y Recursos Naturales (DAR). 

Inaugurado em novembro de 2024, o Porto de Chancay fica a cerca de 70 km da capital peruana, Lima. O projeto foi liderado pela companhia marítima estatal chinesa Cosco Shipping Company e teve investimentos totais estimados em US$ 3,4 bilhões, cerca de R$ 19,7 bilhões. O complexo portuário foi pensado como ponto estratégico da chamada "Nova Rota da Seda", e visa a expansão da presença e influência chinesa na América Latina. 

Pela infraestrutura, a China aumenta sua capacidade de desembarque de mercadorias na América do Sul e de transporte dos produtos importados da região, principalmente minérios e produtos agrícolas. Em troca, os países da região recebem um novo hub logístico capaz de facilitar o escoamento da produção regional para exportação.

Para o Brasil, o porto pode representar uma porta para o oceano Pacífico, com um potencial de gerar ganhos significativos para as exportações nacionais. O megaprojeto bilionário deve encurtar em um terço o tempo médio que a produção brasileira leva para chegar ao Oriente.

Intitulado "De Chancay à Amazônia: panorama de expectativas, desafios e oportunidades", o relatório do Consórcio Conexão Chancay analisou o estado atual do desenvolvimento do porto e suas possíveis implicações para a Amazônia e a integração regional. O documento é o primeiro de quatro relatórios que o consórcio apresentará ao longo de 2026, com o objetivo de fornecer evidências e análises que contribuam para o debate público sobre as oportunidades, riscos e condições necessárias para que o porto de Chancay gere desenvolvimento sustentável para o Peru. 

 

Oportunidades no comério internacional

O relatório destaca que a construção do megaprojeto logístico – que envolveu um investimento de US$ 1,3 bilhão em sua primeira fase – abre oportunidades relevantes para o comércio internacional e a conectividade do país. No entanto, alerta que o Peru enfrenta importantes desafios institucionais, regulatórios e de planejamento para aproveitar plenamente seu potencial e evitar impactos negativos nos territórios amazônicos. 

O estudo ressalta que o desenvolvimento do porto de Chancay está inserido em um processo mais amplo de transformação dos sistemas logísticos globais, que buscam fortalecer as rotas comerciais entre a América Latina e a Ásia e posicionar novos polos portuários no Pacífico sul-americano. Pilar Delpino, pesquisadora do Consórcio, afirma que "projetos como o porto de Chancay nos dão a oportunidade de refletir sobre o desenvolvimento logístico de todo o país". 

 

Um porto com potencial estratégico para o Peru 

O relatório analisa o processo de desenvolvimento do porto de Chancay e as expectativas geradas em torno de seu papel como novo hub logístico do Pacífico sul-americano, capaz de fortalecer o comércio entre a América Latina e a Ásia. 

Terminal Portuário Multipropósito de Chancay é um projeto logístico privado de uso público que, em sua primeira fase já construída, tem capacidade para movimentar até 1 milhão de contêineres (TEU) por ano, o que o posicionaria entre os principais terminais de contêineres do país. 

O documento aponta que a história do porto remonta a 2007, e não a 2019. Nesse período, ele passou de um porto regional a um terminal de contêineres com função de hub e equipamentos de última geração. Para se aproximar dos principais portos do continente, seu crescimento dependerá do aumento da carga de transbordo de países vizinhos e da aceleração da inserção da produção peruana nos mercados asiáticos. 

Para avançar nesse desafio, será fundamental impulsionar uma estratégia de corredores econômicos. Segundo o pesquisador do CECHAP, Omar Narrea, "os centros produtivos da costa norte já têm competitividade para aproveitar o novo canal logístico para a Ásia, enquanto os da Amazônia ainda carecem de conectividade, competitividade e estratégias de uso sustentável". 

 

Amazônia: oportunidade e desafio 

Um dos principais eixos do relatório é a análise da possível conexão entre o porto de Chancay e a Amazônia, uma relação que pode gerar novas oportunidades de integração econômica e conectividade territorial. 

O relatório lembra que a Amazônia peruana representa cerca de 60% do território nacional, de modo que qualquer rede de conectividade vinculada ao novo porto pode ter implicações territoriais, econômicas e ambientais de grande escala. 

No entanto, o documento ressalta que experiências anteriores de desenvolvimento de infraestrutura na Amazônia tendem a superestimar seus benefícios econômicos e subestimar seus custos sociais e ambientais, o que exige uma abordagem estratégica e preventiva em relação a novos projetos de conectividade. 

Nesse contexto, os pesquisadores destacam a necessidade de antecipar impactos relacionados ao desmatamento, mudanças no uso do território, expansão de atividades logísticas e proteção das comunidades locais, bem como de fortalecer os mecanismos de governança territorial para gerir adequadamente esses processos de transformação.

De acordo com o representante da DAR, César Gamboa, "o porto de Chancay é uma oportunidade de fazer as coisas corretamente, levando em conta as lições aprendidas com projetos de infraestrutura anteriores, evitando mais desmatamento como ocorreu com a Interoceânica Sul e o aumento da mineração ilegal, e fazendo as coisas de forma adequada, como na exploração do gás de Camisea, sem impactar tanto as comunidades e a Amazônia". 

 

Desafios e falta de visão integrada

Entre as principais conclusões do estudo, destaca-se a ausência de um planejamento integrado que articule infraestrutura, conectividade, ordenamento territorial e sustentabilidade ambiental, especialmente no que diz respeito à Amazônia. 

Nesse sentido, o relatório aponta a limitada existência de mecanismos governamentais capazes de coordenar e executar um programa ambicioso de infraestrutura, condição necessária para integrar o porto ao restante do território nacional. Também identifica a escassez de iniciativas voltadas à diversificação dos mercados vinculados ao porto, o que pode reduzir o impacto econômico esperado caso não sejam desenvolvidas novas cadeias produtivas e comerciais associadas ao novo hub logístico. 

Por fim, os pesquisadores alertam para a insuficiência de investimentos e capacidades institucionais para garantir que as infraestruturas de acesso associadas ao porto - como rodovias, ferrovias e vias navegáveis - gerem retornos econômicos e sociais sustentáveis ao longo do tempo. Nesse sentido, Pilar Delpino afirma que "o porto de Chancay representa um desafio e, para aproveitá-lo, devemos planejar desde já para que beneficie todo o país". 

 

Agenda de pesquisa para debate público 

O projeto Conexão Chancay - Amazônia busca construir uma agenda de análise e reflexão sobre o futuro da conectividade regional no Peru. 

Por meio dos quatro relatórios que serão apresentados ao longo de 2026, o consórcio espera fornecer insumos técnicos e evidências que contribuam para enriquecer o debate público, acadêmico e político sobre as oportunidades e os desafios apresentados pelo desenvolvimento do porto de Chancay e pelos investimentos em infraestrutura e logística relacionados à Amazônia. 

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