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A descarbonização começa na empresa, mas avança fora de seus muros

Por Fabio Nakamura e Kenyth Alves de Freitas em 20 de agosto de 2026 às 7h00
A descarbonização começa na empresa, mas avança fora de seus muros

Empresas de diversos setores vêm anunciando metas cada vez mais ambiciosas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. No entanto, um dos principais obstáculos para cumprir esses compromissos está longe das fábricas, dos escritórios e dos centros de distribuição. Grande parte das emissões de carbono está distribuída ao longo da cadeia de suprimentos, envolvendo milhares de fornecedores responsáveis pela produção de matérias-primas, componentes, embalagens e serviços logísticos.

Segundo o GHG Protocol, principal referência internacional para a mensuração de emissões, as chamadas emissões de Escopo 3 representam, em média, entre 70% e 90% da pegada de carbono das empresas. Na indústria automotiva, esse percentual pode ultrapassar 99%, considerando tanto o uso dos veículos quanto toda a cadeia de suprimentos. O dado revela uma mudança importante: a descarbonização deixou de ser um desafio exclusivamente interno e passou a depender da capacidade de coordenar uma extensa rede de parceiros.
 
Essa realidade ganha especial relevância na indústria automotiva. Nos últimos anos, montadoras intensificaram seus compromissos climáticos impulsionadas por investidores, consumidores, reguladores e pela própria competição global. No Brasil, esse movimento ganhou novo impulso com o Programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), sucessor do Rota 2030, que deverá mobilizar cerca de R$ 190 bilhões em investimentos, dos quais R$ 140 bilhões serão destinados à indústria automotiva e R$ 50 bilhões ao setor de autopeças.

Mais do que estimular a inovação, o programa amplia as exigências relativas à pegada de carbono para fornecedores de aço, de alumínio, de componentes e de serviços logísticos. Isso significa que atingir as metas ambientais dependerá cada vez menos do desempenho das montadoras isoladamente e cada vez mais da evolução de toda a cadeia produtiva.

É justamente aí que surge um dos maiores desafios. Durante décadas, as áreas de compras e de supply chain foram avaliadas principalmente pela capacidade de reduzir custos, garantir o abastecimento e aumentar a eficiência operacional. Hoje, espera-se que também liderem iniciativas relacionadas à rastreabilidade, ao compartilhamento de dados e à redução de emissões ao longo de toda a cadeia de suprimentos. Na prática, porém, essa transformação ocorre em velocidades muito distintas.

O Desafio de Envolver os Fornecedores na Descarbonização

Grandes empresas normalmente dispõem de equipes especializadas, de acesso a tecnologias e de capacidade financeira para estruturar inventários de emissões e implementar programas de sustentabilidade. Já muitos fornecedores, especialmente pequenas e médias empresas, ainda enfrentam dificuldades básicas para medir emissões, organizar dados, acessar financiamento e investir em melhorias operacionais.

Os números ajudam a explicar esse cenário. Levantamento da Science Based Targets initiative (SBTi) mostra que 85% das empresas consideram a disponibilidade de dados um dos principais obstáculos para elaborar seus inventários de emissões. Em aproximadamente 70% dos casos, a principal dificuldade reside justamente na ausência de informações por parte dos parceiros da cadeia. Para muitas empresas menores, a sustentabilidade ainda disputa espaço com desafios mais imediatos, como a produtividade, o fluxo de caixa e a sobrevivência em mercados altamente competitivos.

A situação torna-se ainda mais complexa à medida que a cadeia se expande. Enquanto as montadoras mantêm boa visibilidade sobre seus fornecedores diretos, o conhecimento sobre fornecedores de segundo, terceiro e quarto níveis diminui significativamente. Consequentemente, também se reduz a capacidade de identificar emissões, disseminar boas práticas e acompanhar a evolução dos resultados.

Ao mesmo tempo, a pressão exercida pelas montadoras não é arbitrária. Elas próprias respondem às expectativas de investidores, consumidores, governos e reguladores. Em um ambiente de crescente transparência, ignorar as emissões ao longo da cadeia deixou de ser uma opção. O desafio é que essa pressão frequentemente cria um paradoxo: fornecedores precisam investir em sustentabilidade enquanto continuam submetidos à redução de custos, ao aumento de produtividade e a prazos cada vez mais curtos.

Por isso, limitar-se a estabelecer metas ou incluir cláusulas ambientais em contratos tende a produzir resultados modestos. A descarbonização exige investimentos, desenvolvimento tecnológico, revisão de processos e, sobretudo, construção de competências ao longo de toda a cadeia. Especialistas envolvidos na implementação do Programa Mover defendem que a gestão das emissões precisa alcançar o mesmo nível de disciplina hoje aplicado à qualidade, à produtividade e à segurança operacional, com indicadores consistentes, monitoramento contínuo e processos auditáveis.

Empresas Bem-sucedidas

É justamente essa lógica que começa a orientar iniciativas internacionais de desenvolvimento de fornecedores. Em vez de apenas exigir resultados, algumas empresas passaram a investir em programas de capacitação, compartilhamento de conhecimento, apoio técnico, plataformas digitais para troca de informações e melhoria contínua.

Um dos exemplos mais relevantes é a Catena-X, uma iniciativa criada por montadoras como BMW, Mercedes-Benz e Volkswagen para estabelecer uma infraestrutura padronizada de compartilhamento de dados entre todos os participantes da cadeia automotiva. Seu objetivo é criar uma linguagem comum para medir e rastrear a pegada de carbono de componentes ao longo de toda a cadeia de valor, reduzindo a assimetria de informações e aumentando a transparência entre empresas de diferentes níveis.

Esse tipo de iniciativa evidencia que a descarbonização deixou de ser apenas uma questão ambiental. Trata-se, sobretudo, de um desafio de coordenação da cadeia de suprimentos. Quanto mais complexa a rede de fornecedores, maior será a necessidade de mecanismos de governança capazes de alinhar objetivos, compartilhar informações e promover colaboração entre organizações com diferentes níveis de maturidade.

O Papel da Logística na Descarbonização

Nesse contexto, a logística assume um papel cada vez mais estratégico. A rastreabilidade das operações, a seleção de fornecedores, o planejamento de transportes, a gestão de embalagens, a consolidação de cargas e a mensuração das emissões passam a integrar as decisões operacionais do dia a dia. A competitividade deixa de depender apenas da eficiência física dos fluxos e passa a incorporar também a capacidade de gerar informações confiáveis sobre a própria pegada ambiental.

A pergunta, portanto, já não é se as empresas precisam descarbonizar. Esse consenso está estabelecido. O verdadeiro desafio é construir uma cadeia de suprimentos capaz de transformar milhares de fornecedores, com diferentes realidades e níveis de desenvolvimento, em participantes ativos dessa agenda.

Em última análise, a descarbonização deixou de ser apenas um desafio tecnológico ou ambiental. Tornou-se um teste de coordenação entre empresas que compartilham a mesma cadeia de valor. Nos próximos anos, a vantagem competitiva poderá depender menos de quem estabelece as metas mais ambiciosas e mais de quem consegue mobilizar toda a sua cadeia para alcançá-las.

 

A descarbonização começa na empresa, mas avança fora de seus muros
Fabio Nakamura é Gerente de Compras e Suprimentos do Insper e possui mais de 17 anos de experiência nas áreas de Procurement e Supply Chain. Ao longo de sua carreira, atuou em empresas como ZF, Continental, Coca-Cola FEMSA, Alsco e Saraiva, liderando equipes e projetos relacionados a strategic sourcing, negociação, contratos, gestão de fornecedores e transformação de processos de compras. É mestrando profissional em Administração pelo Insper, pós-graduado em Finanças pela FEA/Ribeirão Preto e graduado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Possui também experiência internacional em projetos e workshops de compras na Alemanha, na Holanda, na Hungria e na Índia.
 
A descarbonização começa na empresa, mas avança fora de seus muros
Kenyth Alves de Freitas é professor assistente do Insper na área de Operações. É doutor em Administração pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com mestrado na mesma área e graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi pesquisador visitante na Indiana University durante o doutorado. Atualmente, também integra o Comitê Técnico de Manufatura Avançada da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), onde colabora no apoio a políticas industriais.
 

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