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Transformações na logística: o que os grandes contratantes vão exigir dos operadores

Por Boris Leite el 9 de junio de 2026 a las 7h57
Boris Leite
Boris Leite, sócio-fundador da Ekantika

O mercado logístico vive uma das suas maiores transformações. Fusões e aquisições em ritmo acelerado, crescimento das logtechs, expansão da automação, avanço da inteligência artificial e consolidação de grandes operadores estão redesenhando o setor. E uma questão central é o que essas transformações significam para os maiores compradores serviços logísticos, principalmente varejistas, indústrias, distribuidores e grandes embarcadores.

Para buscar as respostas, precisamos entender como está o cenário da cadeia de suprimentos no Brasil. Em 2025, o país atingiu 44 milhões de metros quadrados de condomínios logísticos e registrou taxa de vacância mínima histórica de 7,3%. Operadores logísticos e empresas de comércio eletrônico responderam por quase dois terços da ocupação desses ativos.

Ao mesmo tempo, o setor experimenta uma forte consolidação. Nos últimos anos, dezenas de operações de fusões e aquisições foram realizadas no segmento, enquanto grandes grupos ampliaram sua presença nacional e internacional.

O resultado desses movimentos é um mercado mais robusto, mais tecnológico e com maior capacidade de investimento. Mas também mais sofisticado e exigente para seus clientes. Se antes a seleção de um operador logístico era baseada principalmente em preço, cobertura geográfica e capacidade operacional, hoje os critérios de decisão se tornaram significativamente mais complexos.

O crescimento de empresas brasileiras do setor, como a JSL e outros operadores especializados revelam uma mudança estrutural. Os players do segmento já não atuam apenas nas operações de transporte e armazenagem, mas assumem funções cada vez mais estratégicas dentro das cadeias de suprimentos.

A proposta de valor passa a incluir inteligência operacional, integração tecnológica, visibilidade em tempo real, automação de processos, planejamento de demanda, gestão de riscos, sustentabilidade e experiência do cliente.

Na prática, o operador logístico passa a influenciar diretamente indicadores de crescimento, rentabilidade e satisfação dos consumidores finais. Para as empresas contratantes, isso cria uma oportunidade importante, mas também uma nova responsabilidade.

O avanço da consolidação e da tecnologia amplia significativamente o leque de soluções disponíveis no mercado. Por outro lado, escolher o parceiro correto tornou-se mais difícil. Nem sempre o operador com maior escala será o mais adequado. Nem sempre a tecnologia mais sofisticada resolverá os gargalos existentes. Nem sempre uma operação integrada produzirá os resultados esperados.

Em vez de depender de performances extraordinárias individuais, passa-se a pensar em "qual modelo operacional é mais aderente à estratégia da minha empresa?". Essa mudança exige maior maturidade na gestão logística por parte dos embarcadores.

Empresas que não possuem clareza de seus objetivos operacionais, indicadores críticos e prioridades estratégicas tendem a capturar apenas parte do valor que esses novos modelos oferecem.

 

A chave da mudança

Existe uma percepção comum e equivocada de que a transformação logística depende apenas dos operadores. Na realidade, muitos projetos fracassam porque a organização contratante não está preparada para absorver as novas capacidades oferecidas pelo mercado.

A adoção de tecnologias avançadas, por exemplo, exige integração de sistemas, qualidade de dados, revisão de processos e alinhamento entre áreas como logística, tecnologia, comercial, atendimento e finanças.

O mesmo ocorre com projetos de automação, inteligência artificial ou operações omnichannel. O ganho não está apenas na tecnologia disponibilizada pelo operador, mas na capacidade da empresa de incorporá-la aos seus processos de decisão. Quanto mais sofisticados se tornam os prestadores de serviços logísticos, maior passa a ser a necessidade de preparação interna dos seus clientes.

Além disso, a rápida disseminação da Inteligência Artificial muda o jogo também na logística. Ferramentas de IA já permitem prever demandas e atrasos, identificar gargalos operacionais, otimizar estoques, ajustar rotas e antecipar riscos de ruptura.

Mas o verdadeiro impacto não está apenas na eficiência operacional. A IA tende a transformar a própria relação entre contratantes e operadores logísticos.

Empresas que utilizarem dados de forma estruturada poderão estabelecer modelos muito mais sofisticados de governança, acompanhamento de desempenho e tomada de decisão conjunta com seus parceiros logísticos.

A gestão baseada apenas em SLA (nível de serviço) e indicadores retrospectivos tende a ser substituída por modelos preditivos e orientados por inteligência de dados. Nesse novo cenário, a qualidade da informação passa a ser tão importante quanto a qualidade da operação.

Porém, apesar de toda a transformação tecnológica, o objetivo final permanece o mesmo: entregar mais valor ao cliente final com menor custo e maior eficiência. A diferença é que alcançar esse objetivo exige, hoje, uma visão muito mais sistêmica.

A discussão deixou de ser exclusivamente logística. Ela envolve estratégia corporativa, desenho organizacional, transformação digital, experiência do cliente, governança e capacidade de execução.

Empresas líderes estão revisando redes logísticas, modelos operacionais, estruturas de decisão e mecanismos de integração com seus parceiros para capturar ganhos de produtividade, reduzir complexidade e aumentar sua capacidade de adaptação.

 

Os desafios à frente

Os movimentos observados entre os grandes operadores não são uma tendência passageira. Eles indicam uma reorganização estrutural do setor. A consolidação continuará avançando. A automação se tornará mais acessível. A Inteligência Artificial ganhará escala. Os operadores ampliarão seu papel estratégico dentro das cadeias de suprimentos.

Nesse ambiente, a vantagem competitiva não estará apenas na escolha dos melhores fornecedores, mas na capacidade das empresas contratantes de construir uma estratégia logística coerente, desenvolver competências internas para gerenciar essa nova complexidade e transformar a logística em um instrumento efetivo de geração de valor.

O mercado oferece cada vez mais recursos e possibilidades. O desafio agora é saber como utilizá-los de forma integrada, consistente e alinhada aos objetivos do negócio. Porque, no fim das contas, não serão os operadores que determinarão os vencedores dessa transformação. Serão as empresas que souberem aproveitar melhor o que essa nova logística tem a oferecer.

 

*Boris Leite é sócio-fundador da Ekantika

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