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Inteligência Artificial na Logística: entre o entusiasmo e a realidade

Por Charles D. Cunha el 23 de julio de 2026 a las 8h57
Charles D. Cunha
Charles D. Cunha, Diretor de Operações Logísticas em granna Tora e Diretor de Operações e Inovação na ABOL

O setor logístico está diante de uma transformação

Se existe uma expressão que dominou os debates empresariais nos últimos anos, certamente é Inteligência Artificial. A cada evento, webinar, feira de negócios ou reunião estratégica, a IA aparece como protagonista, fico até com a impressão de que todo executivo se sente na obrigação de falar sobre o tema para mostrar-se atualizado.  

É verdade que para alguns, ela representa a maior revolução desde a internet. Para outros, uma ameaça aos empregos e aos modelos tradicionais de gestão. Entre os dois extremos, existe um espaço mais interessante, que eu entendo ser a realidade sobre o tema. 

Na logística, o tema vem ganhando cada vez mais relevância. Fornecedores de tecnologia apresentam soluções cada vez mais sofisticadas e contando, pois, a evolução não para. Empresas anunciam projetos inovadores. Investimentos são direcionados para sistemas que prometem maior eficiência operacional, previsibilidade e redução de custos. Tudo que precisamos para tempos de grande concorrência. 

Mas estamos realmente vivenciando uma revolução tecnológica nas operações ou ainda estamos construindo as bases para que isso aconteça? Minha percepção é que ainda estamos em uma fase de transição. A Inteligência Artificial já gera resultados concretos em diversas aplicações. Porém, a maturidade digital necessária para explorar todo seu potencial ainda está distante da realidade de grande parte das operações logísticas brasileiras. Ainda temos mais o sentimento do que é do que propriamente a experiência de como é. 

Por isso, eu acredito que, antes de falarmos sobre o futuro, é importante entender onde realmente estamos. O quanto efetivamente a IA tem sido usada de maneira a resolver os problemas, as dores de nosso setor. Isso é importante, pois não podemos entrar em modismos, se não resolve problema, então não serve. E, descobrindo isso, aí assim de fato entender o grau de maturidade dessas ferramentas no meio das empresas. O quanto e como usaremos as aplicações oferecidas pelo mercado. 

 

O que já mudou na logística

A boa notícia é que a Inteligência Artificial já deixou de ser uma promessa. Ela está presente em diversas atividades do dia a dia das operações logísticas. Talvez a aplicação mais visível seja a roteirização inteligente. Os sistemas atuais conseguem analisar simultaneamente centenas de variáveis, como distâncias, restrições operacionais, janelas de entrega, trânsito, custos, disponibilidade de veículos, histórico operacional e outras.

O resultado é uma tomada de decisão muito mais rápida e assertiva do que seria possível apenas por intervenção humana. Outro campo que vem avançando rapidamente é o da segurança operacional. Hoje, câmeras embarcadas equipadas utilizando IA conseguem identificar em tempo real comportamentos de risco como uso de celular ao volante, fadiga, distração, falta de cinto de segurança, distância inadequada do veículo à frente, direção agressiva e por aí vai. 

Além disso, a IA tem aprendido o jeito de trabalhar dos motoristas e consegue gerar pareceres que permitem, mesmo que o olhar humano não detecte, avaliar a condição dos motoristas para executar suas atividades, por exemplo, traços de desatenção. Em um setor onde vidas estão em jogo diariamente, talvez essa seja uma das aplicações mais relevantes da tecnologia no momento.  

Também observamos avanços importantes em manutenção preditiva. Tradicionalmente, a manutenção era baseada em quilometragem ou em ocorrências de falhas. Sempre muito apoiada em planos de manutenção preestabelecidos. Eram os famosos manuais do fabricante com seus planos “estáticos” definidos por quilometragem e/ou tempo, considerando de maneira genérica a utilização/atividades executadas pelos veículos e equipamentos. Mas agora, com o uso de inteligência artificial, passa a ser possível identificar padrões que antecipam problemas antes que eles aconteçam. Isso significa menos paradas não planejadas, maior disponibilidade dos ativos, melhor utilização da frota e redução de custos.

Outra aplicação crescente é o suporte à tomada de decisão. Relatórios automáticos, análise de indicadores, geração de alertas e assistentes virtuais já começam a fazer parte da rotina de gestores e operadores.

Embora esses avanços sejam significativos, é importante reconhecer que ainda estamos falando, em grande medida, da otimização de processos já existentes. De alguma forma, ainda a IA entra como um fator acelerador dos processos já existentes nas empresas. Minha percepção é que a verdadeira transformação ainda está por vir.

 

O grande equívoco do mercado

Uma das percepções mais equivocadas que vejo atualmente é a ideia de que basta adquirir uma solução de IA para se tornar uma empresa inovadora. Eu entendo que não é por aí. Em minha opinião, a Inteligência Artificial não resolve problemas estruturais.

Como eu disse anteriormente, ela acelera, otimiza, potencializa estruturas/processos que já existem. Dito isso, quando os processos são maduros, os dados são confiáveis e as equipes estão preparadas, os ganhos podem ser extraordinários. Quando isso não acontece, a tecnologia apenas acelera a geração de problemas.

É comum encontrarmos empresas que investiram muito dinheiro em sistemas avançados, mas continuam convivendo com planilhas paralelas, informações duplicadas, indicadores conflitantes e imprecisos, falta de integração entre áreas e/ou clientes, ausência de governança de dados. Eu costumo dizer que por vezes vemos empresas que passam por uma obesidade de dados e ainda sofrem de anorexia de tomada de decisão. Tem muitos dados a sua disposição, mas dificuldade para tomar decisões a partir deles. 

Nessas situações, a IA acaba se tornando uma ferramenta subutilizada. Por isso, acredito que o principal desafio da logística brasileira não seja tecnológico. O desafio é o que chamo de maturidade digital. Por vezes, empurramos uma série de sistemas para os profissionais, aparelhamos nossas empresas com todos os softwares de ponta, mas ainda pecamos na preparação dos profissionais para utilizarem e ainda não damos clareza nos objetivos da utilização. Gerando uma salada de sistemas, potencializando processos caducos. O resultado disso minimamente é o “caos digital”. 

 

Dados: o combustível da Inteligência Artificial

Existe uma frase muito conhecida no universo da tecnologia, se a entrada é ruim, a saída também será. A Inteligência Artificial depende diretamente da qualidade dos dados que recebe. Por isso, antes de investir em sistemas sofisticados, as organizações precisam fazer perguntas básicas. Os dados são confiáveis? Os sistemas conversam entre si? Os indicadores são consistentes? As informações são atualizadas em tempo real? 

Eu entendo que sem essas respostas, qualquer projeto de IA terá limitações. Parafraseado o que já falei acima, só potencializará o caos.  Na prática, muitas empresas ainda estão construindo a infraestrutura digital necessária para que a Inteligência Artificial possa entregar todo o seu potencial. Nosso setor fala muito sobre IA. Mas talvez devesse falar mais sobre qualidade da informação. Precisamos ter a consciência que ainda precisamos pavimentar essa estrada da organização dos processos e por que não da preparação das pessoas. 

 

O que ainda vemos pouco no Brasil

Quando analisamos os mercados mais avançados, percebemos que o potencial da Inteligência Artificial vai muito além daquilo que normalmente encontramos nas operações brasileiras. Um dos exemplos é a chamada tomada de decisão preditiva. Imagine uma plataforma capaz de identificar que, dentro de duas semanas, determinada região apresentará falta de capacidade operacional. Antes mesmo do problema acontecer, o sistema poderia projetar a demanda, identificar gargalos, simular cenários, recomendar contratações, avaliar impactos financeiros.

Essa capacidade ainda é pouco explorada. Outro exemplo é a torre de controle inteligente. Hoje, muitas torres operam de forma reativa, olhando no retrovisor. Elas recebem informações e respondem aos eventos. O que venho acompanhando e as empresas vem tentando construir são torres de controle que passarão a atuar de forma antecipada, colaborando na tomada de decisão. Os sistemas identificarão desvios antes que eles gerem impactos operacionais e mesmo financeiros. A IA não apenas mostrará o problema. Ela sugerirá a melhor ação para resolvê-lo. Desta forma mudaremos de patamar e utilizaremos a tecnologia para seu objetivo central, auxiliar na toma de decisão. Tenho certeza que isso é um caminho sem volta.

 

A próxima fronteira: integração da cadeia logística

Outro ponto que merece atenção é a integração entre os diversos elos da cadeia de suprimentos. Apesar dos avanços tecnológicos observados nos últimos anos, ainda operamos, em muitos casos, em estruturas fragmentadas, nas quais cada participante administra seus próprios dados, sistemas e indicadores de desempenho. O que por si só confronta a ideia de elos da cadeia que tanto ostentamos em nossos discursos quando falamos de integração das estruturas. 

Os embarcadores possuem informações sobre demanda, pedidos e planejamento de produção. Os operadores logísticos monitoram veículos, motoristas, disponibilidade de frota, execução das viagens, ainda concentram dados relacionados à armazenagem, movimentação, gestão de estoques e coordenação das operações. Os clientes, por sua vez, acompanham pedidos, prazos de entrega e níveis de serviço. Soma-se a esse cenário fornecedores, terminais, portos, seguradoras e órgãos reguladores, todos produzindo um enorme volume de informações diariamente, ou seja, as informações existem em larga oferta.

Já integração é algo a ser conquistado, precisamos evoluir.  Digo isso, pois acredito que, o problema é que os dados, na maioria das vezes, permanecem isolados em diferentes plataformas. Cada empresa enxerga apenas uma parte da operação, tomando decisões com base em uma visão limitada do seu “cercadinho”.  Cria-se, assim, um ambiente de "silos de informação", em que a falta de integração reduz a capacidade de antecipar problemas, responder rapidamente às mudanças, otimizar recursos, enfim, tomar decisões.

É justamente nesse contexto, em minha opinião, que a Inteligência Artificial tende a produzir seu maior impacto. Seu verdadeiro potencial não está apenas em automatizar tarefas ou acelerar cálculos, mas em conectar informações dispersas, identificar padrões invisíveis à análise humana e transformar uma enorme quantidade de dados em recomendações práticas para a tomada de decisão.

Imagine uma cadeia em que uma alteração na programação de produção do embarcador seja automaticamente compartilhada com o operador logístico, que, por sua vez, reprograme armazenagem, mão de obra e equipamentos. Já pensou uma transportadora recebendo essa informação e conseguindo ajustar a disponibilidade de veículos e motoristas. O impacto em custos e produtividade é absurdo! Não podemos esquecer que no caso do cliente sendo comunicado previamente sobre eventuais mudanças no prazo de entrega, gera uma confiabilidade extremamente salutar que evita uma série de ações que “inflacionam” a cadeia, efeitos chicote e por aí vai.

Esse fluxo contínuo de informações permitiria que toda a cadeia reaja de maneira sincronizada, reduzindo custos, eliminando desperdícios e aumentando significativamente o nível de serviço. Trazendo eficiência para todos e com certeza melhorando seus resultados. Quanto maior for a conectividade entre os participantes da cadeia, maior será a capacidade de prever demandas, otimizar ativos, reduzir estoques, minimizar tempos de espera e aumentar a capacidade de recuperação operacional diante de eventos inesperados.

Minha visão é que, se alcançarmos esse nível de aplicação da Inteligência Artificial, o protagonismo deixará de estar nas empresas que possuem mais dados e passará para aquelas que conseguirem compartilhar informações de forma segura, estruturada e colaborativa. Assegurando com isso sempre ter subsídios suficientes para tomar as melhores decisões. 

O grande salto de produtividade da logística não virá exclusivamente da evolução da Inteligência Artificial. Virá da capacidade de integrar pessoas, processos, sistemas e organizações em uma cadeia verdadeiramente conectada, na qual a informação flua com a mesma velocidade com que os produtos precisam se movimentar.

 

O papel das pessoas na era da IA

Talvez a maior surpresa para muitos seja que a evolução da Inteligência Artificial está tornando as pessoas ainda mais importantes. Num primeiro momento, essa afirmação pode parecer contraditória, afinal, grande parte das discussões sobre IA está associada à automação de tarefas e à substituição de atividades tradicionalmente desempenhadas por seres humanos. Porém, quando observamos a realidade das operações logísticas, percebemos justamente o movimento oposto. É bem verdade que a Inteligência Artificial consegue processar milhões de dados em poucos segundos, identificar padrões complexos, realizar previsões e recomendar ações com um nível de velocidade impossível para qualquer um de nós. Porém, ela ainda não compreende o contexto completo em que as decisões acontecem. Não conhece a cultura da organização, não entende as relações entre clientes e fornecedores, não percebe os impactos políticos de uma negociação, tampouco substitui a sensibilidade necessária para liderar pessoas em momentos de crise. 

Na logística, os desafios raramente são exclusivamente técnicos. Eles envolvem pessoas, relacionamentos, restrições legais, fatores econômicos, comportamento do mercado e variáveis que nem sempre aparecem nos indicadores de desempenho. É justamente nesse ambiente complexo que a experiência humana continua sendo indispensável.

As melhores decisões continuarão dependendo da capacidade de interpretar contextos, equilibrar riscos, avaliar consequências e compreender nuances que dificilmente poderão ser traduzidas integralmente pelos sistemas. Liderança, visão sistêmica, negociação, comunicação e gestão de pessoas continuarão sendo competências essenciais, talvez ainda mais relevantes do que são hoje.

Isso significa que o perfil do profissional da logística também está mudando. O diferencial competitivo deixará de ser apenas conhecer profundamente uma ferramenta ou dominar um processo específico. O profissional mais valorizado será aquele capaz de combinar conhecimento técnico, pensamento analítico e capacidade de trabalhar em parceria com sistemas inteligentes.

Em outras palavras, o futuro pertence aos profissionais que souberem fazer as melhores perguntas para a Inteligência Artificial, interpretar suas respostas e transformar recomendações em decisões estratégicas.

Essa mudança também impõe um novo desafio às organizações, investir no desenvolvimento das pessoas passa a ser um imperativo. Não basta adquirir tecnologia de ponta se líderes, gestores e equipes não estiverem preparados para utilizá-la de forma eficiente. A transformação digital não acontece quando uma empresa compra um software. Ela acontece quando as pessoas mudam a forma de pensar, decidir e executar suas tarefas.

Por isso, acredito que o profissional do futuro não será aquele que competirá com a Inteligência Artificial, mas aquele que aprenderá a tirar da tecnologia tudo que ela tem para oferecer em prol de sua carreira. A IA assumirá tarefas repetitivas, acelerará análises e ampliará nossa capacidade de processamento de informações. Em contrapartida, caberá a nós aquilo que sempre foi nosso maior diferencial, criatividade, pensamento estratégico, julgamento, ética, empatia, liderança e por aí vai.

 

Conclusão: 

O setor logístico sempre foi impulsionado pela busca incessante por eficiência, redução de custo e produtividade. Talvez seja justamente essa característica que explique sua capacidade de adaptação ao longo das últimas décadas. Nossa atividade precisou evoluir diante de mudanças econômicas, regulatórias, tecnológicas e de comportamento do mercado, consolidando a logística como uma das áreas mais dinâmicas da economia. 

Ao longo dessa trajetória, diversas tecnologias prometeram revolucionar as operações. Algumas realmente transformaram a forma como planejamos, executamos e controlamos a logística, como os ERPs, os sistemas TMS e WMS, telemetria, rastreamento, Internet das Coisas, entre outras. Com a Inteligência Artificial, acredito que viveremos uma transformação ainda mais profunda.

Não porque ela seja uma solução mágica, mas porque representa uma nova forma de utilizar dados para apoiar decisões. Ainda assim, é importante manter uma visão equilibrada. A IA não corrigirá processos mal estruturados, débeis, não substituirá lideranças despreparadas e muito menos compensará a ausência de uma cultura orientada por dados, análises e busca por melhoria de contínua. 

Existe uma tendência de acreditar que a vantagem competitiva estará nas empresas que mais investirem em tecnologia. Na minha visão, esse raciocínio é incompleto. O diferencial não será determinado pelo volume de investimento em softwares, mas pela capacidade de transformar tecnologia em resultados objetivos.

Estamos diante de uma mudança de paradigma. Durante muitos anos, a competitividade esteve associada ao tamanho da frota, da estrutura física ou da capacidade de investimento. Nos próximos anos, ela dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados em conhecimento, conhecimento em decisões e decisões em resultados. A tecnologia deixará de ser um diferencial e passará a ser um requisito básico para competir.

Os vencedores dessa transformação não serão, necessariamente, aqueles que investirem mais, mas aqueles que investirem melhor, usarem de maneira estratégica os dados que possuem. Empresas capazes de integrar pessoas, processos e tecnologia, apoiadas por dados confiáveis, uma boa gestão da informação e uma cultura de melhoria contínua, estarão mais preparadas para responder às mudanças do mercado, antecipar riscos e gerar maior valor para seus clientes.

No final das contas, a Inteligência Artificial democratizará o acesso à tecnologia, mas continuará sendo a qualidade da gestão que determinará quem transformará essa tecnologia em vantagem competitiva sustentável.
Porque, no fim, a vantagem competitiva continuará sendo a mesma, transformar informação em decisão e decisão em resultado.

 

* Charles D. Cunha é graduado em Teologia e Logística Empresarial, possui MBAs em Gestão de Projetos e em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV), e está cursando pós-graduação em Administração de Empresas pela mesma instituição. Diretor de Operações Logísticas em grande Operador Logístico e Diretor de Operações e Inovação na ABOL, conta com mais de 25 anos de experiência, com sólida atuação na gestão de frotas próprias e agregadas, Centros de Controle Operacional (CCOs), terminais multimodais, planejamento logístico e manutenção. Possui ampla experiência em operações inbound e outbound, distribuição, gestão de frota e contratação de transportadoras, atendendo diversos setores, como indústria automobilística, varejo, farmacêutico, químico, agronegócio, mineração, siderurgia, entre outros.

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