
A Innotrans, maior feira ferroviária do mundo, comemorou nesse ano sua 30ª edição. Estive na feira junto da delegação Brazil on Rails e divido aqui minhas principais impressões:
1. Alta tecnologia embarcada
Um ponto de destaque memorável é área de exposição de material rodante da feira: nesse ano foram apresentados 113 veículos de 17 países . A agenda de descarbonização (pela via dos veículos de propulsão alternativa) e uso de IA embarcada foram pontos altos.
A suíça Stadler Rail levou sete veículos a Berlim, entre eles um trem de bitola estreita a hidrogênio e um regional movido a bateria.
A Siemens Mobility e a espanhola CAF também apresentaram veículos com tecnologias de propulsão alternativa; a CAF, em particular, trouxe uma unidade múltipla elétrica a bateria. A chinesa CRRC lançou sua locomotiva híbrida a célula de combustível de hidrogênio, exibida pela primeira vez. A francesa Alstom, por sua vez, mostrou duas locomotivas Traxx com uma inovadora tecnologia de sinalização embarcada. É a prova de que a modernização passa tanto pelo que move o trem quanto pelo que garante sua segurança e capacidade na via.
Diversas aplicações de inteligência artificial ganharam espaço: o metrô inteligente VELLINK, da CRRC, conta com sensores inteligentes que monitoram a via e o próprio veículo, permitindo automação da condução e eficiência nas rotas de manutenção. O TampingControl da Plasser destacou-se pela possibilidade de medição da condição do trilho e adaptar a performance da máquina em tempo real.
A possibilidade de operação remota de trens parece cada vez mais tangível e deve ser observada considerando os contornos regulatórios e de segurança da operação.
2. Delegação brasileira fazendo bonito
O Brazil on Rails completou dez edições na InnoTrans e, desta vez, chegou maior, com uma grande novidade: a Casa da Mobilidade Brasileira. A comitiva somou mais de 320 empresários, executivos, especialistas e representantes de instituições públicas e privadas, e a Casa reuniu 105 organizações brasileiras, ante 63 marcas e 228 executivos em 2024. Estava ali a cadeia inteira: fabricantes, infraestrutura, engenharia, consultorias, operadores, logística, investidores, órgãos públicos e entidades.
Sem risco de bairrismo, foi com muito orgulho que percebi como os profissionais brasileiros são reconhecidos mundialmente por sua competência, criatividade e liderança. Não por acaso, Antonio Merheb, da MRS Logística, assumiu em 11 de março de 2026 o cargo de CEO da International Heavy Haul Association (IHHA).
3. Carteira de projeto e inovações regulatórias e de modelagens: o que esperar para o futuro do setor no Brasil
Tive a honra de mediar, no segundo dia, o Brazil on Rails Talks dedicado ao Ministério dos Transportes, com Marconi Arani Melo Filho, consultor jurídico da pasta, e Diógenes Alvares, superintendente de Projetos Ferroviários da INFRA S.A.
O painel tratou da mudança de arquitetura institucional e regulatória que já se reflete na carteira de projetos brasileira. Nesse novo arranjo, destacam-se a modernização dos investimentos cruzados (e a pacificação de sua viabilidade jurídica), a ampliação do escopo do Fundo Clima para material rodante e projetos ferroviários, a previsão de aportes e contas vinculadas, o incentivo a captações em dólar, o incremento de receitas acessórias (sobretudo em desenvolvimento imobiliário associado às ferrovias) e, ainda, uma divisão mais equitativa de riscos entre parceiro público e parceiro privado.
Também repercutiu a expectativa de avanço na adesão do Brasil ao Protocolo Ferroviário de Luxemburgo, tratado internacional adotado como protocolo à Convenção da Cidade do Cabo sobre Garantias Internacionais Relativas a Equipamentos Móveis. O Protocolo institui um marco jurídico global destinado a tornar mais seguro o financiamento privado de todos os tipos de material rodante ferroviário. Para isso, assegura o reconhecimento e a hierarquização dos direitos de garantia detidos por credores que concedem empréstimos ou arrendamentos sobre esses ativos, inscritos em um registro internacional público e acessível pela internet, e introduz, de forma inédita, um sistema global de identificação única e permanente do material rodante (URVIS). O tratado entrou em vigor em 8 de março de 2024 e conta atualmente com a ratificação de Espanha, Suécia, Luxemburgo, Paraguai, Gabão e África do Sul, além da União Europeia no âmbito de suas competências.
Para o Brasil, a eventual adesão ao Protocolo poderia trazer vantagens relevantes. Ao permitir que o setor privado financie o material rodante de forma sustentável, o regime libera recursos públicos e de investidores para a construção da infraestrutura propriamente dita e possibilita, em modelagens de PPP, o financiamento apartado e mais barato dos equipamentos, com recurso limitado e por meio de diferentes estruturas de arrendamento mercantil e de crédito à exportação.
O arrendamento operacional confere maior flexibilidade aos operadores, ao transferir os riscos financeiros e de obsolescência aos arrendadores privados. Além disso, o Protocolo alcança também os equipamentos de construção e manutenção que circulam sobre trilhos, que podem ser financiados a taxas mais favoráveis.
Os desafios do setor ferroviário são muitos, mas também são muitas as possibilidades! Te vejo na Innotrans 2028?