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O roubo de carga está caindo e ficando mais perigoso

Por Paulo Buriti el 24 de agosto de 2026 a las 14h56
Paulo Buriti
Paulo Buriti, gerente corporativo da Corpvs

Existe um erro muito comum quando olhamos para os indicadores de segurança pública e privada: achar que a queda fria dos números significa, de forma automática, uma redução real do risco. É exatamente esse o cenário que estamos vendo hoje no roubo de cargas no Brasil. Por um lado, os dados mais recentes trazem uma queda importante nas ocorrências; por outro, a realidade nas estradas e nos centros urbanos revela outra história.

Em São Paulo, por exemplo, os registros caíram mais de 34% entre janeiro e maio deste ano, atingindo o menor patamar da série histórica para o período. À primeira vista, é uma excelente notícia e deve, sim, ser comemorada. O problema é quando essa leitura puramente estatística cria uma falsa sensação de missão cumprida.

Essa percepção fica ainda mais evidente ao olharmos para o cenário nacional. Segundo um levantamento da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), o Brasil registrou 8.570 ocorrências de roubo de carga em 2025. Isso representa uma queda de 16,7% em relação ao ano anterior e fica mais de 60% abaixo do pico registrado em 2017.

Ainda assim, o prejuízo direto permaneceu próximo de R$900 milhões e supera a marca de R$1 bilhão quando colocamos na conta os impactos indiretos, como o encarecimento de seguros, contratação de escoltas, interrupções operacionais, readequação de entregas e atrasos na cadeia de abastecimento.

Os números mostram um avanço importante, sem dúvida, mas não contam a história inteira. O crime organizado não desapareceu; ele simplesmente mudou de estratégia. Em vez de focar no grande volume, passou a operar com mais inteligência de mercado: escolhendo alvos mais rentáveis, aproveitando novas janelas de oportunidade e concentrando forças onde encontra menor resistência.

Em outras palavras, enquanto as estatísticas apontam para baixo, a sofisticação das quadrilhas continua subindo. Esse talvez seja o maior paradoxo da segurança logística atual: não estamos lidando com um criminoso menos ativo, mas sim com um criminoso muito mais seletivo.

 

Menos ataques, prejuízos maiores: a lógica corporativa do crime

Os próprios dados de mercado ajudam a explicar essa transformação silenciosa. Enquanto São Paulo registra uma queda consistente nas ocorrências, o Rio de Janeiro continua concentrando uma fatia expressiva dos prejuízos nacionais. Um levantamento da empresa de tecnologia logística nstech mostra que a Região Sudeste respondeu por 68,1% dos prejuízos registrados no país em 2025, um reflexo direto da alta concentração de polos industriais, centros de distribuição e corredores estratégicos de transporte.

Mais revelador ainda é olhar para os tipos de cargas que viraram prioridade para essas quadrilhas. De acordo com o mesmo estudo da nstech, o setor de alimentos ganhou mais participação entre os principais alvos, enquanto o de medicamentos praticamente dobrou sua representatividade entre as cargas roubadas. Os produtos eletrônicos também ampliaram seu peso nos prejuízos registrados.

Não há coincidência aqui: trata-se de mercadorias de alto valor agregado, forte demanda e de rápida absorção pelo mercado ilegal.

Na prática, as organizações criminosas passaram a adotar uma lógica estritamente empresarial. Elas buscam menos operações, porém com um retorno financeiro muito maior. Não se trata apenas de roubar cargas, mas de selecionar a dedo aquelas que oferecem mais liquidez e menor risco na hora de comercializar.

Essas quadrilhas estudam rotinas, analisam vulnerabilidades sistêmicas, identificam padrões operacionais e aproveitam qualquer brecha logística. Não existe improviso; existe planejamento. Sob essa lógica, o crime organizado atua cada vez mais orientado por inteligência, agindo quase como uma empresa que calcula custo, risco e retorno antes de colocar qualquer ação em prática.

Essa realidade muda completamente a forma como as empresas precisam encarar a gestão de riscos. O foco deixa de ser apenas proteger mais caminhões e passa a ser proteger melhor cada operação. Hoje, fatores como valor agregado da carga, perfil da rota, histórico da região, horário da viagem e capacidade de resposta tornam-se tão decisivos quanto o próprio volume transportado.

 

O impacto não termina quando a carga é roubada

Existe outro equívoco recorrente no setor: associar o prejuízo apenas ao valor da mercadoria que foi levada.

Na prática, o roubo desencadeia um efeito em cadeia que afeta toda a estrutura logística. Uma única ocorrência pode provocar a paralisação temporária das operações, a necessidade de reprogramar rotas, ruptura nos estoques, atrasos na produção industrial, descumprimento de contratos, aumento nos custos de gerenciamento de risco, reajuste nos prêmios de seguro e até o encarecimento do preço final dos produtos na ponta da linha.

Em setores sensíveis como saúde, alimentos, varejo e indústria, o problema ganha proporções ainda mais críticas. Uma carga de medicamentos ou de insumos industriais que não chega ao destino pode travar linhas inteiras de produção, provocar desabastecimento e afetar diretamente o consumidor final.

É exatamente por isso que o impacto econômico do roubo de cargas vai muito além do valor contabilizado da mercadoria. Ele prejudica os indicadores de produtividade, o nível de serviço, a competitividade e a reputação das marcas. Em um ambiente onde a eficiência operacional é cobrança diária, cada interrupção vira um custo que se multiplica rapidamente.

 

O perigo invisível do "sucesso" estatístico

É preciso entender que os números não caíram por acaso. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), consolidados pela NTC&Logística, mostram que a queda nas ocorrências coincide com uma maior integração entre empresas, transportadoras, gerenciadoras de risco, seguradoras e forças de segurança, somada ao uso cada vez mais amplo de tecnologias de monitoramento e inteligência aplicada.

A expansão da inteligência embarcada, do monitoramento em tempo real, da análise preditiva e do rastreamento avançado mudou a forma como o setor lida com o risco. Mais do que reagir ao roubo depois que ele acontece, essas ferramentas passaram a atuar na antecipação de comportamentos suspeitos, cruzando dados de rotas, horários, histórico de ocorrências e padrões operacionais para identificar gargalos antes que virarem incidentes.

Isso marca uma virada importante: o monitoramento deixa de ser apenas uma ferramenta para localizar veículos e passa a apoiar a tomada de decisão estratégica nas operações.

Por outro lado, esse avanço traz à tona um comportamento preocupante no ambiente corporativo. Quando os indicadores de sinistralidade melhoram, algumas empresas começam a questionar justamente os investimentos que proporcionaram essa evolução.

É a velha armadilha de achar que a ausência de incidentes significa ausência de ameaça. A segurança eficiente raramente ganha holofotes exatamente porque o papel dela é evitar que o pior aconteça.

Além disso, o próprio sucesso das medidas de prevenção força o crime organizado a se adaptar. Quanto mais avançadas ficam as tecnologias de proteção, mais articuladas se tornam as abordagens criminosas. Trata-se de uma disputa contínua de inteligência, onde não há espaço para a complacência.

O crime evolui rápido, e quem trabalha com logística precisa rodar no mesmo ritmo. O grande aprendizado dos últimos tempos é que a queda no número de roubos não significa que a batalha foi vencida, mas sim que algumas estratégias começaram a dar resultado. Baixar a guarda agora seria dar margem para uma nova reorganização das quadrilhas.

Os números mostram uma redução importante na quantidade de roubos. No entanto, o comportamento dos criminosos aponta para outra realidade: ações mais seletivas, mais inteligentes e capazes de causar estragos econômicos cada vez maiores, mesmo com menos ataques.

O desafio da logística brasileira não é mais apenas evitar roubos. Hoje, o papel central é garantir a continuidade das operações, blindar as cadeias de abastecimento e usar a inteligência de dados para se antecipar aos riscos.

Enquanto o roubo de carga cai em quantidade, ele ganha em eficiência. E essa é, sem dúvida, a transformação mais importante, e perigosa, para quem ainda insiste em avaliar o risco olhando apenas para a superfície das estatísticas.

 

*Paulo Buriti é gerente corporativo da Corpvs, empresa especializada em soluções de monitoramento e segurança patrimonial.

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