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Câmara aprova fim da escala 6x1 e redução de carga horária; entenda o impacto na logística

Após resistência de setores da economia, governo federal fez acordo garantindo período de transição
Por Gabriela Medrado em 28 de maio de 2026 às 11h09
Câmara aprova fim da escala 6x1 e redução de carga horária; entenda o impacto na logística
Foto: Marcello Camargo / Agência Brasil
Foto: Marcello Camargo / Agência Brasil

A Câmara dos Deputados aprovou na noite desta quarta-feira (27/05) uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim da escala 6x1. A votação foi feita após acordo entre o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, celebrado na segunda-feira (25/05).

A proposta foi aprovada por 472 votos a 22 em primeiro turno e 461 a 19 votos no segundo turno. A PEC agora segue para o Senado, onde precisa do apoio de pelos menos 49 dos 81 senadores em dois turnos de votação. A data da votação ainda não foi definida.

 

O que diz a nova PEC

O projeto estabelece uma redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas, garantindo dois dias de folga obrigatórios sem diminuir os salários. A transição prevê um ajuste gradual em duas etapas ao longo de 14 meses.

 

Os principais pontos da proposta são:

 

  • Fim da Escala 6x1: A jornada em que o trabalhador atua seis dias por semana e tem apenas um dia de folga deixa de existir, passando a ser obrigatória a concessão de pelo menos dois dias de descanso semanal, preferencialmente incluindo os domingos.
  • Redução da Jornada: O limite máximo de trabalho semanal passará de 44 horas para 40 horas, sem qualquer redução salarial para o trabalhador.
  • Limite Diário: A duração do trabalho normal não poderá ser superior a oito horas diárias.
  • Exceção para Alta Renda: A nova regra não se aplica a profissionais com curso superior completo que recebam rendimentos superiores a duas vezes e meia o teto de aposentadoria do INSS (atualmente cerca de R$ 21.188,87). Para este grupo, os limites de jornada e folgas garantidas não serão obrigatórios, a menos que definidos em acordo coletivo.

 

 
 
Como será a transição
 
Caso a PEC seja aprovada, está prevista uma fase de implementação em duas etapas para permitir a adaptação das empresas.
Nos primeiros 60 dias após a promulgação, torna-se obrigatória a folga de dois dias por semana e a jornada semanal cai para 42 horas. Após 14 meses da redução inicial, o limite de trabalho passa a ser de 40 horas semanais.
 
A proposta, que segue agora para análise no Senado, altera a Constituição Federal e prevê que acordos ou convenções coletivas incompatíveis com as novas jornadas perderão a validade automaticamente após o prazo de 60 dias da promulgação.
 

Resistência e pressão política

A proposta de fim da escala 6x1 e redução da jornada de trabalho enfrenta uma série de pressões políticas e resistências. Enquanto o governo federal e defensores da medida apostam no apelo popular e na proximidade das eleições de outubro para pressionar o Senado pela aprovação, o fim da escala 6x1 ainda encontra resistência do empresariado de setores da economia.

Opositores da proposta no meio político também argumentam que o Palácio do Planalto adotou a redução da jornada de trabalho como bandeira eleitoral. 

Em meio à forte disputa no Congresso, deputados apresentaram emendas para suavizar, adiar ou flexibilizar a mudança. Em 14 de maio, 176 deputados aprovaram uma emenda para manter a jornada de 44h semanais em atividades consideradas “essenciais”, criar uma transição de até 10 anos, e permitir ampliação da jornada semanal via negociação coletiva, chegando a até 52h em alguns casos. A emenda gerou forte reação sindical e política e não integrou o texto aprovado nesta quarta.

A aprovação da PEC nesta quarta-feira foi possibilitada por um acordo entre o presidente da República e o presidente da Câmara, Hugo Motta, nesta segunda-feira (25/05). A expectativa é de que o Senado vote ainda este ano, antes do recesso parlamentar e das eleições de outubro.

 

Como a medida afeta o setor de logística

Um levantamento realizado pela VR, plataforma de serviços para trabalhadores e empregadores, revelou que 51% das empresas que utilizam a escala 6x1 são do setor de comércio, seguidos de 16% de bares e restaurantes, 8% serviços administrativos, 5% hotéis e 3% administração imobiliária e predial. O setor de logística está intimamente interligado a todos esses setores, sobretudo ao comércio eletrônico.

Em reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, nesta terça-feira (26/05), empresários do setor produtivo, incluindo logística, transporte e indústria, pressionaram o Senado para adiar a PEC. O argumento central foi que a mudança seria “rápida demais” para setores que operam continuamente, como centros de distribuição, transporte rodoviário e aeroportos.

As principais demandas do empresariado são mais tempo para a transição, negociações específicas para acordos coletivos e, se possível, remunerar o empregado por hora trabalhada, assim como abatimentos em impostos e tributos para compensar os custos de novas contratações necessárias. 

No transporte de cargas, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) declarou, em fevereiro, que a possível extinção da jornada 6x1 deve considerar as especificidades do setor de transporte, sob risco de ampliar a escassez de mão de obra, elevar custos operacionais e comprometer a regularidade de serviços essenciais à economia.

A entidade informou que acompanha a discussão e defende que qualquer mudança seja conduzida com previsibilidade e análise técnica. Como alternativa, a Confederação defende a negociação coletiva entre empregadores e trabalhadores, permitindo ajustes conforme as características de cada segmento, região e empresa.

 
Próximos passos

Após a aprovação pela Câmara dos Deputados, a PEC que extingue a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho segue para o Senado Federal. Por se tratar de uma PEC, a proposta precisa ser aprovada em dois turnos de votação. Para ser aceita, é necessário o apoio de pelo menos 3/5 dos parlamentares, o que corresponde a 49 votos dos 81 senadores.

O Senado deve analisar se aprova o texto da forma como veio da Câmara ou se fará alterações. Caso os senadores modifiquem o conteúdo, a proposta precisará retornar para a Câmara dos Deputados para nova análise.

Ainda não foi decidido se a PEC passará por uma comissão especial, como ocorreu na Câmara, ou se seguirá o caminho normal pelas comissões temáticas antes de chegar ao plenário.

Se a proposta for aprovada pelo Senado sem alterações, ela será promulgada pelo Congresso Nacional, passando a integrar a Constituição Federal. Caso contrário, o processo de idas e vindas entre as Casas legislativas continua até que haja um consenso sobre o texto final.

 

 

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