
O Brasil utiliza economicamente 20,4 mil quilômetros de vias navegáveis interiores para o transporte de cargas, menos da metade dos 41,7 mil quilômetros previstos no Plano Nacional de Viação. Os dados fazem parte do Estudo sobre Regulação e Governança da Navegação Interior Brasileira, elaborado pela Pezco Economics e promovido pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), apresentado nesta quarta-feira (21). Segundo o levantamento, a navegação interior movimentou 91,3 milhões de toneladas em 2025, alta de 19,7% em relação ao ano anterior.
Considerando também a parcela da cabotagem realizada em vias interiores, o volume transportado chega a aproximadamente 116 milhões de toneladas, de acordo com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Apesar da movimentação, o estudo identifica obstáculos à expansão do modal, como fragmentação da governança, insegurança regulatória, deficiências de infraestrutura e dificuldades de financiamento.
Para enfrentar esses entraves, o documento propõe uma agenda de desenvolvimento com horizonte até 2046, dividida em medidas de curto, médio e longo prazos. As recomendações para o transporte de cargas estão organizadas em seis eixos: planejamento estratégico das hidrovias, governança e segurança regulatória, infraestrutura, capacitação profissional, segurança e financiamento.
Entre as medidas sugeridas estão a criação de uma instância nacional de coordenação da política hidroviária, a elaboração de um Plano Setorial Hidroviário e o fortalecimento das ações de dragagem e manutenção das vias navegáveis. O estudo também recomenda garantir a continuidade do Programa de Operação e Manutenção de Eclusas (Proeclusas), planejar intervenções por corredores logísticos e aperfeiçoar mecanismos de financiamento, inclusive por meio de concessões.
O levantamento destaca os efeitos das variações de navegabilidade sobre a logística, com base na seca que atingiu a região amazônica em 2023 e 2024. Segundo a publicação, cerca de 90% das embarcações no Amazonas operaram sob restrições naquele período. No corredor entre Porto Velho e Itacoatiara (AM), o tempo de viagem passou de oito para 20 dias, a capacidade de transporte caiu 60% e os custos de frete aumentaram em até 150%. Além disso, 23 municípios amazonenses tiveram o abastecimento de combustíveis comprometido por interrupções no transporte fluvial.
O estudo defende que as decisões sobre investimentos considerem conjuntamente a demanda por transporte, as condições de navegação, os acessos terrestres, a disponibilidade de terminais e os custos de implantação e manutenção. A proposta é permitir que as hidrovias sejam avaliadas em conjunto com os demais modais, de acordo com as características de cada corredor logístico.
Para Vander Costa, presidente do Sistema Transporte, entidade formada pela CNT, pelo Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (SEST SENAT) e pelo Instituto de Transporte e Logística (ITL), o desenvolvimento da navegação interior depende de planejamento de longo prazo e de condições que garantam previsibilidade às operações. “O país tem um potencial hidroviário expressivo, mas aproveitar essa capacidade exige planejamento, infraestrutura adequada e segurança regulatória”, afirma.
O diagnóstico também aborda o transporte hidroviário de passageiros, que atende a 21,2 milhões de pessoas por ano, conforme dados da Antaq. Em 49 municípios, o modal responde por 100% dos deslocamentos considerados no levantamento. Entre os desafios apontados estão a falta de dados estruturados, a informalidade e a insuficiência de infraestrutura, com recomendações para regularizar operadores, aprimorar autorizações e melhorar terminais e estruturas de embarque e desembarque.