As condições físicas e emocionais dos motoristas voltaram ao centro do debate sobre segurança viária no país. Um estudo inédito da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), elaborado a partir de dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), identificou que mais de 1,2 milhão de sinistros registrados nas rodovias brasileiras entre 2014 e 2024 tiveram como fator associado algum comprometimento físico, mental ou comportamental dos motoristas.
Cansaço e má saúde mental são fatores de risco para acidentes
De acordo com o estudo, os registros estão associados a fatores como sono, falta de atenção, ausência de reação, mal súbito, transtornos mentais, uso de substâncias, doenças oculares, limitações motoras e alterações neurológicas capazes de comprometer a condução segura de veículos.
Os dados também revelam outro aspecto importante: enquanto falhas relacionadas à infraestrutura viária, como problemas de sinalização, pavimentação ou geometria das pistas, responderam por cerca de 8% das ocorrências, os fatores ligados às condições de saúde aparecem de forma recorrente ao longo de toda a série histórica analisada.
Sudeste e Sul lideram registros de acidentes com causas clínicas
Minas Gerais lidera o ranking nacional de registros relacionados a fatores clínicos dos condutores, com 154.648 ocorrências.
Na sequência aparecem Paraná (134.358), Santa Catarina (120.665), Rio Grande do Sul (95.059) e São Paulo (84.250). Entre os estados com menor número de casos estão Acre (4.219), Amazonas (2.896) e Amapá (2.681).
Bem-estar do motorista no centro do debate
Para o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), que reúne mais de 5 mil profissionais especializados no transporte de veículos zero quilômetro em todo o país, os dados reforçam a necessidade de ampliar o cuidado com o bem-estar físico e mental dos trabalhadores que passam boa parte da vida percorrendo as estradas brasileiras.
"Quando um motorista adoece, o risco não fica dentro da cabine. Ele passa a circular pela rodovia junto com o veículo. Os números mostram que a segurança no trânsito não depende apenas de asfalto de qualidade, sinalização adequada ou fiscalização eficiente. Ela também passa pela saúde física e emocional de quem está conduzindo milhares de quilos pelas estradas do país", afirma o presidente do Sinaceg, José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho.
O dirigente ressalta que o debate sobre prevenção de sinistros precisa considerar não apenas as condições dos veículos e da infraestrutura, mas também a capacidade dos profissionais de manterem níveis adequados de atenção e desempenho durante a jornada.
"O caminhoneiro aprende a enfrentar chuva, neblina, trânsito pesado e estradas em condições difíceis. O problema é que existe um inimigo muito mais silencioso: o desgaste acumulado. Cansaço, estresse e até problemas de saúde ainda não diagnosticados podem reduzir a atenção e os reflexos sem que o próprio profissional perceba. É nesse ponto que muitos riscos começam a surgir", afirma o diretor regional do Sinaceg, Márcio Galdino.
Para a entidade, o estudo evidencia o papel das avaliações periódicas na identificação precoce de condições que podem comprometer o desempenho ao volante, contribuindo para reduzir riscos e preservar vidas. Em um país onde o transporte rodoviário responde pela maior parte da movimentação de cargas, a discussão sobre a aptidão dos profissionais do setor ganha cada vez mais importância.
Nova legislação a caminho
O material da pesquisa será entregue aos senadores responsáveis pela análise da Medida Provisória 1.327/2025, conhecida como "MP do Bom Condutor".
O texto aprovado pela Câmara dos Deputados prevê a renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para cidadãos sem infrações registradas nos 12 meses anteriores ao vencimento do documento, mas manteve a obrigatoriedade das avaliações médicas periódicas para renovação da habilitação.