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Modelagem de cenários prepara indústria alimentícia para triplicar demanda, com economia de R$ 130 milhões

Por Andrey Leite e Diego Begara em 12 de fevereiro de 2026 às 7h56
Andrey Leite
Andrey Leite, diretor de supply chain na Ekantika Consultoria
Diego Begara
Diego Begara, diretor de supply chain na Ekantika Consultoria

A indústria alimentícia brasileira vive um momento de transformação acelerada. Empresas consolidadas enfrentam o desafio de ampliar suas operações em poucos anos, enquanto lidam com margens cada vez mais apertadas e clientes exigindo níveis de serviço crescentes. Recentemente, tivemos a oportunidade de conduzir um projeto que ilustra bem como a modelagem avançada de cenários pode resolver esse aparente paradoxo: crescer reduzindo custos.

 

O desafio: crescer sem colapsar

Uma grande indústria alimentícia nos procurou com um problema que muitos executivos de logística conhecem bem. A empresa operava 19 centros de distribuição, mantinha 7 milhões de itens em estoque, apresentava 6% de ruptura nos pontos de venda e seus custos logísticos representavam 11% do faturamento. O cenário futuro exigia preparação para triplicar a demanda nos próximos anos.

A questão central não era apenas reduzir custos, mas redesenhar toda a operação para suportar um crescimento exponencial sem comprometer o nível de serviço. Esse tipo de desafio requer uma abordagem que chamamos de Inteligência Logística: ir além da eficiência pontual e rever malha, modelo operacional, tecnologia e processos de forma integrada.

 

Modelagem como ferramenta de decisão

A base do projeto foi a construção de um simulador robusto de cenários logísticos. Diferentemente de abordagens tradicionais, que partem de modelos prontos, desenvolvemos uma modelagem que se adapta à realidade dos dados disponíveis, inclusive em contextos com lacunas informacionais.

Simulamos múltiplas configurações de operação, testando variáveis como custos de transporte, níveis de estoque, localização de instalações e capacidade de atendimento. O diferencial está em incorporar não apenas otimização matemática, mas também restrições operacionais reais. Nem sempre o que é ótimo matematicamente é factível operacionalmente.

As diferentes simulações permitiram traçar cenários comparativos, identificar fluxos inconsistentes e, principalmente, eliminar o "achismo" nas decisões estratégicas. O cliente ganhou a capacidade de testar cenários adicionais por conta própria, entendendo o comportamento da malha e o nível de serviço em cada configuração.

 

A importância da análise de estresse

Um conceito que aplicamos sistematicamente é o que chamamos de "Stress Analysis". Traduzindo: não basta encontrar a configuração ideal em condições normais; é preciso entender quanto de variabilidade cada cenário suporta quando as coisas saem do planejado.

Nossa modelagem e roadmap de implementação levam em consideração falhas de execução, atrasos e dimensionamentos até certo nível. Isso constrói confiança nas lideranças para mudanças mais profundas, porque sabem que o modelo não é utópico.

 

Dados externos como vantagem competitiva

Uma das inovações metodológicas foi a incorporação de dados externos ao projeto. Processamos informações do IBGE e Receita Federal, mapeando 1,3 milhão de CNPJs com potencial de se tornarem futuros clientes da indústria.

Nossos algoritmos identificaram padrões na base atual de clientes e selecionaram, dentre os potenciais, aqueles com maior probabilidade de conversão. Com a demanda estimada para regiões ainda não atendidas, modelos gravitacionais definiram onde deveriam estar CDs e Transit Points para obter os melhores fluxos com menor custo.

Essa abordagem reflete uma cultura de decisão baseada em dados que processa grandes volumes de informações internas e externas para dimensionar o tamanho real das oportunidades.

 

A solução: menos pontos, mais eficiência

A configuração final reduziu a malha de 19 CDs para 6 pontos de estoque com Transit Points associados, diminuindo o inventário de 7 milhões para 5 milhões de unidades.

A lógica técnica está na redução da variabilidade de demanda. Com mais CDs, é preciso distribuir o estoque entre todos, incorrendo em maiores erros de alocação. Com menos pontos de armazenagem e Transit Points estratégicos, reduzimos significativamente a incidência de problemas de alocação.

A modelagem visa maximizar o atendimento aos clientes com o menor custo possível, penalizando o não atendimento da demanda e buscando alternativas de abastecimento. É importante esclarecer que o modelo não elimina completamente a ruptura, pois não faz sentido econômico manter estoque dimensionado para demandas muito fora dos padrões históricos.

 

Impactos tangíveis na operação

Os resultados projetados demonstram o potencial da abordagem:

No transporte, os ganhos vêm de redução dos custos de distribuição, otimização de frotas, melhoria da ocupação dos veículos, substituição de trechos com veículos menores por maiores, redução das distâncias médias de distribuição e diminuição de horas extras de motoristas e ajudantes.

Na operação, as melhorias incluem processos mais simples nos Transit Points em relação aos CDs tradicionais, otimização de estoques, redução da área de armazenagem, implementação de tecnologia, maior giro de docas e aumento de produtividade. Há também simplificação das operações com redução dos custos de mão de obra.

A redução de custos logísticos de 11,1% para 8,6% do faturamento representa uma economia anual de R$ 130 milhões. A diminuição da ruptura de 6% para 2,5% projeta potencial de faturamento adicional de R$ 145 milhões.

 

Implementação como ativo estratégico

Um aspecto crucial do projeto foi garantir que a solução fosse modular e escalável. O modelo logístico proposto permite que a empresa ajuste o roadmap conforme suas decisões estratégicas futuras.

A modelagem foi desenvolvida para permanecer como um ativo do cliente, que pode ajustar o ritmo e a profundidade das mudanças conforme sua estratégia de crescimento. Mesmo após a conclusão do projeto, a empresa consegue mover o roadmap na direção que seu planejamento estratégico sugerir.

Monitoramos simultaneamente indicadores de projeto (custo, percentual de evolução da implementação, prazo) e indicadores de negócio (custo logístico, R$/ton, OTIF). Monitorar apenas uma das linhas não garante o impacto da implementação. Ambas devem andar em simbiose para assegurar o objetivo do projeto.

O retorno do investimento total necessário, comparado às eficiências e ao aumento da rentabilidade projetados, ocorre entre 1,5 e 5 anos, dependendo do tempo de implementação e taxas de retorno consideradas.

 

Lições para o mercado

Este projeto reforça algumas convicções que desenvolvemos ao longo de centenas de implementações logísticas:

Primeiro, a importância de conectar modelagem avançada com presença em campo e escuta ativa das lideranças e equipes operacionais. Transformação logística não acontece apenas no papel.

Segundo, a necessidade de construir modelos que se adaptem à realidade do negócio, e não o contrário. Dados imperfeitos não devem ser desculpa para decisões baseadas em intuição.

Terceiro, o valor de incorporar variabilidade e cenários de estresse desde o início do projeto. Confiança nas decisões vem de entender não apenas o cenário ideal, mas também o comportamento do sistema quando as premissas mudam.

Por fim, a transformação logística deve ser encarada como jornada contínua, não como projeto pontual. Deixar capacidade instalada no cliente para simular novos cenários é tão importante quanto entregar a solução inicial.

O futuro da logística industrial passa por decisões cada vez mais fundamentadas em dados e modelagem sofisticada. Os casos de sucesso virão das empresas que souberem combinar rigor analítico com pragmatismo operacional.

 

Andrey Leite e Diego Begara são diretores da Ekantika Consultoria para a área de Supply Chain.

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