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A seca não espera: por que a logística amazônica precisa deixar de reagir e começar a antecipar

O El Niño já é fato. Mas a severidade da seca não depende apenas do Pacífico, e a logística não pode esperar a confirmação.
Por Jorge do Carmo em 6 de agosto de 2026 às 9h58
Jorge do Carmo
Jorge do Carmo, Analista de Transporte Marítimo da Petrobras

No dia 11 de junho de 2026, o Climate Prediction Center da NOAA elevou o status do Pacífico equatorial para El Niño Advisory. O fenômeno já se formou. A projeção, segundo o próprio órgão, indica 63% de chance de um evento muito forte entre novembro e janeiro, com possibilidade de figurar entre os mais intensos da série recente.

Para quem atua na navegação na Bacia Amazônica, esse número merece atenção, mas precisa ser situado no calendário hidrológico regional. Na logística amazônica, esperar a confirmação do risco tem se mostrado a forma mais segura de paralisar operações. A estação seca vai de junho a novembro, com os níveis mínimos dos rios entre setembro e outubro. O pico projetado do El Niño ocorre no limite final da vazante de 2026 e já avança sobre o período chuvoso seguinte.

A seca de 2023 foi severa. As de 2023 e 2024 foram extremas. Os rios Madeira, Amazonas, Solimões, Negro e Tapajós atingiram níveis historicamente baixos. Em Porto Velho, o Rio Madeira chegou a 1,44 m em setembro de 2023, o menor nível em quase 60 anos, interrompendo o tráfego de comboios por semanas. Na época, estimativas do setor apontaram redução de até 40% na capacidade de carga por comboio. O escoamento do Polo Urucu também enfrentou restrições significativas, pois a cota de Coari chegou a incríveis 1,1 m. Esse cenário impôs uma consequência direta: com custos operacionais em grande parte fixos, a redução de carga elevou o custo logístico por tonelada e exigiu mais viagens para o mesmo volume transportado, pressionando toda a cadeia.

Em 2025, a navegação operou com relativa normalidade. Esse alívio, no entanto, trouxe um risco silencioso: a falsa percepção de que o problema havia sido superado. Em vez de consolidar aprendizados, parte do setor postergou investimentos em adaptação.

Os episódios recentes de estiagem (2023–2024) já haviam evidenciado que operadores relevantes ainda atuam sem rotinas estruturadas de simulação de cenários extremos, reagindo às restrições com ajustes pontuais. Em 2026, sinais precoces reforçam o alerta: boletins do Serviço Geológico do Brasil indicam níveis do Rio Madeira abaixo da média já em junho, sugerindo que a recuperação observada no ano anterior pode não se repetir sem esforço operacional antecipado.

A análise, no entanto, não pode se limitar ao El Niño. A severidade da seca hidrológica na Amazônia não é determinada exclusivamente pelo Pacífico. As temperaturas do Atlântico Tropical Norte influenciam diretamente o posicionamento da Zona de Convergência Intertropical, afetando o regime de chuvas na região. A interação entre esses sistemas adiciona variabilidade ao comportamento dos rios, e torna inadequado qualquer planejamento baseado em um único vetor climático. Em termos operacionais, isso significa que a navegação deve se preparar para múltiplos cenários, e não apenas para o mais provável.

Esse desafio expõe uma fragilidade recorrente: a ausência de práticas consolidadas de planejamento antecipado. Dragagens em pontos críticos seguem avançando de forma reativa, condicionadas a eventos já instalados. A adoção de simulações estruturadas de navegabilidade para calados mínimos ainda não é prática disseminada entre todos os operadores. Falta, sobretudo, transparência e integração de dados. Hoje, as informações existem (batimetria do SGB, posicionamento de frota, capacidade de terminais), mas permanecem fragmentadas.

Uma evolução relevante seria a criação de um Painel de Prontidão Hidroviária, coordenado pela ANTAQ em conjunto com as associações do setor. Com atualização frequente e integração de dados operacionais e hidrológicos, essa ferramenta permitiria antecipar restrições com semanas de antecedência e orientar ajustes táticos, como redução de carga, redefinição de frequência e replanejamento de estoques. Mais do que informação, trata-se de transformar visibilidade em capacidade de decisão.

A experiência recente mostra que a adaptação é possível. Operadores que adotaram protocolos estruturados de simulação com base em dados históricos e previsões reduziram o tempo de inatividade durante os períodos mais críticos. Ainda assim, essas práticas permanecem pontuais, quando deveriam ser padrão.

Diante desse cenário, algumas medidas são imediatas. Monitoramento contínuo de boletins hidrológicos e meteorológicos deixou de ser recomendação técnica para se tornar necessidade operacional. Simulações de cenários de restrição de calado devem ser incorporadas à rotina estratégica. A antecipação de estoques em regiões mais isoladas pode mitigar impactos sociais e logísticos relevantes. Em cadeias como grãos e combustíveis, altamente dependentes da hidrovia, essas restrições se propagam rapidamente, elevando o custo marginal do transporte e pressionando alternativas mais caras.

A prioridade no curto prazo não está em soluções estruturais de longo ciclo, mas no ajuste fino da operação: calibrar carga por comboio, aumentar frequência quando possível, revisar níveis de estoque e intensificar o monitoramento de trechos críticos. São essas decisões que, na prática, determinam a continuidade das operações durante o pico da estiagem.

O histórico recente deixa um recado claro: a navegação amazônica entrou em uma nova fase, marcada por maior frequência e intensidade de eventos extremos. Nesse contexto, a incerteza não pode ser tratada como exceção. Na Amazônia, ela é condição estrutural. Transformá-la em variável gerenciável, e não em justificativa para inação, será o que diferenciará operadores resilientes daqueles que continuam reagindo à próxima crise.

 

* Jorge do Carmo é Analista de Transporte Marítimo da Petrobras, atuando na logística da empresa. Engenheiro mecânico pela PUC Minas, possui mestrados e pós-graduações nas áreas de engenharia, comércio e gestão. Há anos participa do comitê de planejamento estratégico e planos de contingência para a navegação na Bacia Amazônica.

 

REFERÊNCIAS

CLIMATE PREDICTION CENTER (NOAA). ENSO Diagnostic Discussion: 11 June 2026. College Park, MD: NOAA, NWS, NCEP, 2026. El Niño Advisory. Disponível em: https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.shtml. Acesso em: 23 jun. 2026.

CLIMATE PREDICTION CENTER (NOAA). Official NOAA CPC ENSO Strength Probabilities. Issued June 2026. Disponível em: https://cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/strengths/. Acesso em: 23 jun. 2026.

NATIONAL OCEANIC AND ATMOSPHERIC ADMINISTRATION (NOAA). El Niño forms, expected to strengthen, say NOAA forecasters. 11 June 2026. Disponível em: https://www.noaa.gov/news-release/el-nino-forms-expected-to-strengthen-say-noaa-forecasters. Acesso em: 23 jun. 2026.

 

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