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A influência da saúde mental na segurança rodoviária

Por Stefany Santos da Silva el 14 de octubre de 2026 a las 10h54
Stefany Santos da Silva
Stefany Santos da Silva, Analista de Logística na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN)

Quando falamos em segurança no trânsito, normalmente pensamos em sinalização adequada, respeito às leis, manutenção preventiva dos veículos, uso do cinto de segurança e direção defensiva. Todos esses elementos são fundamentais para a prevenção de acidentes e a preservação da vida. Mas essa discussão também precisa considerar as condições físicas e emocionais de quem conduz o veículo.

O estresse, a fadiga e a sobrecarga de trabalho merecem atenção na gestão da segurança rodoviária. Nas operações logísticas, olhar para esses fatores significa avaliar tanto as condições do motorista quanto a organização do trabalho, incluindo jornadas, prazos, pausas e possibilidades de descanso.

Em entrevistas informais que realizei com aproximadamente 135 pessoas, entre colegas de trabalho e de faculdade, familiares e integrantes da minha rede de contatos, surgiram referências a sinalização, velocidade, ultrapassagem indevida e uso do cinto de segurança. Essas conversas não constituem uma pesquisa representativa, mas motivaram uma reflexão sobre o espaço dedicado às condições emocionais dos condutores nas discussões sobre segurança.

Essa reflexão também se aplica às organizações. Ao lado dos riscos físicos, mecânicos e ambientais, é necessário observar as exigências do trabalho e como elas podem afetar a atenção e o comportamento de quem dirige.

 

O fator humano na segurança

Os avanços tecnológicos proporcionaram veículos mais seguros, sistemas de frenagem, monitoramento eletrônico e ferramentas para a gestão da segurança. Esses recursos são importantes, mas a condução continua exigindo atenção, percepção dos riscos e capacidade de reação diante de situações inesperadas.

O motorista precisa acompanhar a sinalização, observar as condições da via e do clima, controlar a velocidade e considerar os demais usuários do trânsito. Pressão excessiva, preocupações e esgotamento podem dificultar esse conjunto de tarefas.

Isso não significa que todo acidente decorra das condições emocionais do condutor. A segurança depende de uma combinação de fatores, como infraestrutura, manutenção, organização da operação e comportamento dos usuários da via. A saúde mental deve integrar essa análise, sem se tornar uma explicação única para ocorrências que podem ter diferentes causas.

 

O estresse no cotidiano da operação

O estresse é uma resposta a situações percebidas como desafiadoras ou ameaçadoras. Quando intenso ou persistente, pode vir acompanhado de irritabilidade, alterações do sono e dificuldade de concentração. Na condução, esses sinais merecem atenção, sobretudo quando se somam a longas jornadas e poucas oportunidades de recuperação.

No ambiente rodoviário, a pressão por cumprir horários, os congestionamentos e as dificuldades encontradas ao longo do trajeto podem aumentar a tensão. Problemas pessoais também podem ocupar a atenção do motorista durante o trabalho.

Para as empresas, o desafio é reconhecer essas situações e avaliar o que pode ser modificado na operação. Orientar o trabalhador a administrar o estresse tem alcance limitado quando os prazos, as jornadas ou a comunicação interna mantêm uma pressão excessiva.

 

Fadiga e privação do sono

A fadiga e a sonolência também exigem atenção, embora não sejam sinônimos de problemas de saúde mental. Podem estar relacionadas a sono insuficiente, jornadas prolongadas, desgaste físico e mental ou outras condições de saúde.

Dificuldade de concentração, sonolência e lentidão nas respostas são sinais que não devem ser ignorados. Os chamados microssonos, episódios breves e involuntários de sono, representam um risco durante a condução. Em uma rodovia, poucos segundos sem acompanhar o trajeto podem ter consequências graves.

A prevenção exige planejamento do trabalho e condições efetivas para o descanso. Não basta recomendar que o motorista durma bem se a programação das viagens e das entregas não favorece essa recuperação.

Por isso, a gestão da fadiga deve integrar a rotina das operações, com acompanhamento das jornadas, previsão de pausas e avaliação das condições em que o trabalhador inicia e encerra suas atividades.

 

Fatores psicossociais no trabalho

Os fatores psicossociais estão relacionados à maneira como o trabalho é organizado e às relações estabelecidas nesse ambiente. Sobrecarga, pressão excessiva por resultados, assédio, conflitos, falta de apoio e jornadas extenuantes são situações que precisam ser identificadas e enfrentadas.

Para trabalhadores que utilizam veículos como ferramenta de trabalho, essas condições merecem atenção também sob a perspectiva da segurança viária. A discussão deve considerar como as exigências da operação interferem no descanso, na concentração e no bem-estar.

Promover a saúde mental envolve oferecer apoio ao trabalhador e atuar sobre as condições que geram desgaste. Essa responsabilidade não pode ficar restrita à capacidade individual de suportar pressão ou lidar com dificuldades.

 

O papel das organizações na prevenção

As empresas têm um papel importante na construção de uma cultura em que o trabalhador possa relatar cansaço, sonolência ou dificuldades emocionais e receber orientação adequada. Esse diálogo precisa permitir a avaliação da situação e a adoção de medidas para reduzir os riscos.

O apoio psicológico e o encaminhamento para profissionais de saúde podem fazer parte desse cuidado. Devem ser acompanhados por medidas na organização do trabalho, como planejamento das jornadas, controle de horas extras e prazos compatíveis com uma condução segura.

Os treinamentos também podem ampliar a discussão para temas como gestão do estresse, comunicação e reconhecimento de sinais de fadiga. Os Diálogos Diários de Segurança são oportunidades para abordar essas questões e ouvir os trabalhadores sobre dificuldades encontradas na rotina.

O acompanhamento de acidentes, incidentes, afastamentos e relatos da equipe pode ajudar a identificar situações que precisam de investigação. Esses indicadores devem orientar a análise da operação, sem serem usados isoladamente para atribuir diagnósticos ou responsabilizar o motorista.

 

Atenção antes de iniciar a condução

Estimular uma reflexão sobre as próprias condições antes de dirigir pode contribuir para que o trabalhador reconheça sinais de alerta. Perguntas como “Dormi o suficiente?”, “Estou com sono?”, “Estou cansado?” e “Há alguma preocupação comprometendo minha atenção?” ajudam a trazer o tema para a rotina.

Uma ferramenta de observação de riscos é a FALAAD, que organiza a atenção em seis direções: frente, atrás, lados, acima, abaixo e dentro. Ao considerar o “dentro”, é possível incluir a reflexão sobre o estado físico e emocional de quem realizará a atividade.

Essa prática pode abrir espaço para uma conversa com a liderança, mas não substitui avaliação profissional nem determina, por si só, a aptidão para dirigir. Seu valor depende também de haver um procedimento claro para lidar com os sinais relatados e decidir os próximos passos com segurança.

A prevenção de acidentes exige uma abordagem que considere veículos, vias, processos e pessoas. Cuidar das condições de trabalho, respeitar as necessidades de descanso e oferecer apoio à saúde mental são medidas que devem fazer parte dessa gestão.

Para as operações logísticas, o avanço está em incorporar esse cuidado às decisões do dia a dia. O planejamento de uma viagem, a definição de um prazo e a resposta a um relato de cansaço também são decisões de segurança.

 

* Stefany Santos da Silva é Analista de Logística na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), e formada em Segurança Rodoviária e SGI

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