
Quando falamos em segurança no trânsito, normalmente pensamos em sinalização adequada, respeito às leis, manutenção preventiva dos veículos, uso do cinto de segurança e direção defensiva. Todos esses elementos são fundamentais para a prevenção de acidentes e a preservação da vida. Mas essa discussão também precisa considerar as condições físicas e emocionais de quem conduz o veículo.
O estresse, a fadiga e a sobrecarga de trabalho merecem atenção na gestão da segurança rodoviária. Nas operações logísticas, olhar para esses fatores significa avaliar tanto as condições do motorista quanto a organização do trabalho, incluindo jornadas, prazos, pausas e possibilidades de descanso.
Em entrevistas informais que realizei com aproximadamente 135 pessoas, entre colegas de trabalho e de faculdade, familiares e integrantes da minha rede de contatos, surgiram referências a sinalização, velocidade, ultrapassagem indevida e uso do cinto de segurança. Essas conversas não constituem uma pesquisa representativa, mas motivaram uma reflexão sobre o espaço dedicado às condições emocionais dos condutores nas discussões sobre segurança.
Essa reflexão também se aplica às organizações. Ao lado dos riscos físicos, mecânicos e ambientais, é necessário observar as exigências do trabalho e como elas podem afetar a atenção e o comportamento de quem dirige.
O fator humano na segurança
Os avanços tecnológicos proporcionaram veículos mais seguros, sistemas de frenagem, monitoramento eletrônico e ferramentas para a gestão da segurança. Esses recursos são importantes, mas a condução continua exigindo atenção, percepção dos riscos e capacidade de reação diante de situações inesperadas.
O motorista precisa acompanhar a sinalização, observar as condições da via e do clima, controlar a velocidade e considerar os demais usuários do trânsito. Pressão excessiva, preocupações e esgotamento podem dificultar esse conjunto de tarefas.
Isso não significa que todo acidente decorra das condições emocionais do condutor. A segurança depende de uma combinação de fatores, como infraestrutura, manutenção, organização da operação e comportamento dos usuários da via. A saúde mental deve integrar essa análise, sem se tornar uma explicação única para ocorrências que podem ter diferentes causas.
O estresse no cotidiano da operação
O estresse é uma resposta a situações percebidas como desafiadoras ou ameaçadoras. Quando intenso ou persistente, pode vir acompanhado de irritabilidade, alterações do sono e dificuldade de concentração. Na condução, esses sinais merecem atenção, sobretudo quando se somam a longas jornadas e poucas oportunidades de recuperação.
No ambiente rodoviário, a pressão por cumprir horários, os congestionamentos e as dificuldades encontradas ao longo do trajeto podem aumentar a tensão. Problemas pessoais também podem ocupar a atenção do motorista durante o trabalho.
Para as empresas, o desafio é reconhecer essas situações e avaliar o que pode ser modificado na operação. Orientar o trabalhador a administrar o estresse tem alcance limitado quando os prazos, as jornadas ou a comunicação interna mantêm uma pressão excessiva.
Fadiga e privação do sono
A fadiga e a sonolência também exigem atenção, embora não sejam sinônimos de problemas de saúde mental. Podem estar relacionadas a sono insuficiente, jornadas prolongadas, desgaste físico e mental ou outras condições de saúde.
Dificuldade de concentração, sonolência e lentidão nas respostas são sinais que não devem ser ignorados. Os chamados microssonos, episódios breves e involuntários de sono, representam um risco durante a condução. Em uma rodovia, poucos segundos sem acompanhar o trajeto podem ter consequências graves.
A prevenção exige planejamento do trabalho e condições efetivas para o descanso. Não basta recomendar que o motorista durma bem se a programação das viagens e das entregas não favorece essa recuperação.
Por isso, a gestão da fadiga deve integrar a rotina das operações, com acompanhamento das jornadas, previsão de pausas e avaliação das condições em que o trabalhador inicia e encerra suas atividades.
Fatores psicossociais no trabalho
Os fatores psicossociais estão relacionados à maneira como o trabalho é organizado e às relações estabelecidas nesse ambiente. Sobrecarga, pressão excessiva por resultados, assédio, conflitos, falta de apoio e jornadas extenuantes são situações que precisam ser identificadas e enfrentadas.
Para trabalhadores que utilizam veículos como ferramenta de trabalho, essas condições merecem atenção também sob a perspectiva da segurança viária. A discussão deve considerar como as exigências da operação interferem no descanso, na concentração e no bem-estar.
Promover a saúde mental envolve oferecer apoio ao trabalhador e atuar sobre as condições que geram desgaste. Essa responsabilidade não pode ficar restrita à capacidade individual de suportar pressão ou lidar com dificuldades.
O papel das organizações na prevenção
As empresas têm um papel importante na construção de uma cultura em que o trabalhador possa relatar cansaço, sonolência ou dificuldades emocionais e receber orientação adequada. Esse diálogo precisa permitir a avaliação da situação e a adoção de medidas para reduzir os riscos.
O apoio psicológico e o encaminhamento para profissionais de saúde podem fazer parte desse cuidado. Devem ser acompanhados por medidas na organização do trabalho, como planejamento das jornadas, controle de horas extras e prazos compatíveis com uma condução segura.
Os treinamentos também podem ampliar a discussão para temas como gestão do estresse, comunicação e reconhecimento de sinais de fadiga. Os Diálogos Diários de Segurança são oportunidades para abordar essas questões e ouvir os trabalhadores sobre dificuldades encontradas na rotina.
O acompanhamento de acidentes, incidentes, afastamentos e relatos da equipe pode ajudar a identificar situações que precisam de investigação. Esses indicadores devem orientar a análise da operação, sem serem usados isoladamente para atribuir diagnósticos ou responsabilizar o motorista.
Atenção antes de iniciar a condução
Estimular uma reflexão sobre as próprias condições antes de dirigir pode contribuir para que o trabalhador reconheça sinais de alerta. Perguntas como “Dormi o suficiente?”, “Estou com sono?”, “Estou cansado?” e “Há alguma preocupação comprometendo minha atenção?” ajudam a trazer o tema para a rotina.
Uma ferramenta de observação de riscos é a FALAAD, que organiza a atenção em seis direções: frente, atrás, lados, acima, abaixo e dentro. Ao considerar o “dentro”, é possível incluir a reflexão sobre o estado físico e emocional de quem realizará a atividade.
Essa prática pode abrir espaço para uma conversa com a liderança, mas não substitui avaliação profissional nem determina, por si só, a aptidão para dirigir. Seu valor depende também de haver um procedimento claro para lidar com os sinais relatados e decidir os próximos passos com segurança.
A prevenção de acidentes exige uma abordagem que considere veículos, vias, processos e pessoas. Cuidar das condições de trabalho, respeitar as necessidades de descanso e oferecer apoio à saúde mental são medidas que devem fazer parte dessa gestão.
Para as operações logísticas, o avanço está em incorporar esse cuidado às decisões do dia a dia. O planejamento de uma viagem, a definição de um prazo e a resposta a um relato de cansaço também são decisões de segurança.
* Stefany Santos da Silva é Analista de Logística na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), e formada em Segurança Rodoviária e SGI