
O setor de logística vem acompanhando uma série de transformações regulatórias nos últimos anos, desde a definição do piso mínimo de frete, em 2018, até a discussão sobre o fim da escala 6x1, que tramita no Senado, passando por marcos como a Reforma Tributária e a obrigatoriedade do CIOT.
A Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) vem acompanhando as transformações regulatórias do setor e se reuniu com a imprensa na última quinta-feira (11/06) no Café com ABOL para comentar sobre os principais desafios e tendências do setor de operadores logísticos no Brasil hoje.
O evento contou com a presença de Marcela Cunha, diretora presidente da ABOL, e de representantes da imprensa, incluindo a Tecnologística. Foram discutidos temas como as novas regras do CIOT, o piso mínimo de frete, o fim da escala 6x1 e escassez de mão de obra.
Confira como os operadores logísticos percebem o impacto das mudanças recentes e como o setor tem se articulado diante dos debates na esfera pública.
Novas regras do CIOT e MP 1343
A MP 1343 estabelece que é obrigatório o registro eletrônico do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) para todas as operações de transporte rodoviário remunerado de cargas no país.
O registro eletrônico reúne informações como contratante do frete, transportador, veículos utilizados, origem e destino da carga, valor pago e tipo da operação.
A nova regra reforça a rastreabilidade, fiscalização e validação do Piso Mínimo de Frete nas operações do setor. Quando o valor reportado do frete é inferior ao piso, se torna impossível avançar na geração do código.
As punições para o descumprimento da regra agora incluem multas de até R$ 10 bilhões para reincidentes, impossibilidade de contratar novos fretes, suspensão ou cancelamento do RNTRC por até dois anos e até cancelamento do CNPJ, com efeitos extendidos a sócios e a integrantes de grupos econômicos.
Dificuldades dos operadores logísticos com novas regras
De acordo com a ABOL, os operadores logísticos enfrentam desafios em relação ao CIOT e à MP 1343, relacionados ao rigor das novas penalidades e a complexidade operacional da sua implementação.
A entidade alega receio de punições excessivas e falta de segurança no preenchimento correto dos documentos como as principais queixas do setor. A diretora Marcella Cunha alega que a publicação da MP apanhou o setor de surpresa, gerando um temor de que as operações pudessem ser interrompidas por falhas administrativas ou erros na declaração.
Intervenções da ABOL
A ABOL tem trabalhado diretamente com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para consolidar as dúvidas dos operadores e educar o setor sobre boas práticas no preenchimento dos documentos.
A entidade também entrou com uma liminar judicial que busca proteger os operadores logísticos contra punições imediatas enquanto se discute a constitucionalidade das regras da MP 1343.
Os efeitos práticos da liminar são a isenção de novas penalidades e garantia de continuidade das operações sem interrupções por falhas administrativas neste primeiro momento.
A legalidade e a constitucionalidade da lei do piso mínimo estão sendo discutidas no STF, que é o órgão com competência para definir a matéria. A ABOL participa nesse processo como amicus curiae fornecendo dados práticos que auxiliem a decisão dos ministros.
Fim da escala 6x1 preocupa operadores logísticos
O fim da escala 6x1, que foi aprovado na Câmara em maio e aguarda tramitação no Senado, é visto com cautela pelos operadores logísticos. A PEC estabelece uma redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas, garantindo dois dias de folga obrigatórios sem diminuir os salários. A transição prevê um ajuste gradual em duas etapas ao longo de 14 meses.
O tema tem grande impacto para o setor logístico, visto que as operações do setor são contínuas e acontecem 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Os principais pontos discutidos sobre este tema são:
"A discussão sobre a mudança da jornada de trabalho é legítima, principalmente aqui no Brasil. Ela é importante e necessária, e precisa considerar tanto a qualidade de vida dos profissionais como as particularidades do setor. Por isso a gente defende um diálogo amplo e aberto, principalmente reunindo os setores que serão afetados no dia 1, que são os intensivos em mão de obra", pondera Marcella.
Ancorada na pesquisa interna feita com operadores logísticos associados, a ABOL defende um período de transição de 2 anos para a adoção completa da escala 5x2, para que as empresas possam contratar e preparar as pessoas com equilíbrio financeiro. A entidade também pede que o diálogo sobre as mudanças considere as particularidades de setores como logística, indústria, comércio e serviços.
A ABOL afirma estar atuando junto ao Congresso Nacional para articular um "caminho do meio" que alcance as mudanças necessárias para os trabalhadores sem comprometer a operação do setor logístico.