Segunda-feira, 27 de maio de 2019 - 11h45
Logística global integrada
Em visita ao Brasil para comemorar os dez anos da operação local da Dachser, o CEO do operador logístico alemão, Bernhard Simon, falou sobre os planos e as perspectivas da companhia no país e no resto do mundo e detalhou a estratégia de operar como uma só rede logística totalmente integrada e altamente digitalizada

Conte-nos um pouco sobre a história da companhia.

Bernhard Simon – A Dachser foi fundada em 1930 pelo meu avô, Thomas Dachser. A Alemanha passava por um período muito difícil, não havia emprego e, por isso, ele decidiu abrir uma empresa. Logo depois da 2ª Guerra Mundial, a Dachser se tornou muito grande na Alemanha. E com a abertura do mercado devido à Comunidade Europeia, nós passamos de uma empresa nacional para uma empresa com presença muito forte em toda a Europa. Até então ela estava focada no transporte rodoviário, setor no qual somos líderes no continente europeu, mas com essa internacionalização, nos anos 1960 nós passamos a prestar também serviços de transporte aéreo e marítimo.

E um dos principais pilares da empresa vem desde a sua fundação: meu avô sempre soube como é importante valorizar as pessoas, e ele contou com funcionários muito leais, que sempre ajudaram muito o negócio a crescer.

Em que cidade da Alemanha fica a sede da Dachser?

Simon – Em Kempten. É uma cidade pequena, com aproximadamente 70 mil habitantes, bem no sul do país, na Bavária.

E vocês vieram para o Brasil em 2009, correto?

Simon – Considerando uma operação 100% Dachser, sim. Em um primeiro momento nós estávamos presentes por meio de uma joint venture com a Logimasters, que teve início no ano de 2006. Mas em 2009 nós adquirimos totalmente esse parceiro, justamente com o objetivo de crescer ainda mais no Brasil, o que não era tão simples por meio da joint venture.

Ela foi ótima para que nós estrássemos no mercado brasileiro, mas se você quer realmente se desenvolver em um determinado país da maneira que a Dachser faz, com suas atividades e seus sistemas totalmente integrados, por exemplo, o ideal é que a operação seja toda sua. Então nós realizamos esse negócio justamente para tornar a operação brasileira parte integrante da rede mundial Dachser.

A partir disso, eu posso dizer que nós mudamos completamente a maneira como fazemos negócios no Brasil. São processos bastante diferentes, seguindo o padrão Dachser, com toda a cultura de sucesso que nossa companhia já carrega. Uma cultura global, de uma rede muito bem integrada. Até então, nós fazíamos negócios mais específicos, quando surgia uma possibilidade, digamos. Mas a partir do momento em que nos tornamos totalmente Dachser no Brasil, a estratégia passou a ser pensada de maneira mais global. E desde 2009 essa estratégia tem funcionado muito bem.

Em quantos países a Dachser está presente?

Simon – Como eu já disse, nós somos muito fortes na Europa, e lá atuamos em praticamente todos os países, mas é claro que os mercados fora do continente europeu também são muito importantes para nossas operações, como é o caso do Brasil. Hoje nós estamos presentes em 44 países ao redor do mundo. Na América Latina estamos no Brasil, Argentina, Peru, Chile e México. Estamos também nos Estados Unidos, é claro. Na Ásia estamos na China, Índia, Taiwan, Coreia, Tailândia, Malásia, Singapura, Vietnã... São muitos países.

Vocês possuem ativos em todos os locais em que atuam, ou em alguns a Dachser está presente somente na prestação de serviços?

Simon – Nós temos ativos em todos eles. Em alguns países temos mais, em outros menos, naturalmente. Em alguns temos muitos armazéns, por exemplo, como na Europa e nos Estados Unidos. Já no transporte, utilizamos veículos terceirizados. Para se ter uma ideia, só nos Estados Unidos nós temos um custo anual direcionado às empresas de transporte parceiras de cerca de U$ 70 milhões.

Quantos colaboradores a Dachser possui globalmente?

Simon – São pouco mais de 30 mil no mundo e no Brasil em torno de 200.

Hoje o Brasil representa o quarto maior faturamento da companhia, correto?

Simon – Exatamente, dentro da divisão de Frete Aéreo e Marítimo. Em 2018 a Dachser faturou globalmente 5,6 bilhões de euros, incluindo todos os negócios da companhia. No Brasil, o faturamento foi de 75,3 milhões de euros, algo em torno de R$ 324 milhões. Esse resultado significou um crescimento de 18% na comparação com 2017. E apesar de o mercado não ter se mostrado tão positivo nos primeiros quatro meses deste ano, nós esperamos pelo menos manter esse mesmo ritmo de crescimento.

A crise que o Brasil enfrentou recentemente afetou os negócios da Dachser?

Simon – De certa maneira sim, pois ela afetou nossos clientes, reduziu alguns volumes, e isso tem reflexo nas nossas operações. Nós lidamos com empresas de diversos segmentos, e alguns deles sofreram mais que outros, obviamente. Mas mesmo assim nós passamos por esse período apresentando crescimento.

O que nós podemos perceber em tempos de crise é que o mundo político é bem diferente do mundo dos negócios. Mesmo em um período difícil em termos políticos, as boas empresas conseguem encontrar meios de crescer. Nós esperamos que as reformas que estão em vista possam ajudar o Brasil, porque são assuntos que realmente freiam um país que apresenta um enorme potencial de crescimento.

Um aspecto com o qual nós lidamos diretamente e que poderia melhorar muito por aqui é o sistema alfandegário. Quando comparado com o resto do mundo, o Brasil apresenta muitas complicações nesse quesito, então as coisas poderiam ser simplificadas.

Quais são os principais segmentos atendidos pela Dachser?

Simon – São setores como automotivo, industrial, de embalagens, farmacêutico, alimentício, químico. No automotivo, por exemplo, a crise foi sentida com muito mais força. Mas justamente por termos uma carteira bastante diversificada é que os negócios seguiram evoluindo. O setor de alimentos é um exemplo de um mercado que está muito bem, assim como o industrial de máquinas e equipamentos. Mas as perspectivas são de que o setor automotivo melhore um pouco já no segundo semestre de 2019.

A Dachser possui um histórico de fusões e aquisições, até mesmo para entrar em determinados países, como aconteceu no Brasil. Novas negociações desse tipo fazem parte dos planos da companhia para acelerar o crescimento?

Simon – A verdade é que o crescimento da Dachser, em sua maior parte, aconteceu organicamente, e é isso que buscamos. Normalmente, quando compramos uma empresa, nós a conhecemos muito bem, já atuamos como um parceiro, como foi o caso da Logimasters. Mas na maioria dos países nós abrimos nossa unidade do zero. Como eu disse antes, para realmente seguirmos o padrão Dachser, é preciso que seja dessa maneira. Nem sempre integrar processos e padrões é uma tarefa simples. Quando você absorve outra empresa, essa integração precisa ser 100%. Se nós compramos uma empresa interessados somente em ganhar uma fatia de mercado, isso pode atrapalhar mais os negócios do que ajudar, porque sempre existem problemas quanto à integração.

Então nosso histórico de aquisições não é tão grande assim. O que foi feito no Brasil nós fizemos em alguns países menores, no segmento Aéreo e Marítimo, que é um pouco menos complicado justamente quanto a essa integração, mas na verdade eu destacaria somente outras duas compras que foram bastante significativas: na França, em 1999, e na Espanha, em 2013. Mas de uma maneira geral, nós costumamos abrir nossos próprios escritórios e nossas próprias operações nos países para onde vamos.

Uma operação tão grande totalmente integrada demanda processos tecnológicos robustos, certo? Fale um pouco sobre a importância da tecnologia para a Dachser.

Simon – Desde o começo a Dachser desenvolve seus próprios sistemas de informática. Nossas soluções são proprietárias. Não compramos do mercado. Já lá no início tivemos nosso próprio sistema para o transporte rodoviário, e depois também para o aéreo e o marítimo, introduzido inclusive no Brasil. Faz parte da estratégia atual da Dachser dar visibilidade sobre 100% das atividades mundiais da companhia. E para fazer isso, nós precisamos de boas soluções tecnológicas. Esse é um dos principais pontos que nós consideramos como os mais significativos para o desenvolvimento da Dachser.

Nós utilizamos um sistema chamado Domino, que desenvolvemos para gerenciar todos os processos de frete da companhia na Europa, e também o Othello, para as operações aéreas e marítimas em todo o mundo. Com eles, nós temos 100% de controle e visibilidade de todo o transporte. E por meio do portal eLogistics, totalmente conectado aos nossos sistemas, o cliente pode visualizar sua carga, acompanhar todos os passos, ver o status, quando foi realizado o embarque, quando ela chegou ao destino etc.

Dentre os investimentos mais importantes da Dachser sem dúvida estão os custos com tecnologia, em particular com os funcionários especializados. Só para programar nós temos mais de 250 pessoas em Kempten, onde fica nosso principal centro de desenvolvimento, e levando em conta o mundo todo, são mais de 400 pessoas lidando diretamente com tecnologia. Isso nos coloca em dia com a digitalização da logística, um fator muito importante atualmente.

Imagens: Divulgação
Imagens: Divulgação

Na sua opinião, que países apresentam, no momento, boas perspectivas de crescimento para os negócios da Dachser?

Simon – A Europa ainda é nosso motor. Mesmo com todas as discussões políticas que estão ocorrendo por lá, o mercado europeu permanece em crescimento e, além disso, nossa operação lá é muito grande. Além disso, a Ásia também é muito promissora.

Mas quanto ao Brasil, nós realmente acreditamos que se trata de um mercado com ótimas perspectivas. E talvez seja possível que o país tire alguma vantagem, no que diz respeito ao comércio exterior, dos conflitos entre China e Estados Unidos.

O Brasil é um país no qual, sem dúvidas, vale a pena investir, e a Dachser vai continuar fazendo isso. É um mercado muito importante para a companhia, muito significativo no cenário global, com boas oportunidades e nós queremos fazer parte dele cada vez mais.