Sexta-feira, 27 de setembro de 2019 - 14h36
Gigante latino-americana
Subsidiária do centenário grupo Femsa, a Solística – antes conhecida como Femsa Logística – segue forte na empreitada de se consolidar cada vez mais como um dos maiores operadores logísticos da América Latina. Em entrevista exclusiva à Tecnologística, o diretor de Operações LTL e WHS José Manuel Juaréz conta todos os detalhes da estratégia e das pretensões da empresa

Conte-nos um pouco a respeito da história e da organização da companhia.

José Manuel Juaréz – Nós fazemos parte da Femsa, que é uma companhia de origem mexicana, fundada em 1890 e que atualmente tem por volta de 300 mil colaboradores, com presença nos principais países da América Latina. A estrutura corporativa do grupo é composta por quatro divisões. Temos a Coca-Cola Femsa, que é a maior engarrafadora de Coca-Cola em todo o mundo; a Femsa Negócios Estratégicos, que compreende a Solística, além de uma empresa que fabrica geladeiras comerciais e outra que fabrica equipamentos para restaurantes, Imbera e PTM, respectivamente; a Femsa Comércio, que abrange quatro unidades: lojas de conveniência, farmácias, postos de combustível e fast food; e, por fim, a quarta divisão do grupo é a participação da Femsa na cervejaria Heineken.

Na verdade a atividade original da companhia era a produção de cerveja, mas esse negócio foi vendido para a Heineken em 2010, e hoje a Femsa é a segunda maior acionista da empresa, além de contar com dois membros no Conselho de Administração, porém sem qualquer responsabilidade operacional. Foi justamente depois da venda da cervejaria que a Femsa começou a estudar outros setores para atuar com mais força, e isso aconteceu nos segmentos de farmácias e de logística. São atividades que apresentam escala, que possuem bastante potencial de crescimento, além, é claro, de terem bastante proximidade com os negócios com os quais a Femsa sempre trabalhou. No caso das farmácias, por exemplo, a gestão de uma unidade é muito parecida com a de uma loja de conveniência.

Mas a experiência da companhia com logística vem de muito antes, certo?

Juaréz – Sim. Em 2010 foi tomada a decisão de atuar com mais força, como eu disse, mas a empresa já era muito especializada em logística. A Solística era conhecida anteriormente como Femsa Logística, e ela foi fundada em 1998. Nessa época, os executivos da Femsa perceberam que a companhia apresentava uma demanda muito elevada por serviços logísticos, então tomaram a decisão de criar essa unidade a partir do departamento de transportes da cervejaria, passando a prestar serviços logísticos para as subsidiárias da Femsa, atendendo às necessidades dos seus próprios negócios. Não somente as necessidades logísticas, mas também de manutenção de veículos, com oficinas próprias. No Brasil, a empresa começou a operar em 2008.

E a Femsa Logística, com o crescimento cada vez maior da Femsa, foi se transformando em uma excelente empresa para oferecer seus serviços também para o mercado em geral. Assim, por volta de 2012 foi definida a estratégia de se abrir para outros clientes além da própria Femsa. E desde o primeiro minuto essa estratégia foi acompanhada pela decisão de realizar aquisições. A atividade logística é muito técnica, apresenta muitos detalhes, exige muito know-how, e nós tínhamos isso de sobra nos nossos segmentos, mas para entrar em novos setores e contar com novos clientes, nós decidimos adquirir capacidades. Até mesmo porque levaria muito tempo para nós nos desenvolvermos no nível das empresas que foram adquiridas. São empresas realmente muito grandes.

No Brasil vocês adquiriram a Expresso Jundiaí e a Atlas, correto? Conte-nos um pouco mais a respeito dessa estratégia.

Juaréz – Foi realizada uma avaliação bastante minuciosa nas principais economias da América Latina com o objetivo de identificar os grandes operadores logísticos que melhor se encaixavam nos planos de negócio da Femsa Logística. Dessa avaliação foram geradas listas com as potenciais empresas e nós fomos capazes de adquirir aquelas que estavam no topo das listas.

Então em 2013 a Femsa Logística adquiriu a brasileira Expresso Jundiaí, em 2015 foram adquiridas a mexicana Zimag e a brasileira Atlas e em 2016 nós adquirimos a colombiana Open Market. Devido ao tamanho do mercado, no Brasil nós optamos por realizar ao menos duas aquisições, e foi isso que aconteceu. Com essa abertura para o mercado foi decidido também rebatizar a Femsa Logística e, em 2018, nós adotamos o nome Solística.

A partir dessas aquisições a empresa passou a contar ainda mais com as melhores práticas de mercado, ganhando muito no que diz respeito a pessoas, conhecimento, processos e setores atendidos. Com as novas atividades nós passamos a atuar em segmentos como o cosmético, o eletroeletrônico, de moda, calçadista, automotivo e farmacêutico, que hoje representa 40% da nossa receita no Brasil. Ao todo, a Solística conta com mais de 4 mil clientes.

Nós sempre fomos muito ligados à atividade de transporte, mas com tudo isso buscamos cada vez mais nos consolidar como um operador logístico integrado. A Solística oferece serviços de ponta a ponta da cadeia, com transporte, distribuição, armazenagem, serviços de valor agregado e soluções multimodais.

E no momento nós estamos padronizando diversos processos, além dos sistemas de informação, com o objetivo de oferecer níveis de serviço cada vez mais uniformes e consistentes em todas as nossas atividades, especialmente para os clientes multinacionais. Temos casos, como nas operações que realizamos para a Johnson&Johnson, em que nós prestamos serviços de logística integral que envolvem Brasil, México e Colômbia, indo do transporte e da armazenagem até serviços de valor agregado como packing e montagem de kits, por isso é importante que exista um alto nível de padronização.

Vocês contam com fornecedores de sistemas ou desenvolvem as ferramentas internamente?

Juaréz – Nós avaliamos caso a caso se é mais vantajoso trabalhar com um fornecedor de uma solução já disponível no mercado ou desenvolver internamente. Para gerenciar nossos armazéns, por exemplo, utilizamos soluções de WMS fornecidas pela Totvs e pela JDA. Para o transporte nós avaliamos as soluções que existem no mercado, mas percebemos que nenhuma delas atendia plenamente as nossas necessidades, então nós tomamos a decisão de desenvolver nosso próprio TMS, aqui mesmo no Brasil, com equipe de tecnologia 100% local. Essa é uma questão muito importante inclusive para o trabalho de integração com as empresas adquiridas.

Nós temos também um sistema de gerenciamento de risco muito poderoso. É um tecnologia que combina dois fornecedores, a Autotrac e a Omnilink, e funciona de maneira híbrida, combinando comunicação celular e via satélite. Temos uma central de gerenciamento de risco que sabe qual é o plano de viagem de todas as movimentações que realizamos e, se houver qualquer ocorrência, eles podem tomar as devidas medidas, como bloquear o veículo, por exemplo. Nós vamos aplicar essa solução também nas operações mexicanas, pois depois de avaliar as opções disponíveis no mercado local nós detectamos que o sistema que nós utilizamos aqui no Brasil é o que melhor atende às nossas necessidades lá também.

Quantas pessoas atuam no negócio de logística?

Juaréz – Hoje nós somos 21 mil pessoas somando todos os países em que atuamos. Considerando somente o Brasil, são 5.700 colaboradores diretos.

É importante salientar que quando as aquisições foram feitas, nós estabelecemos duas diretrizes principais. A primeira delas é que as empresas iriam continuar operando normalmente no seu curso de trabalho diário, sem que nós gerássemos qualquer impacto. Isso porque nós compramos empresas que já eram muito boas, muito bem estruturadas, líderes, verdadeiras referências de mercado. As aquisições foram feitas para agregar, e não para mudarmos alguma coisa.

E a segunda diretriz era manter 100% das pessoas, reter todos os talentos. Nós sempre tivemos em mente que, diferente das demais empresas da Femsa, nós não vendemos um produto, mas um serviço. Você pode ter as melhores tecnologias e os melhores processos, mas no final do dia a qualidade do serviço depende muito das pessoas. Na logística é muito importante a capacidade de agir, de enfrentar e de contornar situações rapidamente, e isso é feito com o talento de colaboradores bem capacitados.

Qual o tamanho da frota de transporte da Solística?

Juaréz – Nós contamos com mais de 6 mil veículos. No Brasil, são por volta de 2.700. Trabalhamos com uma base bastante grande de agregados. Da nossa frota total, 70% são agregados e 30% são próprios. Com esses parceiros nós trabalhamos em um sistema em que o agregado entra somente com o cavalo mecânico e nós entramos com a carreta.

Estamos agora realizando um processo de uniformização da identidade visual dessas carretas. Hoje elas contam com a identificação da Solística como uma empresa da Femsa e também com as marcas das empresas locais. Com o tempo, conforme o nome Solística se tornar cada vez mais conhecido no mercado, a tendência é que as carretas carreguem somente a identidade visual dela.

Como se configura a estrutura física da empresa?

Juaréz – Nós temos mais de 500 mil m² de armazéns, dos quais quase 100 mil m² estão localizados no Brasil, em nove centros de distribuição. Nossas principais unidades de armazenagem em território brasileiro estão localizadas na Região Sudeste, além de um armazém de grande porte em Goiânia. E nós realizamos também operações in house. Cerca de 70% da nossa atuação com armazenagem acontece em unidades próprias e os 30% restantes são operações in house.

A empresa passou por várias mudanças em um período em que a economia brasileira apresentava diversos problemas. Como vocês encararam isso?

Juaréz – Toda essa estratégia foi estabelecida entre 2011 e 2012. Eu trabalhava na Femsa e fui convidado pela Femsa Logística justamente para fazer as aquisições, fundamentais para os planos da empresa. Na época eu fiquei muito surpreso com todo o projeto e também muito feliz com a maneira como nós conseguimos colocar em prática, adquirindo justamente as empresas nas quais miramos, por exemplo. E hoje, analisando o que aconteceu depois das aquisições, eu tenho certeza de que se nós fôssemos fazer tudo de novo, faríamos exatamente da mesma maneira. Foi um plano realmente muito bem feito e muito bem executado.

O que não estava nos planos foi a crise econômica que chegou logo depois, e que ainda está aí. Mas o que eu posso dizer é que a visão da companhia é uma visão de longo prazo. Nós não estamos aqui para ficar cinco ou dez anos. Estamos aqui para ficar para sempre, com o objetivo de sermos a principal empresa latino-americana de serviços logísticos integrados. Hoje nós estamos presentes no México, no Brasil, na Colômbia, na Nicarágua, na Costa Rica, no Panamá e nos Estados Unidos.

Nós sabemos que crises acontecem, infelizmente, mas sabemos também que crises não são eternas. E lidar com elas faz parte da nossa expertise, como uma companhia latino-americana. Nós somos otimistas, vamos continuar investindo no Brasil e vamos continuar acreditando que as coisas vão melhorar. Mas se não melhorar, nossa filosofia é tentar esquecer o que está acontecendo no entorno, porque nossos resultados dependem do nosso trabalho, dependem das nossas próprias ações.

É claro que vamos torcer para que haja muito vento a favor, mas de qualquer maneira nossos planos prosseguem. Estamos investindo cada vez mais em tecnologia da informação, vamos investir em renovação de frota, inaugurar novas filiais e vamos continuar fortalecendo nossa imagem de um operador logístico completo, que oferece soluções integradas. Desde que chegamos ao Brasil, sempre fomos autossuficientes. Nunca tivemos prejuízos, nunca precisamos de dinheiro da matriz mexicana e 100% do lucro gerado pelas operações brasileiras fica aqui. Então é possível dizer que nossa filosofia de trabalho está dando muito certo.