Quinta-feira, 21 de novembro de 2019 - 12h19
Logística sustentável
Focada na logística reversa e na reciclagem de eletroeletrônicos, a GM&C vem investindo pesado para aumentar cada vez mais a capacidade de processamento e as tecnologias empregadas em suas operações, de olho em um mercado que promete crescer em ritmo acelerado, especialmente com a assinatura do Acordo Setorial que integra a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Confira nossa entrevista exclusiva com o sócio-diretor da empresa, Marcelo Oliveira
Créditos: Radamés Jr.

A GM&C é especializada na logística reversa de produtos eletroeletrônicos, correto? Conte-nos um pouco sobre a história da criação da empresa.

Marcelo Oliveira – A GM&C surgiu em 2002 com um sistema de gestão e rastreabilidade. No Brasil não existia uma empresa que tivesse rastreabilidade de ponta a ponta, desde a coleta até a destinação final, e nós surgimos com essa ideia. O GM&C Log é um sistema pioneiro no Brasil, que faz toda a gestão e o controle das etapas da logística reversa. Eu, como responsável pela GM&C e tendo atuado como auditor em grandes companhias em que trabalhei, consegui construir um sistema que levasse a informação até os nossos clientes, das coletas, do transporte, do recebimento do material, em termos de peso, volume coletado, quanto tempo eu fiquei com esse material na empresa para ele ser processado, o que foi gerado de matéria-prima para depois ser destinada à reciclagem, algumas feitas aqui no Brasil e outras fora do país.

Confira o vídeo desta entrevista acessando o Canal Tecnologística

Até então não havia toda essa visibilidade dos processos?

Oliveira – Naquela época não existia nenhum sistema voltado para a logística reversa. Para uma empresa saber informações como volume recebido, volume processado e pra onde a matéria-prima foi encaminhada, por exemplo, era preciso fazer uma ligação telefônica pra o seu fornecedor, enviar um e-mail ou até mesmo fazer visitas in loco, uma espécie de auditoria mesmo. Com o GM&C Log, que é um sistema via web, nós trazemos essas informações para o cliente online, com todos os dados das etapas até a matéria-prima chegar no refino final, que é a transformação em novos produtos.

Vocês mudaram recentemente para uma nova unidade, certo?

Oliveira – Sim. Ao longo desses 17 anos nós já investimos na empresa mais de R$ 20 milhões, para mantê-la nesse nível de processamento e de qualidade, assegurando para os clientes que a matéria-prima gerada em todas as etapas é transformada em novos produtos, cumprindo assim com a economia circular. A GM&C investiu numa nova planta pra aumentar sua capacidade e receber mais eletrônicos, baseada no Acordo Setorial de Logística Reversa de Eletroeletrônicos, da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovado no dia 31 de outubro.

Ministério do Meio Ambiente celebra Acordo Setorial de Eletroeletrônicos

Pensando no atendimento à aprovação da Política Nacional, nós mudamos de uma área de 3.300 m², em São José dos Campos (SP), para uma área de 6.200 m² na mesma cidade, pra ter uma capacidade maior de recebimento. Hoje nós temos capacidade para receber 200 carretas mensais, e recebemos em média 50, 60, mas isso pode aumentar conforme a demanda. A nossa capacidade atual de processamento, com a nova tecnologia que nós trouxemos para o Brasil, que é a primeira da América do Sul, passou de 5 mil toneladas para 17 mil toneladas por ano. Esse é um número extremamente interessante. Se pensarmos que algumas gestoras que já estão no Brasil necessitam de 10 mil toneladas por ano, nós já estamos com uma capacidade um pouco maior para atendê-las e atender a todos os nossos clientes.

Pensando nesse novo volume, novo crescimento, e nas obrigações junto aos fabricantes, que terão que cumprir com 17% do que eles colocam no mercado, nós nos posicionamos como a primeira empresa a estar apta a atender à Política Nacional, com capacidade de processamento. E mais ainda: nós acabamos de criar 27 hubs em todo o Brasil para a consolidação da carga para depois vir até a nossa planta de reciclagem aqui em São José dos Campos (SP).

Como funcionam exatamente esses hubs?

Oliveira – Eles foram definidos pela GM&C com o objetivo de facilitar a questão logística. Nós precisamos consolidar volumes significativos de carga pra viabilizar o transporte a partir dos mais variados locais até a nossa unidade. É um trabalho feito em conjunto com os nossos parceiros de transporte que contam com armazéns e centros de distribuição.

As carretas que levam os produtos até a GM&C são de parceiros de transporte?

Oliveira – Sim. Nós não trabalhamos com frota própria, mas como estamos inseridos em um polo logístico, nossos vizinhos operadores são ótimos prestadores de serviço. Nós gerenciamos mais de 15 mil pontos de coleta em todo o Brasil. Esses pontos são de assistências técnicas. O próprio fabricante encaminha as informações via manual do produto ou via mídia interna junto a assistência técnicas. As informações chegam até o consumidor final para que ele leve o produto até esses locais.

Conte-nos como funciona todo o processo, desde a origem do resíduo até a saída da matéria-prima da GM&C.

Oliveira – O cliente faz uma solicitação para a GM&C pelo sistema GM&C Log, realizando o pedido e inserindo as informações do que ele tem disponível para coleta. Nasce então o pedido dentro do sistema e, a partir dessa etapa, ele vai pra um call center, uma central de atendimento ao cliente, que recebe as informações. Depois nós confirmamos junto ao cliente questões como volume, cubagem, peso e tudo mais e também sobre a nota fiscal, se está tudo OK. Então nós direcionamos o pedido junto a um parceiro de transporte, que traz o material. Todo o rastreamento dessa carga é feita pelos prestadores de serviço de transporte, com a GM&C gerenciando o lead time contratado junto a esses parceiros e aos clientes.

Quando recebemos a carga, o material entra na empresa após a conferência, é armazenado e segue então o fifo (first in, first out) de processamento. Existe um planejamento de produção, de manufatura reversa. O material entra nesse processo de alta tecnologia e no final da cadeia é gerada a matéria-prima. Eu tenho então um banco de resíduos, um banco de matéria-prima que depois é encaminhada para os parceiros finais, que são as empresas de refino.

Por exemplo, os metais nobres que nós separamos vão para a Umicore, na Bélgica, que tem uma unidade em Guarulhos (SP), onde recebe o material que depois é encaminhado para a Bélgica para extrair os metais presentes ali. Geralmente os materiais que nós encaminhamos pra lá contêm os metais ouro, prata paládio e cobre. Quanto aos demais resíduos, ferro nós encaminhamos para a Gerdau, alumínio e cobre para empresas como a FBM Metais, baterias de chumbo-ácido nós encaminhamos para a Tamarana, em Londrina (PR), e assim vai. A cadeia é bastante extensa. Nós trabalhamos com muitos fornecedores e hoje em média nós temos 39 parceiros finais de refino de vários tipos de resíduos que são processados aqui na empresa.

Todos os metais nobres são exportados?

Oliveira – Sim, 100%. A Umicore é um grande parceiro nosso nessa cadeia. Trata-se de uma gigante do refino de metais, uma das maiores desse setor no mundo. Eu já tive a oportunidade de visitar a empresa na Bélgica, de conhecer seus processos, que são muito bem controlados e confiáveis. Com a aprovação da Política Nacional e o aumento dos volumes, pode ser que surjam outras empresas, mas nós estamos muito satisfeitos com esse parceiro e podemos até mesmo ampliar os negócios.

Há alguns anos vocês buscaram uma nova solução na Alemanha e, mais recentemente, na Itália, certo?

Oliveira – Um dos principais pilares da GM&C é a pesquisa pelas mais modernas soluções disponíveis no mercado. Eu tive a oportunidade de visitar operações em diversos países com equipamentos e sistemas de alta tecnologia e, baseado em tudo o que eu vi e nas necessidades da GM&C, nós identificamos boas oportunidades.

Nós tínhamos um processo manual que demandava um tempo e uma quantidade de mão de obra muito grandes, então em 2015 buscamos uma empresa Alemã que nos ajudou a elaborar todo esse cenário da nova solução. Ela é a única no mundo que separa o metal de cartões de crédito e de débito e de chips. Então ela nos ajudou a acelerar o processo e nos deu uma capacidade maior de processamento.

No final de 2018 eu estive fora do país avaliando outra solução e nós fechamos com uma empresa italiana esse projeto para separar metais de pequenos eletrônicos. É uma máquina muito interessante, porque você joga o produto inteiro e ela vai separando o metal ferroso do não ferroso e no final você trabalha refinando esse material para separar os metais presentes para depois serem encaminhados para a Umicore. Nós somos a primeira empresa da América do Sul a ter essa solução com alta tecnologia empregada e instalada aqui no Brasil.

Quantas pessoas atuam na GM&C?

Oliveira – Atualmente são 70 colaboradores diretos trabalhando nas operações de São José dos Campos.

Quais são os principais produtos com as quais a empresa trabalha?

Oliveira – Desde 2007 a GM&C recebe chips de celular das operadoras e de vários clientes. Em 2014, quando nós tomamos a decisão de trazer essa solução única no mundo, eu estava recebendo 30 milhões de chips para processamento por ano. Hoje houve uma queda, e nós estamos processando em torno de 15 milhões de chips. Nos últimos três anos o cenário mudou bastante. O chip deu uma reduzida em termos de quantidade, porém os outros eletroeletrônicos aumentaram bastante. Nós recebemos muitos aparelhos celulares aqui na empresa hoje, e pequenos eletrônicos de uma forma geral.

A GM&C é muito forte em projetos B2B, que é todo o pós-venda das grandes empresas, com produtos que geram defeito na garantia e são encaminhados pra cá. Do volume que eu processei em 2018, que foram 2.500 toneladas, de 85% a 90% foi de projetos B2B, e as demais B2C, com produtos que o consumidor final descarta junto às lojas das operadoras, assistências técnicas e varejo de uma forma geral. E aí eu estou falando de todo eletroeletrônico. Desde a pilha até uma geladeira. A gama de produtos é bem variada. Mas a GM&C é muito forte hoje na linha verde, que são produtos de informática, telecomunicações e tudo mais. Não podemos esquecer, porém, que com a nova solução que nós trouxemos, vamos abranger um novo cenário, um novo mercado, atendendo a linha marrom, a linha azul e parte da linha branca.

De onde vem a maior parte dos resíduos que chegam até a GM&C?

Oliveira – Das 2.500 toneladas coletadas em 2018, a Região Sudeste foi a que mais contribuiu, com 68%, tendo a capital de São Paulo em primeiro lugar, seguida por Belo Horizonte e Curitiba. Logo depois vem a Região Sul e então as demais regiões. A tendência, especialmente com a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, é que os volumes cresçam em todo o país. Os 27 hubs que eu mencionei fazem parte do nosso planejamento estratégico para atender esse crescimento de demanda. Mas é claro que, se houver um volume que justifique, nós podemos instalar plantas em outras regiões, como no Norte ou no Nordeste, reduzindo os custos logísticos.

Quais você diria que são os maiores desafios desse setor?

Oliveira – Todos sabem que a logística no Brasil representa um custo muito alto. Como nós estamos falando de um negócio que busca promover a reciclagem de resíduos, seria muito interessante se o governo buscasse auxiliar as empresas de logística reversa como a GM&C reduzindo a carga tributária. Nós pagamos impostos como qualquer outra empresa, mas nosso negócio está contribuindo com o meio ambiente, ajudando de diversas maneiras, como evitando a contaminação do solo e reduzindo a quantidade de material que vai pros lixões e aterros, por exemplo.

Quais são as expectativas da empresa para o próximo ano?

Oliveira – Nesse ano de 2019 a GM&C deve atingir em torno de 4 mil toneladas de produtos de retorno processados, e pro ano que vem, se tivermos volume, provavelmente 17 mil toneladas serão cumpridas, na capacidade máxima da empresa. Esperamos que, com a aprovação do Acordo Setorial e com a Política Nacional entrando em vigor, esses volumes cresçam pra gente poder ajudar cada vez mais o Brasil e evitar que esses produtos eletrônicos sejam jogados nos aterros, contribuindo de uma forma geral e encaminhando a matéria-prima para ser transformada em novos produtos, atendendo à economia circular.