Segunda-feira, 13 de abril de 2020 - 14h09
Da crise ao lucro
A Intelipost, que atua no mercado de tecnologia voltada para a logística, divulgou ao mercado o relatório Os efeitos do Covid-19 na Logística do E-commerce, que apresenta um overview das ações propostas pelos varejistas. Em entrevista exclusiva à Tecnologística, o CEO da empresa, Stefan Rehm, falou sobre os dados coletados, os desafios que o atual momento apresenta e as tendências observadas. O executivo também explica como a tecnologia pode ajudar os e-commerces a darem conta do crescimento da demanda e manter a logística funcionando

Qual foi o período definido pela Intelipost para a realização da análise que resultou no relatório Os efeitos do Covid-19 na Logística do E-commerce?

Stefan Rehm – O estudo foi divulgado no último dia 31 de março e levou em consideração os períodos entre 26 de fevereiro e 27 de março dos anos de 2019 e 2020.

Qual a abrangência da análise?

Rehm – O estudo foi realizado em âmbito nacional.

Quantas empresas participaram e quais os setores de atuação?

Rehm – Mais de 4 mil vendedores online foram considerados na pesquisa e levamos em conta para a concepção do estudo os setores de alimentos e bebidas, automotivo, brinquedos e games, casa e decoração, eletroeletrônico, esporte e lazer, informática, joalheria, livros e revistas, logística e transporte, lojas de departamento, material de escritório, moda, calçados e acessórios, pet, saúde, cosméticos e cuidados pessoais.

Fale um pouco sobre os critérios avaliados e os principais pontos identificados.

Rehm – Para a obtenção dos dados e informações analisamos as quantidades de pedidos feitos em nossa plataforma, que por mês recebe mais de 300 milhões de cálculos de frete, e pudemos ver uma queda na quantidade de solicitações de forma geral e um crescimento identificado especialmente nos setores de pet, saúde e alimentos e bebidas.

Além de identificar oscilações nos negócios, houve alguma alteração quanto ao comportamento operacional das companhias?

Rehm – Sim. Entre as principais mudanças estamos vendo trabalho remoto e redução na quantidade de funcionários, manutenção de temperaturas e higienização dos espaços de trabalho. Algumas empresas já esperam uma queda na receita e cogitam suspender temporariamente as operações. Todas permanecem em alerta.

Créditos: Divulgação

Apesar disso, há a possibilidade de utilizar esse cenário de forma positiva?

Rehm - Existe uma oportunidade para o e-commerce mostrar o valor da conveniência e, de forma geral, o apelo das empresas é que a população evite compras em quantidades exageradas e que as transportadoras tentem, ao máximo, manter as condições de coleta e entrega.

As oportunidades por conta do mercado atual geram dúvidas, certo? Como as empresas podem se preparar para manter as operações eficazes?

Rehm – É um momento de muita incerteza e a maior parte das empresas está aprendendo a operar nesse novo cenário. O cuidado com as pessoas na operação, o planejamento dos próximos meses e a adaptação das movimentações para aumentar a relevância das vendas online estão entre os desafios das empresas. Neste momento, as empresas estão vivendo um dia de cada vez e atuando para manter suas operações. Então, ainda é cedo para falar com propriedade sobre soluções no cenário que vivemos.

A logística segue essa nova realidade? O que já pode ser observado?

Rehm – A maioria das empresas está atuando com prazos maiores, turnos sem overlap nos centros de distribuição e novos protocolos de higiene e limpeza. Temos visto já várias iniciativas nesse sentido, como a suspensão do comprovante de entrega, que pode ser substituído pelo comprovante por voz, lockers que abrem e fecham sem necessitar de interação física, apenas com o uso do celular e, principalmente, a modalidade de ship from store, que transforma a loja física em um ponto de distribuição utilizando o estoque local. Esses são alguns exemplos que já estamos vendo.

Trata-se de um grande desafio para os operadores logísticos, correto?

Rehm – O desafio logístico é enorme, principalmente para quem ainda usa métodos mais tradicionais de gestão de fretes. Temos ajudado alguns clientes na gestão da capacidade de entrega e o que vemos é um grande engajamento por parte de varejistas e de todos os atuantes da cadeia de distribuição para que as operações continuem. A adoção de novas estratégias, como o ship from store, pode ajudar a ganhar eficiência neste período também.

As tecnologias surgem, então, como ferramentas indispensáveis e contribuem na identificação de oportunidades e solução de pontos críticos?

Rehm – Com uma gestão de fretes inteligente, a empresa consegue tomar melhores decisões, com mais agilidade. Se a gestão é feita de modo tradicional, com planilhas, o tempo de resposta costuma ser mais longo e a empresa demora para identificar, por exemplo, se precisa mudar algo no processo. Além disso, a tecnologia na definição de frete também ajuda a melhorar a experiência do usuário e criar campanhas, como o frete grátis para determinados produtos.

O e-commerce é diretamente impactado com essas mudanças na logística?

Rehm – O setor está vivendo uma grande oportunidade para mostrar sua conveniência. Para muitas empresas, a venda online passou a ser a única fonte de receita neste momento. Temos visto muitas companhias acelerando sua transformação digital, o que deve ficar como um legado. Depois da crise, o e-commerce deve ter o dobro do tamanho que tem hoje.

O report Os efeitos do Covid-19 na Logística do E-commerce também reúne um overview das ações propostas pelos varejistas para as próximas semanas, certo? Quais são essas ações?

Rehm – Em resumo, os varejistas estão se preparando para a mobilidade dos colaboradores, desenvolvendo planos para ajudar a operação a chegar nos CDs em casos de proibição de trânsito e empregando desde aplicativos de transporte até caronas e minivans fretadas. Além disso, já esperam por demanda ou ausência nos CDs e realizam pré-contratação e pré-admissão de equipe para atuar sob demanda e com início de trabalho imediato.

E quais são as outras propostas identificadas?

Rehm – Em caso de impossibilidade de funcionamento, as empresas darão férias coletivas para os colaboradores. Também vimos o remanejamento de colaboradores do CD ou de lojas físicas para suporte em outros setores, como o SAC. É importante dizer que é preciso manter as ações até o último momento possível para que todos os consumidores e colaboradores se mantenham em segurança e saudáveis. Para isso, vale planejar diferentes cenários econômicos para tomar decisões, aguardando disposições políticas e econômicas para definir os próximos passos.

Tanto o ship from store quanto os Pudos – sigla para a expressão Pick Up and Drop Off, que se refere a um local onde o cliente possa retirar ou deixar sua mercadoria – são tendências que devem se fortalecer nos próximos meses. Além disso, vemos também o crescimento na busca por tecnologias que ajudem a operação logística ser mais ágil e inteligente.

No médio e no longo prazo quais são as perspectivas quanto às operações de distribuição?

Rehm – Ainda é cedo para avaliarmos as mudanças no médio ou no longo prazo. Mas, antes de tudo, a logística não pode parar. É fundamental garantir o funcionamento das operações e, para isso, as empresas precisam colocar em prática planos de contingência para garantir a saúde das pessoas e a sustentabilidade dos negócios. Em relação aos CDs é importante planejar e prever a falta de mão de obra, com um plano B nos casos de afastamento de funcionários, dificuldade de locomoção e aumento de demanda a ponto de a mão de obra não conseguir atendê-la. Além disso, estruturar turnos 247, sem overlaps, garantindo a saúde dos colaboradores e mantendo a produtividade.

Confira o report elaborado pela Intelipost no link http://intelipost-1.rds.land/report-covid-2020.

Fábio Penteado