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A IA não corrige processos: por que a tecnologia falha no chão da operação

Por Andrey Leite em 10 de agosto de 2026 às 10h00
Andrey Leite
Andrey Leite, diretor da Ekantika Consultoria

A promessa da inteligência artificial na operação é atraente: mais dados, mais capacidade analítica, antecipação de falhas e decisões mais precisas. O problema é que, em muitas empresas, a discussão começa pela tecnologia, e não pelos processos e pela qualidade dos dados. Escolhe-se plataforma e fornecedor sem antes definir padrões, critérios de decisão e responsabilidades. Nessas condições, a IA não transforma a operação: passa a conviver com os mesmos problemas de antes, agora com mais atividades duplicadas.

Essa é uma das principais armadilhas da transformação digital: acreditar que uma tecnologia sofisticada compensará processos pouco estruturados e decisões dependentes de experiência individual e improviso. Se o processo não é claro, os dados não refletem a realidade ou as responsabilidades não estão definidas, a tecnologia não sabe o que otimizar, sugere absurdos e gera alertas que ninguém sabe quem deve tratar

Quando um projeto de IA não entrega o resultado esperado, costuma-se culpar o algoritmo ou o fornecedor quando, com frequência, a causa está em uma camada anterior: a tecnologia foi implantada sobre um processo ainda não preparado para recebê-la.

 

Tecnologia não corrige processo desorganizado

Um processo desorganizado não é, necessariamente, um processo parado muitas vezes é o oposto: há movimento constante, mas pouca estabilidade. Prioridades mudam ao longo do turno, paradas são classificadas de formas diferentes e decisões dependem da experiência de poucas pessoas. Implantar IA nesse contexto significa acrescentar tecnologia a uma rotina que já tem excesso de variação, sem que o sistema consiga sozinho distinguir uma condição real de uma falha de apontamento.

O risco aumenta porque a tecnologia confere aparência de precisão: probabilidades e alertas parecem objetivos, mas podem esconder critérios inconsistentes e registros incompletos entre turnos, linhas e unidades. O problema não é apenas a tecnologia não entregar valor é a organização confiar em recomendações construídas sobre uma realidade distorcida. 

Antes de automatizar uma decisão, a empresa precisa entender como ela é tomada hoje, quais informações e critérios são usados e o que caracteriza um desvio. Sem essas respostas, o projeto começa pela ferramenta, mas não resolve o processo. 

A IA funciona melhor diante de uma operação minimamente estruturada, com objetivo claro, dados interpretáveis e rotina em que suas recomendações possam ser aplicadas.

 

A falsa percepção de que o sistema "resolve" a operação

É comum esperar que um novo sistema force, por si só, a melhoria dos processos e, em parte, isso ocorre, já que a implantação costuma expor inconsistências. Mas o sistema não organiza o processo sozinho; exige decisões muitas vezes adiadas por anos. 

Uma manutenção preditiva identifica mudanças de temperatura ou vibração, mas não define como priorizar alertas; uma ferramenta de planejamento pode indicar a sequência de produção mais eficiente, mas, se o comercial altera prioridades fora do processo, o plano será tecnicamente otimizado e operacionalmente inviável.

A implantação não deveria começar por "qual tecnologia utilizar?", e sim por "qual problema operacional queremos resolver e qual decisão precisa ser melhorada?". Colocar o sistema em funcionamento não significa ter resolvido o problema ou entregue valor ao negócio.

 

O conhecimento da operação ainda está nas pessoas

Em muitas operações, parte relevante da capacidade de operar e recuperar o processo permanece como conhecimento tácito: operadores que percebem mudanças pelo "feeling", técnicos que reconhecem falhas pelo comportamento de uma variável, supervisores que sabem quais restrições podem ser flexibilizadas. Esse conhecimento tem grande valor, mas raramente está estruturado.

Quando a empresa implanta IA sem incorporar o conhecimento, o modelo recebe apenas parte da realidade os dados mostram o que aconteceu, mas nem sempre o contexto da decisão, o que pode gerar recomendações tecnicamente corretas, porém distantes da prática.

Operadores, técnicos, supervisores e lideranças precisam participar da construção do modelo operacional. Transformar conhecimento tácito em conhecimento estruturado revisando padrões, documentando critérios e melhorando o apontamento de ocorrências é uma das etapas mais importantes de um projeto de IA, ainda que pareça menos sofisticada do que desenvolver um algoritmo. 

Esse trabalho também reduz a dependência de poucos indivíduos, tornando a operação menos vulnerável a férias, desligamentos e mudanças de turno. 

A tecnologia não elimina a experiência humana: ajuda a transformá-la em uma capacidade mais distribuída, repetível e escalável.

 

O verdadeiro ponto de partida

A discussão não deve ser colocada como escolha entre processo e tecnologia a operação precisa dos dois. Processos estruturados sem tecnologia limitam velocidade e escala; tecnologia sem processo amplia a complexidade sem melhorar o resultado. O ganho aparece quando a empresa combina uma operação minimamente estável com ferramentas capazes de elevar a qualidade da decisão.

O verdadeiro ponto de partida para a IA no chão de fábrica não é o algoritmo, mas o problema operacional: onde a empresa perde produtividade, qualidade, disponibilidade ou velocidade, e quais informações são necessárias para melhorar as decisões.

Só então a tecnologia ganha função objetiva não para organizar sozinha o que a liderança ainda não definiu, mas para ampliar uma capacidade já em construção no processo. 

Isso exige menos encantamento com a ferramenta e mais disciplina: revisar padrões, responsabilidades, dados e critérios de decisão; envolver quem conhece o processo; e medir o projeto pelo impacto que produz, não pela sofisticação que apresenta.

A inteligência artificial pode transformar o chão da operação e apoiar decisões hoje tomadas de forma reativa mas não substitui os fundamentos da gestão operacional. 

Antes de perguntar qual solução de IA implantar, é preciso responder: o processo que se quer automatizar está suficientemente claro para ser compreendido, medido e gerenciado? Se a resposta for negativa, o primeiro passo não é desenvolver o algoritmo. É organizar a operação.

*Andrey Leite é diretor de Excelência Operacional da Ekantika Consultoria

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